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| . | BRASIL PODE LIDERAR O E9 Com Christopher Flavin Presidente do Worldwatch Institute http://www.worldwatch.org.br/ Superpotência ambiental. É assim que o Worldwatch
Institute, principal organização do mundo na cruzada pelo desenvolvimento
sustentável, classifica o Brasil. A entidade acaba de constituir o grupo
E9: os nove países de maior importância e responsabilidade na questão
ambiental, desafio de vida ou morte para a civilização do Terceiro
Milênio. O presidente do Worldwacht Institute, com sede em Washington, é o
economista e biólogo americano Christopher Flavin.Autor de dezenas de livros e centenas de ensaios sobre questões de sustentabilidade econômica e ambiental. Participa da direção de entidades internacionais do porte do Business Council for Sustainable Energy, American Wind Energy Association, Climate Action Network e International Solar Energy Society. A seguir, a entrevista exclusiva a Joelmir Beting pela Web, of course. Qual é o maior desafio ambiental do Brasil? Ainda é a miséria. Ela é degradante também para o meio ambiente. Logo, o principal desafio está no desenvolvimento econômico susten-tável, com redistribuição da renda em crescimento. Um modelo baseado na promoção de recursos humanos tornará o Brasil menos dependente do estoque de recursos naturais. O desenvolvimento sustentável do Brasil interessa ao mundo todo. E o que o que o Worldwatch pode fazer a esse respeito? Já estamos fazendo. O Brasil acaba de ser incluido no chamado E9, identificado como um dos nove países-chave para a sustentabilidade do planeta. O Brasil pode ser definido como superpotência ambiental. Com 16% das florestas e 21% de todas as espécies vegetais já identificadas no mundo, o Brasil é essencial para a saúde biológica e ambiental de toda a Humanidade. Quais são os integrantes do E9 ? São os países de grande extensão territorial ou de grande massa populacional ou de grande peso econômico. Caso de Estados Unidos, China, Índia, Indonésia, Rússia, Brasil, Japão e União Européia (que vale por dois). Queremos institucionalizar o E9 na lidrança política do campo ambiental, assim como se faz com o G-7 no campo econômico. Penso que o Brasil tem condição de presidir esse grupo. Pelo interesse internacional que desperta a Amazônia? Nem só de Amazônia vive a superpotência ambiental chamada Brasil. O país conta com outros ecossistemas de importância global, tais como os cerrados, o Pantanal, as grandes bacias hidrográficas e a Mata Atlântica. O que ainda resta da Mata Atlântica leva agora a designação de Patrimônio da Humanidade, pela UNESCO. Tanto assim, que o Worldwatch deve publicar, ainda este ano, um completo levantamento sobre a importância da Mata Atlântica para todo o mundo. O Congresso brasileiro discute mudanças no Código Florestal e passa ao Exterior a idéia de que estamos afrouxando os controles do desmatamento em todo o país e não apenas na Amazônia. O que o Worldwatch pensa sobre isso? O importante é que a opinião pública brasileira está atenta nessa matéria, bem como o governo e boa parte do Congresso. Os próprios produtores rurais esclarecidos sabem que a floresta é uma riqueza econômica enquanto floresta em estado puro. No futuro, riqueza bem maior que a de qualquer alternativa de lavouras ou de rebanhos em áreas desmatadas. Este é o século da biotecnologia e o Brasil vai sacar, com monitoramento e sustentabilidade, o cheque visado desse fantástico banco de biodiversidade existente em suas florestas. Em resumo: a Amazônia não tem vocação para celeiro do mundo. A floresta de bom manejo vai render também alimentos de coleta. Mas o extrativismo responsável vai gerar igualmente madeiras, resinas, fármacos, matérias-primas industriais e todo um arsenal de novos recursos ainda sequer descobertos pelo homem. É bom lembrar que o extrativismo hoje existente, embora canhestro, já dá trabalho e sustento para mais de um milhão e meio de brasileiros. Ou dez vezes mais que lavouras e rebanhos em toda a região. Brasil de lado, qual é o maior desafio ambiental do planeta? Sem dúvida, é a mudança climática precipitada pela falta de juizo ambiental da civilização do século 20. O bicho-homem já conseguiu perturbar todos os sistemas naturais da Terra. Certos cataclismas dito naturais já fazem parte da vingança da natureza. Ou seja: essa conta já nos está sendo devidamente cobrada. O século 21 tem a solução para tamanho desafio? Em mais duas ou três décadas, com certeza. A tragédia climática poderá ser evitada pela substituição do petróleo e do carvão, combustíveis fósseis, por fontes alternativas de energia renovável. É o melhor expediente para romper a correia de transmissão do efeito estufa. A queima de combustíveis fósseis, liderados pelo petróleo, liberou 160 bilhões de toneladas de carbono na atmosfera apenas nas últimas três décadas. Não basta substituir. É preciso saber consumir, não é isso? Sim. A substituição é complicada. Mas a poupança de energia, no sentido do uso racional dela, está ao alcance de todos nós. Não há mais tempo a perder. Temos de realizar investimentos de peso no aumento da eficiência energética das máquinas e dos motores que hoje utilizamos. Conservação de energia casada com substituição de energia. Aposta-se no Worldwatch em quais fontes alternativas? No aproveitamento do hidrogênio e na exploração adequada das energias eólica e solar. Já temos tecnologia para isso. Essa opção por uma nova matriz energética seria de governo ou de mercado ? De ambos. Os governos devem dar provas de vontade política na resolução pactuada de problemas ambientais. E as empresas podem lucrar com novos padrões de utilização de energia. Um novo choque do petróleo, por exemplo, teria um grande efeito catequético para governos e empresas nessa mudança. Para o Worldwatch, esse terceiro choque ainda é um risco real? Sim, porque o problema de fundo, no mercado do petróleo, é de carater político e não técnico ou físico. E da cartola da política pode sair qualquer bicho e não apenas pombas e coelhos. Até porque, fisicamente, o petróleo continua em contagem regressiva para a exaustão. O recurso é finito e o consumo dele tende a dobrar a cada 25 anos. Ou a cada 15 anos ou menos em países como o Brasil. A opinião pública tem consciência disso? Não. A maioria acha que estamos produzindo falsos alarmes em relação ao petróleo. Ou que tudo não passa de uma questão política que pode ser resolvida na caneta de um tratado de paz. Ou até mesmo pela ocupação militar dos poços muçulmanos rebeldes... E a energia nuclear? Ainda tem futuro? Em meia dúzia de países de peso, os reatores já substituiram o petróleo e o carvão no parque gerador de eletricidade. No Japão, na Suiça e na Suécia, mais de um terço. Na França, mais de quatro quintos. O problema é que as salvaguardas cada vez mais rigorosas (e imprescindíveis como tal) tendem a encarecer progressivamente o quilowatt de origem nuclear, erodindo a competitividade desses mesmos países. A questão de fundo seria mais econômica do que ambiental? Também econômica e não apenas ambiental. Em mais duas décadas, a disponibilidade de novas alternativas fará de cada usina atômica um blefe energético. Pior: os reatores poderão ser desligados, mas não removidos. Uma sucata terrível e inarredável por centenas ou milhares de anos. (21/6/2000 16:12:35 ) | ||