WWI
Worldwatch
Institute
Sistema
energético do século XX
é incompatível com a economia
digital
Estudo Apela para
Maior Uso da Microenergia
Seth
Dunn*
As gigantes usinas modernas, tanto
nucleares quanto a carvão, não estão conseguindo fornecer a eletricidade
confiável, de alta qualidade, necessária para mover a nova economia digital, de
acordo com um relatório do WWI-Worldwatch
Institute,
uma organização de pesquisa com sede em Washington-DC. Interrupções no
fornecimento de energia devido à vulnerabilidade das usinas centrais e das
linhas de transmissão, custam aos Estados Unidos até US$ 80 bilhões
anualmente.
"Estamos no limiar do século XXI com um sistema energético
que não pode conduzir nossa economia na direção necessária," declarou Seth
Dunn*, autor de Micropower: The Next Electrical Era." "O tipo de energia de alta
confiabilidade necessária para a economia atual só poderá se fundamentar numa
nova geração de aparelhos de microenergia que estão chegando ao mercado. Estes
permitem que lares e empresas produzam sua própria eletricidade, com muito menos
poluição."
As novas tecnologias de microenergia, que incluem células de
combustível, microturbinas e telhados solares, são tão minúsculas que chegam a
um milionésimo do porte das usinas nucleares ou a carvão de hoje – gerando pouca
ou nenhuma da poluição atmosférica dos seus primos maiores. Já, o potencial
multibilionário do mercado da microenergia provocou uma corrida dos
investidores, cujas compras fizeram disparar os preços das ações das novas
empresas no início do ano.
Um grupo de tecnologias de microenergia gera
eletricidade por combustão. Motores de movimento alternado, que tradicionalmente
utilizavam óleo diesel, amplamente utilizados como apoio, são cada vez mais
movidos a gás natural, operando durante a maior parte do dia. As microturbinas –
turbinas de gás avançadas, derivadas dos motores a jato dos aviões – estão
apenas começando a ser produzidas em massa, embarcadas às centenas e instaladas
em lanchonetes, restaurantes e outros prédios comerciais nos Estados Unidos.
Motores Stirling, que podem funcionar com aparas de madeira e até mesmo calor
solar, estão se tornando populares nos lares europeus.
Outros sistemas
microenergéticos dependem de processos que não envolvem combustão. As células de
combustível são dispositivos eletroquímicos que combinam hidrogênio e oxigênio
para produzir eletricidade e água. Várias centenas de células de combustível já
funcionam em todo o mundo e estarão disponíveis comercialmente para uso
doméstico nos próximos dois anos.
Células solares, ou fotovoltáicas
(PV) que utilizam a luz do sol que incide em chips semicondutores para gerar
corrente elétrica, já foram introduzidas no mercado doméstico e de prédios
comerciais no Japão e na Alemanha, e em uso fora de rede nos países em
desenvolvimento. A energia eólica, a tecnologia de energia renovável mais
competitiva em termos de custo, está pronta para uma rápida expansão nas
planícies rurais e áreas "off-shore." Pequenos sistemas geotérmicos,
microhidráulicos e de biomassa também desempenham papéis importantes no sistema
de eletricidade descentralizada emergente.
Esses geradores de pequena escala
têm inúmeras vantagens em comparação às grandes usinas elétricas. Localizados
próximos ao pontos de consumo, unidades pequenas podem proporcionar uma economia
de milhões de dólares aos usuários, evitando novos e dispendiosos investimentos
em usinas elétricas centrais e sistemas de distribuição.
A microenergia poderá também
economizar milhões de dólares às famílias e negócios, através da redução dos
apagões e conseqüente perda de produtividade. Uma rede de eletricidade com
vários geradores pequenos é intrinsecamente mais estável do que uma rede servida
por apenas poucas usinas de grande porte. Bancos, hospitais, restaurantes e
agências dos correios estão entre os primeiros usuários de sistemas de
microenergia, como forma de reduzir sua vulnerabilidade à interrupções de
energia. O First National Bank of Omaha, em Omaha, Nebraska, por exemplo, reagiu
a uma queda que lhe causou vultosos prejuízos à rede de computação em 1997,
conectando sua central de processamento a duas células de combustível que
proporcionam 99,9999% de confiabilidade.
O uso de sistemas de microenergia
mais eficientes, com base em combustão, dependendo principalmente do gás
natural, reduzirá significativamente as emissões de particulados, dióxido de
enxôfre, óxidos de nitrogênio e metais pesados. Essas reduções variarão entre 50
a 100 porcento, a depender da tecnologia e do poluente.
O uso de energia
eólica, solar e de células de combustível alimentadas a hidrogênio também pode
ajudar a reduzir as emissões globais de dióxido de carbono, um terço das quais
provêm da geração de eletricidade. Nos Estados Unidos, a adoção generalizada da
microenergia poderá reduzir à metade as emissões de dióxido de carbono das
usinas norte-americanas. Nos países em desenvolvimento, a energia em pequena
escala poderá diminuir as emissões de carbono em 42 porcento, em comparação aos
grandes sistemas.
A microenergia proporcionará aos
países em desenvolvimento a oportunidade de saltarem diretamente para fontes
energéticas mais baratas e limpas, ao invés de construírem mais usinas a carvão
ou nucleares e estenderem as linhas de transmissão existentes. Muitos desses
países perdem o equivalente a 20 – 50 porcento da energia total gerada, através
de escapes em seus sistemas de transmissão e distribuição. Nas regiões rurais,
onde 1,8 bilhões de pessoas ainda não têm acesso aos serviços de eletricidade,
sistemas em pequena escala já são economicamente superiores à extensão das
linhas de transmissão – e ambientalmente preferíveis à dependência contínua de
lanternas a querosene e geradores a diesel. Até o momento, sistemas solares PV
foram instalados em mais de meio milhão de lares.
A despeito dos
benefícios potenciais da microenergia, as regras atuais de mercado na maioria
dos países favorecem a manutenção do modelo centralizado. Ademais, muitas
concessionárias elétricas vêem os sistemas de microenergia como uma ameaça
econômica e estão dificultando a implantação, através de taxas onerosas de
ligação e preços baixos para a energia alimentada à rede. A permanência dessas
regras e práticas poderá resultar na construção de outra geração de grande
usinas elétricas parcialmente aperfeiçoadas, porém, a longo prazo de valor
questionável tanto em termos ambientais quanto econômicos.
O tanto que os mercados energéticos
atuais favorecem soluções míopes é realçado pela pressa na construção de
aproximadamente 100.000 megawatts de "usinas mercantes" em todo o mundo. Estas
grandes usinas a gás, comercializadas como a resposta às faltas de energia, são
projetadas para ganhar dinheiro com a venda de energia em mercados de energia
recentemente desregulamentados, quando a demanda e os preços estiverem altos.
Todavia, causam preocupações graves entre os investidores em virtude do grau de
risco financeiro, e entre grupos locais por seus impactos ecológicos adversos –
pois muitos se localizam em áreas rurais ou primitivas.
O risco de se
fixar em usinas elétricas centrais obsoletas é ainda maior no mundo em
desenvolvimento. Nos próximos 20 anos, cerca de US$ 1,7 trilhões estão
projetados para investimentos de capital em capacidade geradora nos países em
desenvolvimento. "Essas nações têm uma oportunidade de ouro para acertar as
regras logo de primeira e organizar mercados que dêem sustentabilidade à
sistemas adequados ao século XXI e não ao XX," conclui
Dunn.
*Seth Dunn é pesquisador do WWI.
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