WWI
Worldwatch Institute
www.wwiuma.org.br
Quando o
vírus da aftosa disseminou-se pelos campos britânicos na primavera passada,
custando à nação cerca de US$ 6 bilhões – os teóricos da conspiração
especularam se esta introdução teria sido um ato intencional da guerra
biológica. Embora esta doença não afete os seres humanos, pode enfraquecer o
gado, dizimar rendas agrícolas, devastar a confiança do consumidor no
suprimento de alimentos e paralisar as economias rurais com quarentenas e
outras restrições.
A
Secretária de Agricultura Ann Veneman, recentemente destacou o sucesso do seu
departamento na contenção da aftosa como prova que o Governo dos Estados Unidos
está preparado para responder a qualquer ataque terrorista aos alimentos que
consumimos. Mas, como tantas declarações oficiais durante a rodada atual dos
ataques com antraz, seu otimismo pode estar lamentavelmente mal aplicado.
Consideremos
um elo, particularmente vulnerável, em nossa cadeia alimentar: as instalações
modernas de processamento de carne. Atuando em todo o país, as instalações
típicas podem processar milhões de quilos de carne moída, frios ou
cachorros-quentes em poucos dias apenas.
Em
comparação a um alvo do bio-terrorismo, como uma estação de tratamento de água,
as instalações de processamento de carne não dispõem praticamente de segurança
alguma, e suas forças de trabalho estão escancaradas à infiltração. Muitos dos
abatedouros nacionais empregam trabalhadores migrantes mal treinados e mal
remunerados, freqüentemente com pouca documentação ou verificação de
antecedentes. Normalmente giram equipes inteiras em um ano, não havendo
condições de assegurar quem realmente trabalha nesses locais.
O
processamento de carne já é a ocupação mais perigosa do país. A taxa de
acidentes graves – perda de um membro ou olho – é cinco vezes maior do que a
média nacional. Em 1999, mais de um em cada quatro dos 150.000 trabalhadores em
frigoríficos, nos Estados Unidos, sofreu acidente ou doença de trabalho.
Provavelmente, a segurança da cadeia alimentar não é a preocupação principal de
trabalhadores que se esforçam para não ser aleijados por facas mecânicas ou
desviar de carcaças de duas toneladas que se deslocam em grande velocidade.
Entretanto,
sob várias formas, estas pessoas – e as condições destas instalações – formam
uma improvável primeira linha de defesa contra doenças transmitidas por
alimentos.
Um
terrorista poderia contaminar um volume gigantesco de carne já pronta com a
introdução estratégica de uma amostra de uma espécie, como E. coli ou salmonela
ou listeria. E diferentemente do antraz, que é difícil de se obter e preparar,
estas bio-armas estão facilmente disponíveis.
Estudos na
edição de 18 de outubro do New England Journal of Medicine, demonstram
que os regulamentos governamentais já não garantem a segurança de nossos
alimentos. Um estudo mostra que uma em cada cinco amostras de carne moída,
adquirida em supermercados nos Estados Unidos, continha salmonela resistente a
antibióticos. Outro estudo constatou que mais da metade dos frangos adquiridos
de 26 supermercados na Georgia, Maryland, Minnesota e Oregon continha formas
resistentes do germe, às vezes fatal, Enterococcus faecium. No caso da
nossa cadeia alimentar, um desastre da saúde pública está prestes a ocorrer,
sem necessidade de qualquer ato terrorista. Les Friedlander, um ex-veterinário
do USDA [Departamento de Agricultura dos Estados Unidos], sugere que uma pessoa
trabalhando num estabelecimento poderia facilmente obter uma amostra de
salmonela ou E. coli, ou algum outro agente ameaçador da vida, do laboratório
de inspeção do próprio estabelecimento, e utilizá-lo para uma contaminação em
larga escala.
O
sucateamento gradual da fiscalização e supervisão da carne nas últimas décadas,
significa que os regulamentos e normas atuais nem ao menos evitam introduções
não-intencionais destes contaminantes. Só nos primeiros 9 meses de 2001, o USDA
anunciou 60 “recalls,” totalizando quase 15 milhões de quilos de carne.
Infelizmente,
a vulnerabilidade deste elo da carne na cadeia alimentar não é única. Sob uma
perspectiva da guerra biológica, os alvos mais fáceis são populações de
organismos geneticamente semelhantes, nos quais um único vírus poderia
facilmente infectar a maioria dos indivíduos. Consideremos que 90 porcento do
gado leiteiro do país é relacionado estreitamente com a raça Holstein. O maior
produtor nacional de suínos, Smithfield, controla 12 milhões de porcos que são
praticamente clones uns dos outros. A atividade pecuária que confina dezenas de
milhares de animais em recintos apertados e não-higiênicos, ou as vastidões
monocultivadas de trigo ou soja que cobrem uma grande parte da região central
do país, são alvos perfeitos.
Não
precisamos dos roteiristas hollywoodianos contratados recentemente pela CIA
para imaginar ameaças terroristas potenciais aos alimentos que consumimos. Ao
invés, enquanto a conscientização pública sobre a segurança estiver tão
aguçada, é a oportunidade perfeita para limpar o sistema alimentício de dentro
para fora, criando melhores condições higiênicas para o gado, estabelecendo
restrições sobre o uso de antibióticos nas rações, e proporcionando condições
mais humanas para os trabalhadores nos abatedouros.
Da mesma
forma que Upton Sinclair, em The Jungle, enfocou as práticas escabrosas
de processamento de carne na virada do Século XIX, a ameaça do terrorismo está
lançando um foco em indústria após indústria, desde os correios até as viagens
aéreas, expondo vulnerabilidades sempre conhecidas mas nunca levadas a sério.
No
passado, o argumento da saúde pública para a limpeza das cadeias alimentares da
América deixou repetidamente de motivar os políticos no apoio às mudanças que
necessitamos para a proteção de todos os americanos contra alimentos contaminados.
Se tivermos sorte, o clamor de hoje por segurança interna levará finalmente a
ações significativas que garantam nosso suprimento alimentício contra as
ameaças de epidemias, tanto acidentais quanto terroristas.
Brian Halweil, Pesquisador
Associado do WWI
Copyright, WWI-Worldwatch Institute / UMA-Universidade Livre da Mata
Atlântica 2001, todos os direitos reservados.
Autorizada a reprodução total ou parcial, citando a fonte e o site www.wwiuma.org.br
Clique aqui para acessar as publicações do WWI
em português
Clique aqui para
inscrever-se na Newsletter WWI-UMA em português