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A Economia e a Terra |
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Em 1543, o astrônomo polonês Nicolau Copérnico publicou "Das Revoluções dos Mundos Celestes," onde contestava a opinião que o Sol girava em torno da Terra, defendendo o inverso, que a Terra girava em torno do Sol. Com seu novo modelo do sistema solar, deu-se início a um extenso debate entre cientistas, teólogos e outros. Sua alternativa ao modelo anterior de Ptolomeu, que mantinha a Terra como centro do Universo, levou a uma revolução do pensamento, a uma nova visão mundial.1 Hoje, precisamos de igual mudança em nossa visão mundial, na forma como vemos o relacionamento entre a Terra e a economia. A questão agora não é qual corpo celeste gira em torno de qual, e sim se o meio ambiente é parte da economia ou a economia é parte do meio ambiente. Os economistas vêem o meio ambiente como um subconjunto da economia. Os ecólogos, por outro lado, consideram a economia como um subconjunto do meio ambiente. Da mesma forma que a visão de Ptolomeu, a visão dos economistas confunde os esforços para um melhor conhecimento do nosso mundo moderno. Criou-se uma economia fora de sincronia com o ecossistema do qual ela depende. | ||||||
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A teoria econômica e os indicadores econômicos não explicam como a economia está perturbando e destruindo os sistemas naturais da Terra. A teoria econômica não explica por que o gelo do Mar Ártico está derretendo. Não explica por que os prados estão se transformando em desertos no noroeste da China, por que os recifes de coral estão morrendo no Pacífico Sul ou por que os pesqueiros de bacalhau em Terra Nova entraram em colapso. Também não explica por que estamos vendo o início da maior extinção de plantas e animais desde o desaparecimento dos dinossauros, há 65 milhões de anos. Entretanto, a economia é essencial para se medir o custo destes excessos para a sociedade. Pode-se comprovar que a economia está em conflito com os sistemas naturais da Terra nas notícias diárias de colapso de pesqueiros, encolhimento de florestas, erosão de solos, deterioração de pradarias, expansão de desertos, aumento constante dos níveis de dióxido de carbono (CO2), queda de lençóis freáticos, aumento da temperatura, tempestades mais destrutivas, derretimento de geleiras, elevação do nível do mar, morte de recifes de coral e desaparecimento de espécies. Essas tendências, que assinalam uma relação cada vez mais estressada entre a economia e o ecossistema da Terra, estão causando prejuízos econômicos cada vez maiores. A certa altura, isso poderá subjugar as forças mundiais do progresso e levar ao declínio econômico. O desafio de nossa geração é reverter essas tendências, antes que a deterioração ambiental conduza a um declínio econômico de longo prazo, como ocorreu com tantas outras civilizações anteriores. Essas tendências, cada vez mais visíveis, indicam que, se a operação do subsistema, a economia, for incompatível com o comportamento do sistema maior _ o ecossistema da Terra _, ambos virão a sofrer. Quanto mais a economia se tornar relativa ao ecossistema e quanto mais pressionar os limites naturais da Terra, mais destrutiva será esta incompatibilidade. Uma economia ambientalmente sustentável _ uma eco-economia _ requer que os princípios da ecologia estabeleçam o arcabouço para a formulação de políticas econômicas e que economistas e ecólogos trabalhem, em conjunto, para modelar a nova economia. Os ecólogos entendem que toda atividade econômica, efetivamente toda vida, depende do ecossistema da Terra _ o complexo de espécies individuais vivendo em harmonia, interagindo entre si e seus habitats físicos. Essas milhões de espécies existem dentro de um equilíbrio delicado, interligadas numa trama de cadeias alimentares, ciclos de nutrientes, ci | |||||
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clo hidrológico e sistema climático. Economistas sabem como transformar metas em políticas. Economistas e ecólogos, trabalhando conjuntamente, podem projetar e construir uma eco-economia que possa sustentar o progresso. Da mesma forma que o reconhecimento de que a Terra não era o centro do sistema solar abriu caminho para os avanços da astronomia, física e ciências afins, também o reconhecimento de que a economia não é o centro do nosso mundo criará as condições para sustentar o progresso econômico e melhorar a condição humana. Após Copérnico ter delineado sua teoria revolucionária, surgiram duas visões de mundo extremamente diferentes: aqueles que mantiveram a visão de Ptolomeu viam um mundo, e aqueles que aceitaram a visão de Copérnico viam outro, bastante diferente. O mesmo se pode dizer hoje das visões díspares de mundo de economistas e ecológos. Essas diferenças entre ecologia e economia são fundamentais. Por exemplo, ecólogos se preocupam com limites, enquanto economistas tendem a não reconhecer quaisquer controles. Ecólogos, pegando a dica da natureza, pensam em termos de ciclos, enquanto economistas são mais propensos a pensar em termos lineares, ou curvilíneos. Os economistas têm imensa fé no mercado, enquanto os ecólogos freqüentemente deixam de considerar o mercado adequadamente. Ao se iniciar um novo século, a distância que separa economistas de ecólogos em sua percepção do mundo não poderia ser maior. Economistas olham o crescimento sem precedentes da economia global e do comércio e investimento internacionais e vêem um futuro promissor em expansão contínua. Observam com orgulho justificável que, desde 1950, a economia global cresceu sete vezes, aumentando a produção de bens e serviços de US$ 6 trilhões para US$ 43 trilhões, em 2000, incrementando os padrões de vida em níveis antes impensáveis. Os ecólogos olham para esse mesmo crescimento e percebem que é produto da queima de gigantescas quantidades de combustíveis fósseis, artificialmente baratos, num processo que está desestabilizando o clima. Olham à frente e vêem ondas mais intensas de calor, tempestades mais destrutivas, degelo da calota polar e um nível do mar em elevação, o que reduzirá a área de terra enquanto as populações continuam a crescer. Enquanto economistas vêem prósperos indicadores econômicos, ecólogos vêem uma economia que está alterando o clima, com conseqüências totalmente imprevisíveis.2 | ||||
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À medida que o novo século avança, os economistas olham para os mercados de grãos e vêem os preços atingindo os níveis mais baixos em duas décadas _ um sinal seguro de que a capacidade de produção está ultrapassando a demanda efetiva e que, tão cedo, controles de oferta provavelmente não serão necessários. Enquanto isso, ecólogos vêem lençóis freáticos caindo nos principais países produtores de alimentos e sabem que 480 milhões das 6,1 bilhões de pessoas no mundo estão sendo alimentadas com grãos produzidos pela extração predatória dos aqüíferos. Estão preocupados com os efeitos da exaustão previsível dos aqüíferos sobre a produção de alimentos.3 Economistas dependem do mercado para orientar tomadas de decisão. Respeitam o mercado porque este pode alocar recursos com uma eficiência que um planejamento centralizado jamais poderia igualar (como os soviéticos aprenderam a um custo tremendo). Ecólogos vêem o mercado com menos reverência porque vêem um mercado que não fala a verdade. Por exemplo, ao comprar um litro de gasolina, o usuário efetivamente paga pela extração do petróleo, refino e entrega ao posto. Não paga, porém, pelo tratamento de doenças respiratórias causadas pela poluição atmosférica, nem pelos custos da perturbação climática. Ecólogos vêem o crescimento econômico recorde das últimas décadas, mas também vêem uma economia cada vez mais conflitante com seus sistemas de apoio, uma economia que rapidamente dilapida o capital natural da Terra, direcionando a economia global para um caminho ambiental que, inevitavelmente, conduzirá ao declínio econômico. Vêem a necessidade de uma reestruturação maciça da economia para que se mescle ao ecossistema. Sabem que uma relação estável entre a economia e o ecossistema da Terra é essencial para a sustentabilidade do progresso econômico. Criamos uma economia que não pode sustentar o progresso econômico, uma economia que não pode nos conduzir ao destino desejado. Da mesma forma que Copérnico teve que formular uma nova cosmologia astronômica, após várias décadas de observações celestiais e cálculos matemáticos, nós também devemos formular uma nova cosmologia econômica, baseada em várias décadas de observações e análises ambientais. Embora o conceito de que a economia deve estar integrada à ecologia possa parecer radical para muitos, provas se acumulam indicando | |||||
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que é a única abordagem que reflete a realidade. Quando as observações não mais apóiam a teoria, é chegada a hora de mudar a teoria _ o que o historiador científico Thomas Kuhn chama de mudança de paradigma. Sendo a economia um subconjunto do ecossistema da Terra, como este livro sustenta, a única formulação de política econômica que terá sucesso é uma que respeite os princípios da ecologia.4 A boa notícia é que os economistas estão adquirindo maior conscientização ecológica, reconhecendo a dependência inerente da economia ao ecossistema da Terra. Por exemplo, cerca de 2.500 economistas _ incluindo oito Prêmios Nobel _ endossam a introdução de um imposto do carbono para estabilizar o clima. Mais e mais economistas estão buscando formas de fazer com que o mercado fale a verdade ecológica. Essa conscientização em expansão é evidente no crescimento acelerado da International Society of Ecological Economics, que conta com 1.200 membros e representações na Austrália/Nova Zelândia, Brasil, Canadá, Índia, Rússia, China e por toda a Europa. Seu objetivo é integrar o pensamento dos ecólogos e economistas numa transdisciplina voltada à criação de um mundo sustentável.5
Economia Autodestrutiva Os indicadores econômicos do último meio século revelam um progresso extraordinário: como mencionado anteriormente, a economia aumentou sete vezes, entre 1950 e 2000; o comércio internacional cresceu mais rapidamente ainda; o Índice Dow-Jones, indicador largamente utilizado para as ações negociadas na Bolsa de Valores de Nova York, subiu de 3.000 em 1990 para 11.000 em 2000. Era difícil não ficar otimista quanto às perspectivas econômicas de longo prazo, ao se iniciar o novo século.6 Mas esse otimismo desapareceria se houvesse uma análise dos indicadores ecológicos. Praticamente cada indicador global estava orientado na direção errada. As políticas econômicas que geraram o crescimento extraordinário da economia mundial são as mesmas que estão destruindo seus sistemas de apoio. Por qualquer medida ecológica que se possa conceber, são políticas fracassadas. Um manejo inadequado está destruindo florestas, pradarias, pesqueiros e terras agrícolas _ os quatro ecossistemas que fornecem nosso alimento e, com exceção dos minerais, toda nossa matéria-prima também. Embora muitos de nós vivamos numa sociedade urbana de alta tecnologia, dependemos dos | ||||
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sistemas naturais da Terra da mesma forma que nossos ancestrais caçadores _ catadores dependiam. A fim de colocar os ecossistemas em termos econômicos, um sistema natural, como um pesqueiro, funciona como uma poupança. A receita de juros da poupança continuará perpétua contanto que a poupança seja mantida. Caso haja saque, a receita se reduz. Se a poupança por fim se exaure, a receita de juros desaparece. Assim é com os sistemas naturais. Caso a extração sustentável de um pesqueiro seja excedida, os estoques começam a encolher e finalmente acabam por completo quando entram em colapso. O fluxo de caixa dessa poupança também desaparece. Ao iniciarmos o Século XXI, nossa economia está destruindo lentamente nossos sistemas de apoio, consumindo sua poupança de capital natural. As demandas da economia em expansão, como ora é estruturada, estão suplantando a produção sustentável dos ecossistemas. Um terço das áreas agrícolas mundiais estão perdendo, com extrema facilidade, a camada superior do solo num ritmo que solapa sua produtividade a longo prazo. Chega a 50% a área mundial que sofre pastoreio predatório, deteriorando-se em desertos. As florestas mundiais encolheram pela metade, desde a aurora da agricultura, e continuam encolhendo. Dois terços dos sítios pesqueiros oceânicos estão sendo explorados além da sua capacidade; a pesca predatória hoje é a regra e não a exceção. E a extração exagerada da água subterrânea é comum nas principais regiões produtoras de alimentos.7 Em grandes áreas do mundo, a perda da camada superior do solo causada pela erosão eólica e hídrica hoje suplanta a formação natural de novos solos, drenando gradativamente a fertilidade da terra. Num esforço para conter esse dano, os Estados Unidos estão desativando áreas agrícolas altamente erodíveis, anteriormente lavradas em excesso, para aumentar a produção de alimentos. Esse processo teve início em 1985 com o Conservation Reserve Program, que pagava aos agricultores para desativarem 15 milhões de hectares, ou aproximadamente um décimo das áreas agrícolas dos Estados Unidos, reconvertendo-os em pastos ou florestas, antes que se transformassem em deserto.8 Nos países que não dispõem desses programas, agricultores são forçados a abandonar terras altamente erodíveis, que perderam grande parte da sua camada superficial. Na Nigéria, a desertificação conquista mais de 500 quilômetros quadrados de terra produtiva a cada ano. No | |||||
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Casaquistão, onde foi implantado o Projeto Soviético de Terras Virgens nos anos 50, metade da área agrícola foi abandonada a partir de 1980, quando a erosão do solo diminuiu sua produtividade. Isso reduziu a colheita de trigo do Casaquistão de aproximadamente 13 milhões de toneladas em 1980 para 8 milhões em 2000 _ uma perda econômica de US$ 900 milhões ao ano.9 Os pastos que fornecem grande parte da proteína animal mundial também estão sob pressão excessiva. À medida que a população humana cresce, também aumenta o tamanho dos rebanhos. Com 180 milhões de pessoas hoje no mundo tentando sobreviver, criando 3,3 bilhões de cabeças de bovinos, ovinos e caprinos, as pastagens estão simplesmente entrando em colapso com tamanha demanda. Como conseqüência do excesso pecuário, os pastos estão se deteriorando em grande parte da África, Oriente Médio, Ásia Central, norte do subcontinente indiano e grande parte do noroeste da China. A pastagem predatória é atualmente a causa principal de desertificação, a transformação de terras produtivas em desertos. Na África, a perda anual da produção pecuária devido à degradação cumulativa dos pastos é estimada em US$ 7 bilhões, um valor quase equivalente ao produto interno bruto da Etiópia.10 Na China, uma combinação de lavragem e pastagem excessivas para atender às necessidades crescentes de alimentos está criando uma região árida, propensa a tempestades de poeira, como ocorreu nos Estados Unidos nos anos 30 _ porém em maiores dimensões. Num esforço desesperado para manter sua auto-suficiência em grãos, a China lavrou extensas regiões do noroeste em áreas altamente erodíveis, que nunca deveriam ter sido aradas.11 À medida que a demanda do país por produtos pecuários _ carne, couro e lã _ aumentou, também cresceu a quantidade de gado, excedendo, em muito, os Estados Unidos, um país com igual capacidade de pastagem. Além do dano direto causado pelo excesso de aragem e pastagem, a região norte da China está literalmente secando à medida que os aqüíferos são exauridos por excesso de extração.12 Essas tendências convergem para formar algumas das maiores tempestades de poeira jamais registradas. As imensas plumas de poeira, indo para o leste, afetam as cidades de nordeste da China _ obstruindo o sol e reduzindo a visibilidade. Ventos que sopram para o leste também levam camadas do solo do noroeste da China para a península | ||||
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coreana e Japão, onde as populações constantemente se queixam das nuvens de pó que bloqueiam a luz solar e cobrem tudo de poeira. Caso a China não reverta as tendências de aragem e pastagem predatórias que estão criando uma região árida, essas tendências poderão provocar migração maciça para as cidades já abarrotadas do nordeste, solapando o futuro econômico do país.13 O mundo também caminha para um déficit hídrico. A extração excessiva de aqüíferos, hoje comum em todos os continentes, vem causando quedas em lençóis freáticos, quando o bombeamento excede a capacidade de recarga pela precipitação atmosférica. Os problemas de irrigação são tão antigos quanto a própria irrigação, mas esta é uma nova ameaça, que evoluiu no último meio século com o advento de bombas a diesel e bombas elétricas potentes. Os lençóis freáticos estão caindo sob extensas áreas nos três principais países produtores de alimentos _ China, Índia e Estados Unidos. Sob a Planície Norte da China, responsável por 25% da safra chinesa de grãos, o lençol freático está se reduzindo a um ritmo de aproximadamente 1,5 metro ao ano. O mesmo ocorre sob grande parte da Índia, particularmente a região do Punjab, o celeiro do país. Nos Estados Unidos, os lençóis freáticos estão encolhendo sob os estados produtores de grãos ao sul das Grandes Planícies, reduzindo a área irrigada.14 O desvio da água para abastecer a irrigação e as cidades também é excessivo, deixando os rios praticamente sem volume de água. O Colorado, o principal rio do sul dos Estados Unidos, hoje mal chega ao mar. O Rio Amarelo, o berço da civilização chinesa, seca durante parte do ano, privando os agricultores da jusante de água de irrigação. O Indus e o Ganges mal atingem o mar durante a estação seca. Pouca água do Nilo chega ao Mediterrâneo, em qualquer época do ano. A drenagem dos rios desestrutura a simbiose entre oceanos e continentes. Os oceanos regam os continentes quando as massas atmosféricas, carregadas de umidade, se dirigem para o interior, e os continentes nutrem os oceanos com nutrientes nas águas que retornam.15 As demandas econômicas das florestas também são excessivas. Árvores estão sendo derrubadas ou queimadas mais rapidamente do que podem se regenerar ou ser plantadas. Colheitas predatórias são comuns em muitas regiões, inclusive no Sudeste da Ásia, África Ocidental e a Amazônia brasileira. Mundialmente, as florestas encolhem mais de 9 milhões de hectares ao ano, uma área equivalente a Portugal.16 | |||||
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Além da colheita excessiva, algumas florestas tropicais estão hoje sendo destruídas pelo fogo. Florestas tropicais sadias não queimam, mas a extração de madeira e assentamentos ao longo das estradas abertas pelas madeireiras fragmentaram e secaram as florestas tropicais a ponto de queimarem-se com facilidade, seja devido a raios ou queimadas provocadas por proprietários, agricultores e pecuaristas oportunistas, desejosos de mais terras. No final do verão de 1997, durante uma estiagem provocada pelo El Niño, as florestas tropicais de Bornéu e Sumatra queimaram descontroladas. Essa conflagração foi manchete mundial porque a fumaça que se espalhou por centenas de quilômetros afetou populações não apenas da Indonésia, mas também da Malásia, Cingapura, Vietnã, Tailândia e Filipinas. Cerca de 1.100 vôos foram cancelados devido à fumaça. Motoristas dirigiam com faróis acesos durante o dia, tentando achar caminho através da grossa neblina. Milhões de pessoas adoeceram.17 O desmatamento pode custar caro. Enchentes recordes da Bacia do Yangtzé, durante o verão de 1998, desabrigaram 120 milhões de pessoas. Embora denominado inicialmente como um "desastre natural," a remoção de 85% da cobertura arbórea original da bacia havia deixado pouca vegetação para reter as fortes chuvas.18 O desmatamento também diminui a reciclagem de água no interior, reduzindo, dessa forma, a precipitação atmosférica. Quando a chuva cai sobre uma densa área florestal, cerca de um quarto escoa, retornando ao mar, enquanto três quartos evaporam, seja diretamente ou através da transpiração. Quando áreas são desmatadas para agricultura ou pasto, ou para exploração de madeira, essa relação é inversa _ três quartos da água retornam ao mar e um quarto evapora. À medida que o desmatamento avança, o mecanismo natural para irrigar o interior de grandes continentes como África e Ásia se enfraquece.19 Nos oceanos, pode-se também perceber a presença das demandas humanas excessivas. À medida que essa demanda por proteína animal aumentou, ao longo das últimas décadas, começou a exceder a produção sustentável dos pesqueiros oceânicos. Conseqüentemente, dois terços das áreas pesqueiras oceânicas estão hoje sendo explorados no limite ou além da sua produção sustentável. Muitas estão em colapso. Em 1992, a área de pesca do bacalhau, em Terra Nova, que vinha suprindo peixes por vários séculos, caiu subitamente, desempregando 40.000 canadenses. Apesar de uma proibição subseqüente à pesca, quase | ||||
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uma década depois, a área pesqueira ainda não se recuperou.20 Mais ao sul, a Baía de Chesapeake, nos Estados Unidos, sofreu uma queda semelhante. Um século atrás, esse estuário extremamente produtivo produzia mais de 45 mil toneladas de ostras ao ano. Em 1999, rendeu cerca de 1.400. O pesqueiro do Golfo da Tailândia também sofreu um declínio dramático: exaurido pela pesca predatória, o pescado caiu em mais de 80%, desde 1963, levando o Departamento de Pesca tailandês a proibi-la em extensas áreas.21 O planeta também está perdendo sua diversidade biológica à medida que espécies da flora e da fauna são destruídas mais rapidamente do que evoluem. Esse empobrecimento biológico da Terra é conseqüência da destruição de habitats, poluição, alteração climática e caça. Em cada atualização do seu Livro Vermelho das Espécies Ameaçadas, a World Conservation Union-IUCN mostra como estamos avançando em direção a um período de extinção em massa. Na última avaliação, publicada em 2000, a IUCN divulga que uma em cada oito das 9.946 espécies de aves no mundo está sob ameaça de extinção, como também uma em quatro das 4.763 espécies de mamíferos e quase um terço de todas as 25.000 espécies de peixes.22 Alguns países já sofreram perdas enormes. A Austrália, por exemplo, perdeu 16 das 140 espécies de mamíferos ao longo dos últimos dois séculos. No sistema fluvial do Rio Colorado, no sudoeste dos Estados Unidos, 29 das 50 espécies nativas de peixe desapareceram devido, em parte, a seus habitats terem secado. Espécies perdidas não podem ser recuperadas. Como diz, com muita propriedade, um adesivo de pára-choque, "Extinção é para sempre."23 São incontáveis os benefícios econômicos da variada gama de vida na Terra. Eles incluem não apenas o papel de cada espécie na manutenção do ecossistema específico do qual é parte, como também papéis econômicos, como a oferta de medicamentos e germoplasma. À medida que a diversidade diminui, a farmácia natural encolhe, privando gerações futuras de novas descobertas. Ao tempo em que a atividade econômica em expansão cria déficits biológicos, perturba parte dos equilíbrios básicos da natureza em outras áreas. Após o gigantesco crescimento da queima de combustíveis fósseis desde 1950, as emissões de carbono superaram a capacidade do ecossistema da Terra de fixar o dióxido de carbono. O conseqüente aumento dos níveis atmosféricos de CO2 é considerado por uma vasta | |||||
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gama de cientistas atmosféricos como responsável pela elevação da temperatura da Terra. Os 14 anos mais quentes, desde que foram iniciados os registros em 1866, ocorreram a partir de 1980.24 Uma das conseqüências do aumento das temperaturas é uma maior intensidade das tormentas. Três fortes tempestades na França, em dezembro de 1999, destruíram milhões de árvores, algumas das quais centenárias. Milhares de prédios foram derrubados. Estas tempestades, as mais violentas jamais registradas na França, causaram prejuízos superiores a US$ 10 bilhões _ US$ 170 para cada cidadão francês. A natureza impôs seu próprio imposto sobre a queima de combustíveis fósseis.25 Em outubro de 1998, o Furacão Mitch _ uma das tempestades mais fortes a se originar no Atlântico _ atravessou o Caribe e estacionou por vários dias sobre o litoral da América Central. Lá, agiu como uma poderosa bomba, extraindo água do oceano e despejando-a na terra. Áreas de Honduras registraram 2 metros de chuva em poucos dias. Tão poderosa foi esta tempestade e tão volumosa a quantidade de água despejada sobre a América Central que alteraram a topografia, transformando montanhas e colinas em imensos rios de lama que simplesmente inundaram povoados inteiros, ceifando cerca de 10.000 vidas. Quatro quintos das lavouras foram destruídos. O imenso fluxo de água removeu toda a camada superior do solo em muitas áreas, impossibilitando o cultivo nessas terras por toda uma vida.26 O efeito econômico geral da tempestade foi devastador. A destruição em massa de rodovias, pontes, prédios e outras infra-estruturas causou um retrocesso de décadas ao desenvolvimento de Honduras e Nicarágua. O prejuízo estimado de US$ 8,5 bilhões na região aproximou-se do produto interno bruto de ambos os países conjuntamente.27 Desastres naturais estão aumentando. Munich Re, uma das maiores resseguradoras do mundo, divulgou que ocorreram três vezes mais catástrofes naturais durante os anos 90 do que nos anos 60. Perdas econômicas aumentaram oito vezes. Prejuízos cobertos por seguro multiplicaram-se 15 vezes. Embora a classificação da Munich Re não distinga entre catástrofes causadas pela natureza e pela ação humana, grande parte do aumento parece ser devido a catástrofes (incluindo tempestades, secas e incêndios florestais) agravadas ou causadas por atividades humanas.28 As companhias seguradoras têm plena consciência de que mesmo mudanças modestas do clima podem causar saltos quânticos em per | ||||
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das. Por exemplo, um aumento de 10% na velocidade do vento de uma tempestade pode dobrar o dano que inflige. O custo de enfrentamento da elevação do nível do mar causado por um aumento modesto da temperatura pode facilmente subjugar a economia de muitos países.29 Andrew Dlugolecki, um alto executivo do Grupo Segurador CGMU _ o maior da Grã-Bretanha _ informa que danos mundiais à propriedade estão crescendo aproximadamente, 10% ao ano. Ele acredita que estamos apenas vendo o início do declínio econômico causado pela mudança climática. Nesse ritmo, até 2065, o volume de danos excederá o produto bruto mundial projetado. Muito antes disso, observa Dlugolecki, o mundo entrará em falência.30 Talvez a conseqüência mais perturbadora do aumento da temperatura seja o degelo. Nos últimos 35 anos, a espessura do gelo do Mar Ártico reduziu-se em 42%. Um estudo por dois cientistas noruegueses projeta que, dentro de 50 anos, não haverá gelo na época do verão no Mar Ártico. A descoberta de mar aberto no Pólo Norte por um navio quebra-gelo de cruzeiro, em meados de agosto de 2000, causou um impacto profundo na comunidade científica.31 Esse degelo específico não afeta o nível do mar porque o gelo que se derrete já está no oceano. Mas, a manta de gelo da Groelândia também começa a derreter. A Groelândia tem três vezes a área do Texas e a manta de gelo tem uma espessura de 2 quilômetros em algumas áreas. Um artigo em Science observa que, caso toda a manta de gelo derretesse, seria elevado o nível do mar em cerca de 7 metros, inundando as cidades costeiras mundiais e as planícies ribeirinhas cultivadas com arroz na Ásia. Até mesmo uma elevação de 1 metro cobriria metade dos arrozais de Bangladesh, reduzindo a produção de alimentos para abaixo do nível de sobrevivência de milhões de pessoas.32 Ao se iniciar o Século XXI, a humanidade está sendo espremida entre desertos, que avançam, e mares, que invadem terra adentro. A civilização está sendo forçada a recuar por forças que ela mesma criou. À medida que populações aumentam, as porções habitáveis do Planeta encolhem. Além da mudança climática, os efeitos econômicos da destruição e perturbação ambientais têm sido, em sua maioria, localizados _ pesqueiros em colapso, terras agrícolas abandonadas e florestas em declínio. Mas, se os danos locais continuarem a acumular, acabarão por afetar as tendências econômicas globais. Numa economia global cada vez mais | |||||
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integrada, o colapso de ecossistemas locais poderá ter conseqüências econômicas globais.
Lições do Passado Em The Collapse of Complex Civilizations, Joseph Tainter descreve o declínio das civilizações antigas e especula sobre as causas. Teria sido devido à degradação do seu meio ambiente, mudança climática, conflitos civis, invasores estrangeiros? Ou, pergunta, "haverá alguma dinâmica misteriosa para a ascensão e queda de civilizações?"33 Enquanto reflete sobre os contrastes entre as civilizações que outrora prosperavam e a desolação dos locais que ocuparam, ele cita o arqueólogo Robert McC. Adams, que descreveu o sítio da antiga civilização suméria, localizado na baixada central do Eufrates, uma região vazia, desolada, hoje fora das fronteiras de cultivo. Adams o descreveu como "um emaranhado de dunas, diques há muito em desuso e montes de cascalho de antigos assentamentos revelando apenas um relevo baixo, sem destaques. A vegetação é escassa e, em muitas áreas, quase totalmente ausente... Entretanto, outrora isso foi a base, o coração, a civilização urbana e culta mais antiga do mundo."34 A antiga civilização suméria do quarto milênio a.C. foi notável, superando qualquer outra que a tenha antecedido. Seu sistema de irrigação, baseado em conceitos sofisticados de engenharia, criou uma agricultura altamente produtiva que permitiu aos agricultores gerarem um superávit de alimentos que sustentou a formação das primeiras cidades. O manejo do sistema de irrigação exigiu uma organização social complexa, que possivelmente foi a mais sofisticada que jamais existiu. Os sumérios criaram as primeiras cidades e a primeira língua escrita, a escrita cuneiforme. Provavelmente estavam tão entusiasmados com ela como estamos hoje com a Internet.35 Foi uma civilização extraordinária, porém havia uma falha ambiental do desenho do sistema de irrigação, que viria a solapar a economia agrícola. A água detrás das barragens era desviada para a terra, aumentando a produtividade das lavouras. Parte da água era utilizada pela agricultura, parte evaporava na atmosfera e parte infiltrava-se no solo. Ao longo do tempo, essa infiltração elevou lentamente o lençol freático até que chegou à superfície. Quando estava a poucos metros da superfície, começou a conter o desenvolvimento de culturas bem enraizadas. Um pouco mais tarde, quando o lençol chegou a poucos centímetros | ||||
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da superfície, começou a evaporar na atmosfera. Nesse momento, o sal da água ficou para trás. Ao longo do tempo, o acúmulo do sal reduziu a produtividade da terra. A falha ambiental foi não haver previsão para a drenagem da água que se infiltrava para baixo.36 A reação inicial dos sumérios ao declínio de produção de trigo foi mudar para cevada, mais tolerante ao sal. Mas, a produção da cevada também veio a cair. O conseqüente encolhimento do abastecimento minou a base econômica dessa grande civilização.37 A contrapartida dos sumérios no Novo Mundo foi a civilização Maia, que se desenvolveu nas baixadas de onde é hoje a Guatemala. Prosperou desde 250 d.C. até seu colapso, em torno de 900 d.C. Da mesma forma que os sumérios, os maias desenvolveram uma agricultura sofisticada, altamente produtiva, em lotes elevados de terra cercados por canais que forneciam água.38 Também com os Maias, seu desaparecimento estava aparentemente ligado a um fracasso do suprimento de alimento. Para esta civilização do Novo Mundo, foi o desmatamento e erosão do solo que solapou a agricultura. A escassez de alimentos, por sua vez, pode ter provocado conflitos civis entre as diversas cidades maias na competição por alimentos.39 Nos últimos séculos da civilização Maia, uma nova sociedade evoluiu na Ilha de Páscoa, uma área com cerca de 166 quilômetros quadrados no Pacífico Sul, aproximadamente 3.200 quilômetros a oeste da América do Sul e 2.200 quilômetros da Ilha Pitcairn, a região habitada mais próxima. Assentada em torno de 400 d.C., essa civilização prosperou numa ilha vulcânica com solos ricos e vegetação viçosa, com árvores de 25 metros de altura e troncos de 2 metros de diâmetro. Registros arqueológicos dão conta que os ilhéus se alimentavam principalmente de frutos do mar, particularmente golfinhos _ um mamífero que só podia ser capturado com arpões lançados de grandes canoas oceânicas, uma vez que não apareciam localmente em grande número.40 A sociedade da Ilha de Páscoa prosperou durante vários séculos, atingindo uma população estimada em 20.000. À medida que seus números cresciam, a derrubada de árvores superava a recuperação sustentada das florestas. Finalmente, desapareceram as grandes árvores necessárias para a construção das grandes e resistentes canoas oceânicas, privando os ilhéus do acesso aos golfinhos e reduzindo, dessa forma, o suprimento alimentar da ilha. Os registros arqueológicos mos | |||||
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tram que, a certa altura, ossadas humanas se misturaram às ossadas dos golfinhos, sugerindo uma sociedade desesperada que recorreu ao canibalismo. Hoje, a ilha é habitada por cerca de 2.000 pessoas.41 Essas são apenas três das antigas civilizações que desapareceram, aparentemente porque, a certa altura, seguiram um caminho econômico ambientalmente insustentável. Nós também estamos caminhando nesta mesma direção. Qualquer uma das várias tendências de degradação ambiental poderá minar a civilização como a conhecemos. Da mesma forma que os sistemas de irrigação que definiram a antiga economia suméria tinham uma falha, o sistema energético baseado no combustível fóssil que define nossa economia moderna também a tem, pois está elevando os níveis de CO2 na atmosfera e alterando o clima da Terra. Seja pela salinização do solo na Suméria, a erosão do solo dos Maias ou a perda da pesca em alto-mar dos habitantes da Ilha de Páscoa, o colapso das civilizações antigas parece estar associado a um declínio do suprimento alimentar. Hoje, o acréscimo de 80 milhões de pessoas anualmente à população mundial, numa ocasião quando os lençóis freáticos estão em queda, indica que o suprimento de alimentos novamente poderá ser o elo vulnerável entre o meio ambiente e a economia.42 Os sumérios nem tinham conhecimento da existência do Novo Mundo, quanto mais que iriam um dia sustentar civilizações prósperas como a dos Maias. Os Maias não tinham idéia de que a Ilha de Páscoa existia. Cada uma dessas civilizações entrou em colapso isoladamente, sem efeito nas outras. Mas hoje, numa economia global integrada, um colapso em um país ou região afetará todos nós. Mesmo uma desvalorização da moeda num país em desenvolvimento, como a Indonésia, pode provocar ondas de choque em Wall Street, meio mundo distante. Uma pergunta irrespondível sobre aquelas civilizações antigas era se sabiam o que estava causando seu declínio. Será que os sumérios sabiam que o teor crescente de sal no solo estava reduzindo sua produção de trigo? Se souberam, será que não conseguiram reunir o apoio político necessário para abaixar os lençóis freáticos, da mesma forma que nos empenhamos hoje, sem sucesso, para baixar as emissões de carbono?
Lições da China O fluxo de informações surpreendentes da China nos ajuda a enten | ||||
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der porque nossa economia não pode nos conduzir para onde desejamos. A China não é apenas o país mais populoso do mundo, com quase 1,3 bilhão de pessoas, mas, desde 1980, também é a economia com crescimento mais acelerado _ quase quadruplicando. Na realidade, a China está distendendo a história, demonstrando o que acontece quando um grande número de pessoas pobres se torna repentinamente mais abastado.43 À medida que a renda cresceu na China, também o consumo aumentou. Os chineses já alcançaram os americanos no consumo per capita de carne suína, e agora concentram suas energias em aumentar a produção da carne bovina. Para elevar o consumo per capita da carne bovina na China aos níveis do americano médio, serão necessários 49 milhões de toneladas adicionais. Se tudo isto fosse produzido com gado confinado, no estilo americano, seriam necessárias 343 milhões de toneladas anuais de grãos, um volume igual a toda a colheita dos Estados Unidos.44 No Japão, à medida que crescia a pressão populacional sobre a terra, durante uma fase comparável do seu desenvolvimento econômico, os japoneses voltaram-se ao mar para obter sua proteína animal. No ano passado, o Japão consumiu quase 10 milhões de toneladas de frutos do mar. Caso a China, com uma população 10 vezes superior à do Japão, seguisse o mesmo caminho, precisaria de 100 milhões de toneladas de produtos do mar _ todo o pescado mundial.45 Em 1994, o governo chinês decidiu que o país desenvolveria um sistema de transportes centrado no automóvel e que a indústria automotiva seria um dos impulsionadores do futuro crescimento econômico. Beijing convidou grandes montadoras como Volkswagen, General Motors e Toyota a investirem na China. Mas, se o objetivo de Beijing se materializasse e cada chinês possuísse um ou dois carros em cada garagem e consumisse petróleo no ritmo dos Estados Unidos, a China necessitaria de mais de 80 milhões de barris de petróleo ao dia _ ligeiramente superior aos 74 milhões de barris diários que o mundo produz atualmente. A fim de oferecer as vias e estacionamentos necessários, precisaria também pavimentar cerca de 16 milhões de hectares de terra, uma área equivalente à metade dos 31 milhões de hectares de terra atualmente produzindo a safra anual de 132 milhões de toneladas de arroz, seu alimento básico.46 Consideremos também o papel. À medida que a China se moderni | |||||
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za, seu consumo de papel cresce. Caso o consumo anual de papel na China, de 35 quilos per capita, aumentasse para o nível dos Estados Unidos, de 342 quilos, a China necessitaria de mais papel do que o mundo produz atualmente. E lá se iam as florestas mundiais.47 Estamos aprendendo que o modelo de desenvolvimento industrial do ocidente não é viável para a China, simplesmente porque não há recursos suficientes para tal. Os recursos globais de terra e água não poderão atender às necessidades crescentes de grãos da China caso continue seguindo o caminho atual de desenvolvimento econômico. Como também a economia energética baseada em combustíveis fósseis não irá fornecer a energia necessária, simplesmente porque a produção mundial de petróleo não está projetada a crescer muito acima dos níveis atuais nos anos futuros. Além da disponibilidade de petróleo, se as emissões per capita de carbono na China alcançarem o nível dos Estados Unidos, só isso duplicará as emissões globais, acelerando o aumento da concentração atmosférica do CO2.48 A concepção de uma estratégia de desenvolvimento é um gigantesco desafio para a China em vista da sua densidade populacional. Embora ocupe quase a mesma área de terra que os Estados Unidos, a maioria da sua população de 1,3 bilhão vive numa faixa de 1.500 quilômetros nos litorais leste e sul. Para chegar a uma densidade idêntica nos Estados Unidos, seria necessário espremer toda a população para o leste do Mississipi e multiplicá-la por quatro.49 Curiosamente, a adoção do modelo econômico ocidental para a China está sendo contestada internamente. Um grupo de cientistas renomados, inclusive muitos da Academia de Ciências da China, subscreveram uma declaração questionando a decisão governamental de desenvolver um sistema de transportes centrado no automóvel. Assinalaram que a China não tem área suficiente para alimentar sua população e fornecer as vias, rodovias e estacionamentos necessários para acomodar o automóvel. Observaram ainda a alta dependência do petróleo importado que seria necessário, como também a poluição atmosférica e congestionamentos potenciais que resultariam caso seguissem o caminho dos Estados Unidos.50 Se a economia do descarte, baseada no combustível fóssil e centrada no automóvel, não funcionará na China, então não funcionará para 1 bilhão de pessoas na Índia, ou para outras 2 bilhões de pessoas no mundo em desenvolvimento. Num mundo com um ecossistema com | ||||
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partilhado e uma economia global cada vez mais integrada, acabará por não funcionar também para as economias industrializadas. A China está demonstrando que o mundo não poderá continuar mais seguindo o caminho econômico atual. Está enfatizando a urgência para reestruturar a economia global, construindo uma nova economia _ uma economia projetada para a Terra.
A Aceleração da História O ritmo de mudança está atingindo uma velocidade extraordinária movido, em parte, pelas inovações tecnológicas. Bill Joy, co-fundador e cientista-chefe do Sun Microsystems, alertou num artigo do início de 2000, na revista Wired, que os avanços acelerados da robótica, genômica e nanotecnologia poderão gerar problemas potencialmente ingovernáveis. Sua preocupação maior é que nossa dependência crescente de computadores cada vez mais inteligentes irá, um dia, fazer com que eles nos dominem.51 A tecnologia em rápido desenvolvimento está acelerando a história, dificultando seu manejo eficiente por parte das instituições sociais. Isso também ocorre com o crescimento populacional mundial sem precedentes, o crescimento econômico ainda maior e os choques cada vez mais freqüentes entre a economia em expansão e os limites dos sistemas naturais do Planeta. O ritmo atual de mudança não tem precedente. Até pouco tempo atrás, o crescimento populacional era tão lento que pouca atenção despertava. Mas, a partir de 1950, acrescentamos mais pessoas à população mundial do que durante os 4 milhões de anos desde que nossos ancestrais se firmaram em duas pernas. A expansão econômica nas épocas antigas também foi lenta. Como ilustração, o crescimento da economia mundial durante o ano 2000 ultrapassou o crescimento de todo o Século XIX.52 Através de grande parte da história da humanidade, o crescimento populacional, o aumento da renda e o desenvolvimento de novas tecnologias foram tão lentos que eram imperceptíveis durante o espaço de uma vida. Por exemplo, o aumento da produtividade do cultivo de grãos, de 1,1 tonelada por hectare em 1950 para 2,8 toneladas por hectare em 2000, supera o aumento de 11.000 anos, desde o início da agricultura até 1950.53 O crescimento populacional moderno não tem precedentes. Du | |||||
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rante a maior parte da nossa existência como espécie, nós éramos medidos em milhares. Hoje, somos medidos em bilhões. Nossa evolução nos preparou para lidar com muitas ameaças, porém talvez não com a ameaça que criamos para nós mesmos com o crescimento descontrolado de nossos próprios números. A economia mundial cresce ainda mais rapidamente. A produção global de bens e serviços aumentou sete vezes, desde 1950 minimizando tudo na história. Nos primórdios da Revolução Industrial, a expansão econômica mal excedia 1 ou 2% ao ano. Países em desenvolvimento que estão se industrializando hoje o fazem muito mais rapidamente que seus predecessores, simplesmente porque não precisam inventar as tecnologias necessárias a uma sociedade industrial moderna, como usinas elétricas, automóveis e refrigeradores. Podem simplesmente usufruir a experiência e tecnologia daqueles que os precederam.54 Instituições financeiras mais sofisticadas permitem que sociedades mobilizem o capital necessário para investimentos com maior facilidade que no passado. Conseqüentemente, os países que se industrializaram com sucesso no final do Século XX o fizeram em ritmo recorde. O crescimento econômico nos países em desenvolvimento do Leste da Ásia, por exemplo, registrou uma média de quase 7% anuais desde 1990 _ muito maior do que as taxas de crescimento dos países industrializados em qualquer época de suas histórias.55 Em outro exemplo de mudança acelerada, a partir de 1974, cerca de 28 novas doenças infecciosas foram identificadas _ desde o HIV, que ceifou 22 milhões de vidas, à nova variedade da doença de Creutzfeldt-Jakob, a forma humana da encefalopatia espongiforme bovina ("doença da vaca louca"), com quase 100 casos conhecidos. Alguns agentes são novos; outros, que foram localizados em regiões remotas, estão simplesmente se interligando ao resto mundo através dos sistemas modernos de transportes.56 O ritmo da história também está se acelerando, quando as imensas demandas humanas se chocam com os limites naturais da Terra. Líderes políticos nacionais estão se ocupando mais com as conseqüências dos choques descritos acima _ pesqueiros em colapso, lençóis freáticos em queda, carência de alimentos e tempestades cada vez mais destrutivas _ juntamente com um fluxo internacional cada vez maior de refugiados ambientais e os muitos outros efeitos da ultrapassagem dos limites naturais. À medida que as mudanças aceleraram, a situação evoluiu de | ||||
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uma etapa em que indivíduos e sociedades raramente mudam, para outra em que mudam continuamente. Mudam não apenas em resposta ao próprio crescimento, mas também em resposta às conseqüências do crescimento. A questão crucial é se a mudança acelerada, que faz parte da nossa paisagem moderna, está começando a exceder a capacidade das nossas instituições sociais de lidarem com mudanças. Mudanças são particularmente difíceis para instituições que lidam com questões internacionais ou globais, o que, para terem sucesso, exige um esforço conjunto, cooperativo, de muitos países com culturas contrastantes. Por exemplo, a sustentação do pescado oceânico existente só poderá ser possível se acordos forem realizados entre países quanto aos limites a serem estabelecidos para a pesca em pesqueiros oceânicos individuais. Mas, será que governos, trabalhando juntos em nível global, poderão se mexer com a rapidez necessária para estabilizar o clima antes que este conturbe o progresso econômico? A questão não é se sabemos o que precisa ser feito ou se temos a tecnologia para fazê-lo. A questão é se nossas instituições sociais serão capazes de realizar a mudança no tempo disponível. Como H.G. Wells escreveu em The Outline of HistoryNT, "A história humana se transforma, mais e mais, numa corrida entre educação e catástrofe."57
A Escolha: Reestruturar ou Decair Independente de estudarmos ou não a corrosão ambiental das antigas civilizações, ou de observarmos ou não como a adoção do modelo industrial do Ocidente pela China afetaria o ecossistema terrestre, é evidente que o modelo econômico industrial moderno não poderá sustentar o progresso econômico. Em nossos esforços imediatistas de sustentação da economia global, como os estruturados hoje, estamos dilapidando o capital natural da Terra. Gastamos muito tempo nos preocupando com nossos déficits econômicos, mas são os déficits ecológicos que ameaçam nosso futuro econômico de longo prazo. Os déficits econômicos são o que tomamos emprestados uns dos outros; os déficits ecológicos são o que retiramos das gerações futuras.58 Herman Daly, o pioneiro intelectual da economia ecológica, um campo em rápido crescimento, observa que o mundo "passou de uma | ||||||
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NT Publicado em português, em 1961, sob o título O Contorno da História. | ||||||
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era em que o capital criado pelo homem representava o fator limitador do desenvolvimento econômico (um mundo `vazio'), para uma era em que capital natural, cada vez mais escasso, o substituiu (um mundo `pleno')." Quando nossos números eram pequenos em relação ao tamanho do Planeta, o capital criado pelo homem é que era escasso. O capital natural era abundante. Hoje, isso mudou. À medida que o empreendimento humano continua a expandir, os produtos e serviços fornecidos pelo ecossistema da Terra são cada vez mais escassos, e o capital natural está rapidamente se transformando no fator limitador, enquanto o capital criado pelo homem é cada vez mais abundante.59 A transformação da nossa economia ambientalmente destrutiva para uma que possa sustentar o progresso dependerá de uma mudança "copérnica" em nossa mentalidade econômica, um reconhecimento de que a economia é parte do ecossistema da Terra e só poderá sustentar o progresso caso seja reestruturada de forma que seja compatível com ele. O desafio preeminente da nossa geração é planejar uma eco-economia que respeite os princípios da ecologia. Uma economia re-planejada pode ser integrada ao ecossistema, de forma que estabilize a relação entre os dois, permitindo que o progresso econômico continue. Infelizmente, a economia moderna não fornece o arcabouço conceitual necessário para se construir essa economia. Terá que ser planejada com um conhecimento dos conceitos ecológicos básicos, como produção sustentável, capacidade de suporte, ciclos de nutrientes, ciclo hidrológico e o sistema climático. Os planejadores também deverão saber que os sistemas naturais não apenas fornecem bens, mas também serviços _ serviços que são freqüentemente mais valiosos que os bens. Sabemos o tipo de reestruturação que será necessário. Em termos muito simples, nossa economia do descarte, baseada em combustíveis fósseis e centrada no automóvel, não é um modelo viável para o mundo. A alternativa é uma economia energética solar e de hidrogênio, um sistema de transportes urbanos que enfoque sistemas ferroviários avançados e que dependa mais da bicicleta e menos do automóvel, e uma economia abrangente de reutilização e reciclagem. E precisaremos estabilizar a população o mais rapidamente possível. Como poderemos realizar esta transformação econômica quando todos os tomadores de decisões econômicas _ sejam líderes políticos, planejadores corporativos, banqueiros de investimento ou consumidores | ||||
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individuais _ são orientados por sinais do mercado e não pelos princípios da sustentabilidade ecológica? Como poderemos integrar a conscientização ecológica na tomada de decisões econômicas? Será que todos nós, que tomamos decisões econômicas, podemos "pensar como ecólogos," entender as conseqüências ecológicas das nossas decisões? A resposta provavelmente é não. Simplesmente, talvez não seja possível. Mas, poderá haver outra abordagem, uma forma mais simples de atingir nosso objetivo. Todos que tomam decisões econômicas dependem de sinais do mercado para se orientarem. O problema é que o mercado freqüentemente não fala a verdade ecológica. Ele constantemente barateia os produtos e serviços ao deixar de incorporar seus custos ambientais de fornecimento. Comparemos, por exemplo, o custo da eletricidade eólica com o custo de uma usina elétrica a carvão. O custo da eletricidade eólica reflete os custos da fabricação da turbina, sua instalação, manutenção e fornecimento de energia aos consumidores. O custo da eletricidade a carvão inclui a construção da usina, a mineração do carvão, transporte para a usina e distribuição da eletricidade aos consumidores. O que deixa de incluir é o custo da perturbação climática causada pelas emissões de carbono da queima do carvão _ são mais tempestades destrutivas, calotas degelando, nível oceânico elevando-se ou ondas recordes de calor. Também não inclui o dano a lagos de água doce e florestas, causado pela chuva ácida, ou os custos de tratamento de doenças respiratórias causadas pela poluição atmosférica. Assim, o preço de mercado da eletricidade a carvão minimiza enormemente seu custo para a sociedade. Uma forma de remediar essa situação seria reunir cientistas ambientais e economistas para que, juntos, calculassem o custo da perturbação climática, chuva ácida e poluição atmosférica. Esse cálculo poderia então ser incorporado como um imposto sobre a eletricidade a carvão, que, adicionado ao preço corrente, representaria o custo real do uso do carvão. Esse procedimento, generalizado, significaria que todos os tomadores de decisões econômicas _ governos e consumidores individuais _ teriam a informação necessária para tomarem decisões mais inteligentes e ecologicamente responsáveis. Podemos ver agora como reestruturar a economia global de forma que restaure a estabilidade entre a economia e o ecossistema sobre o | |||||
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qual se fundamenta. Quando ajudei a criar o conceito de desenvolvimento econômico ambientalmente sustentável, cerca de 27 anos atrás, no recém-formado Worldwatch Institute, tinha uma idéia geral de como seria a nova economia. Hoje, podemos ver muito mais detalhes. Poderemos construir uma eco-economia com as tecnologias existentes. Seria economicamente viável se conseguíssemos que o mercado nos informasse o custo total dos produtos e serviços que compramos. A questão não é quanto irá custar para realizar essa transformação, e sim quanto custará se falharmos. Øystein Dahle, Vice-Presidente aposentado da Esso (Noruega e Mar do Norte), observa: "O socialismo ruiu porque não permitiu que os preços falassem a verdade econômica. O Capitalismo poderá ruir porque não permite que os preços falem a verdade ecológica."60 Este livro tem três finalidades. A primeira é defender o princípio de que não temos alternativa senão reestruturar a economia, se é que desejamos que o progresso econômico continue nas décadas futuras. A segunda é descrever não apenas a estrutura geral da eco-economia, mas também alguns dos seus detalhes. E a terceira é traçar uma estratégia para atingir este objetivo no tempo que temos disponível. A construção de uma eco-economia é empolgante e recompensadora. Significa podermos viver num mundo onde a energia venha de turbinas eólicas, e não de minas de carvão; onde as indústrias de reciclagem substituam indústrias de mineração; e onde as cidades sejam planejadas para pessoas e não para carros. E, mais importante talvez, ter a satisfação de construir uma economia para sustentar, e não solapar as gerações futuras. | ||||