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“PERDOAR E ESQUECER”
Não resolverá a dívida do Terceiro Mundo
Quando as reuniões
da Primavera do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional iniciarem em
Washington, DC, em 29 de abril de 2001, os delegados se vangloriarão dos cerca
de US$ 20 bilhões de dívidas que prometeram cancelar, desde que se reuniram sob
os fortes protestos das manifestações no ano passado. Estas promessas são um
passo na direção certa, conclui um novo relatório do Worldwatch Institute, uma
organização de pesquisa sediada em Washington. Mas, mesmo um cancelamento total
seria apenas um “Band-Aid” para um sistema quebrado.
“Antes dos
delegados se congratularem precisarão atentar para um problema mais amplo – como
evitar que esta crise ocorra novamente,” declarou David Malin Roodman, autor de
Still Waiting for the Jubilee: Pragmatic Solutions for the Third World Debt
Crisis. “Ainda precisa-se dar baixa em centenas de bilhões de dólares de
dívidas impagáveis. E os credores pouco fizeram para mudar as práticas dos
empréstimos que criaram o problema da dívida em primeiro lugar”.
“Por
exemplo, as iniciativas para a redução da dívida da Tanzânia, de US$ 5,7 bilhões
para cerca de US$ 1,8 bilhões são bem-vindas porém, a não ser que haja mudanças,
o país provavelmente tomará novos empréstimos, voltando a um endividamento de
US$ 6 bilhões até 2018.”
Roodman
advoga grandes reformas para evitar que as nações mais pobres se afundem
novamente em dívidas. No lado do tomador, as reformas incluem diminuir a
corrupção nos governos e aumentar suas responsabilidades. No lado credor,
incluem:
·
Conceder aos países pobres maior acesso ao ganho de divisas através da
redução de barreiras comerciais nos países ricos, viabilizando maior importação
dos mais pobres.
· Basear
as contribuições governamentais ao FMI e bancos de desenvolvimento na melhoria
das reformas que realizarem às suas culturas gerenciais no sentido de premiar
seus funcionários por resultados, ao invés de estimular empréstimos.
·
Assegurar que os organismos internacionais de ajuda, desde a Japan
International Cooperation Agency até o Banco Mundial, concedam menos empréstimos
e mais subvenções às nações mais pobres.
·
Desativar gradualmente, ou eliminar, as agências governamentais de
crédito à exportação nos países ricos, que subsidiam seus exportadores através
de empréstimos às nações que adquirem suas mercadorias – mesmo quando estas
nações não têm capacidade de amortizar tais empréstimos.
“Infelizmente,
muitos financiadores oficiais parecem presos a uma mentalidade defensiva, tão
temerosos de reconhecerem seus erros ao cancelarem empréstimos fracassados, o
que efetivamente prolonga a crise da dívida,” declara Roodman. “Numa espécie de
carrossel financeiro, os países ricos, o FMI, o Banco Mundial e outros
financiadores oficiais concedem novos empréstimos para pagamento de velhos. Para
cada dólar que emprestam às nações de baixa renda, obtêm imediatamente 83
centavos do principal e juros. Isto dá uma aparência eficiente a dívidas
incobráveis e oculta a extensão plena do fracasso.”
Através do
incremento à Iniciativa da Dívida para os Países Pobres Altamente Endividados
(iniciativa HIPC), anunciada na reunião de cúpula do G-7 em 1999, em
Colônia, os credores oficiais deram um passo em direção à eliminação da crise da
dívida em 41 das nações mais pobres, se predispondo a cancelar muito mais do que
realizado anteriormente.
“A
iniciativa HIPC tem falhas graves,” declara Roodman. “Inicialmente, a
HIPC exclui três das nações mais endividadas do Mundo – Indonésia,
Paquistão e Nigéria – sob o argumento discutível de terem capacidade de
amortizarem suas dívidas. Entretanto, agências de crédito como Moody’s e
Standard & Poor classificam estes países como tendo menor capacidade
financeira para obter crédito do que os países na lista HIPC.” Roodman
argumenta que um quadro completo da crise da dívida do Terceiro Mundo deve
incluir três países adicionais, altamente endividados – Camboja, Afeganistão e
Comoros – que não constam da lista.
O volume de
alívio da dívida sob os termos da HIPC é muito baixo. Dos 47 países mais
altamente endividados, apenas 22 receberam promessas de alívio da dívida nos
programas recentes. Esses 47 países estão tão atolados em dívidas e pobreza que,
dos US$ 422 bilhões da dívida externa, aproximadamente US$ 291 bilhões poderão
nunca ser pagos, de acordo com o relatório.
E os
financiadores oficiais prometeram até agora cancelar apenas US$ 33 bilhões, a
maior parte através da iniciativa HIPC, inclusive cerca de US$ 20 bilhões
no ano passado. “Os críticos, compreensivelmente, se preocupam que um
cancelamento maior de dívidas é como se entregar cheques em branco a ditadores.
Porém, os financiadores já deram estes cheques em branco ao realizarem
empréstimos que são, hoje, impagáveis. Dar baixa em dívidas incobráveis é
simplesmente contabilidade responsável.”
Os atuais
encargos insustentáveis da dívida são um obstáculo gigantesco para o alívio da
pobreza e proteção ambiental. Muitas das 47 nações altamente endividadas
despendem mais no serviço da dívida externa do que em saúde, educação e serviços
sociais para suas próprias populações. Trinta e sete desses países estão
classificados dentro, ou ligeiramente acima, da categoria mais baixa do
desenvolvimento humano das Nações Unidas. Num caso extremo, Zâmbia alocou 40
porcento do seu orçamento para pagamento da dívida externa em 1997, e apenas 7
porcento para serviços sociais básicos. A taxa de mortalidade entre as crianças
da Zâmbia está em ascensão devido à falta de aplicação de vacinas em um terço
destas crianças abaixo de cinco anos de idade.
Além disso,
a necessidade de gerar divisas em muitos países altamente endividados representa
um ônus adicional sobre os recursos naturais. A pressão da dívida fomentou
aumentos em pesquisas minerais e exploração madeireira voltadas à exportação,
nos países em desenvolvimento. Roodman declara que vários estudos constataram um
elo estatístico entre o alto ônus da dívida e o desmatamento.
A fim de
conduzir a crise da dívida do terceiro mundo para uma solução rápida e evitar
sua repetição, Roodman recomenda um programa de recuperação em quatro etapas
para os governos e organismos internacionais de financiamento:
1.
Reconhecer a realidade que a maior parte da dívida nunca será paga.
2. Dar
baixa de dívidas incobráveis.
3. Analisar o passado, para entender o que
causou a crise e quais as mudanças necessárias para evitar uma repetição desses
erros.
4. Aplicar estas lições, reformando o sistema de empréstimo
internacional.
“Infelizmente,
ainda nem chegamos à etapa 2,” disse ele.
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