Sinais de Estresse: A Base Biológica

II

A Nova Economia



Eco-Eonomia


A Feição da Eco-Economia

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A Feição da

Eco-Economia

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Em março de 2000, numa palestra sobre Estado do Mundo 2000 para o Banco Mundial, assinalei que os projetos propostos deveriam ajudar a criar uma economia ambientalmente sustentável, e não autodestrutiva. Em resposta, alguém declarou que o Banco sempre realiza uma avaliação ambiental de seus projetos. Aí é que está o problema, respondi. Cientistas ambientais estão avaliando os efeitos dos projetos após os economistas terem decidido quais investimentos realizar. Na melhor das hipóteses, os cientistas podem sugerir medidas mitigadoras para o dano ambiental causado pelos projetos selecionados por economistas.

Quais são as chances de um economista sem experiência ecológica esquematizar independentemente projetos que criem em coletivadade uma economia ambientalmente sustentável? Não muitas. Poder-se-ia dizer o mesmo sobre todos os principais tomadores de decisões econômicas _ planejadores corporativos, legisladores governamentais e banqueiros de investimento.

Como observado no Capítulo 1, uma economia só é sustentável quando respeita os princípios da ecologia. Esses princípios são tão reais quanto aqueles da aerodinâmica. Para que uma aeronave possa voar, terá que satisfazer certos princípios de empuxo e sustentação. Da


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mesma forma, para que uma economia sustente o progresso, deverá satisfazer os princípios básicos da ecologia. Se não o fizer, declinará e entrará em colapso. Não há meio termo. Uma economia ou é sustentável ou não é.

A economia global atual foi formada por forças de mercado e não por princípios de ecologia. Infelizmente, ao deixar de refletir os custos totais dos bens e serviços, o mercado presta informações enganosas aos tomadores de decisões econômicas, em todos os níveis. Isso criou uma economia distorcida, fora de sincronia com os ecossistemas da Terra _ uma economia que está destruindo seus sistemas naturais de suporte.

O mercado não reconhece os conceitos ecológicos básicos de produção sustentável, nem respeita os equilíbrios da natureza. Por exemplo, não dá atenção ao desequilíbrio crescente entre as emissões de carbono e a capacidade da natureza de fixar o carbono, e muito menos ao papel da queima dos combustíveis fósseis na criação do desequilíbrio. Muitos economistas não dão importância à elevação dos níveis de dióxido de carbono (CO2). Para um ecólogo, essa elevação _ motivada pelo uso de combustíveis fósseis _ é o sinal de mudança para outras fontes de energia, a fim de evitar aumento de temperaturas, degelo e elevação do nível do mar.

Uma eco-economia é aquela que satisfaz nossas necessidades sem prejudicar as perspectivas de as futuras gerações atenderem às suas necessidades, como assinalou a Comissão Brundtland, quase 15 anos atrás. O propósito deste capítulo é proporcionar uma visão de como seria uma eco-economia. Também pretende dar uma idéia da abrangência dessa mudança. Uma tarefa nada trivial.1

Ecologia Sobre a Economia

Os ecólogos conhecem os processos ecológicos que sustentam a vida na Terra. Conhecem a função fundamental da fotossíntese, o conceito de produção sustentável, o papel dos ciclos de nutrientes, o ciclo hidrológico, o papel sensível do clima e a relação complexa entre o reino vegetal e animal. Sabem que os ecossistemas da Terra fornecem bens e serviço e que estes últimos freqüentemente são mais valiosos que os primeiros.

Uma economia sustentável respeita a produção sustentável dos ecossistemas dos quais dependem: pesqueiros, florestas, pastos e áreas


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cultivadas. Um determinado pesqueiro pode sustentar um pescado de determinado volume, porém se a demanda sobre ele exceder a produção sustentável, até mesmo num volume mínimo _ digamos, 2% _ os estoques começarão a encolher e finalmente desaparecer. Contanto que a colheita não exceda a produção sustentável, poderá ser sustentada perpetuamente. O mesmo se aplica às florestas e pastos.

A natureza também depende de equilíbrios. Esses incluem o equilíbrio entre a erosão do solo e a formação de novo solo, entre emissões de carbono e fixação de carbono e entre árvores moribundas e árvores em regeneração.

A natureza depende dos ciclos para manter a vida. Na natureza não existem fluxos lineares, ou situações em que a matéria-prima entra de um lado e o lixo sai do outro. Na natureza, o resíduo de um organismo é o sustento de outro. Nutrientes são continuamente reciclados. Esse sistema funciona. Nosso desafio é replicá-lo no desenho da economia.

Os ecólogos reconhecem a função da fotossíntese, o processo pelo qual as plantas convertem energia solar em energia bioquímica que sustenta a vida na Terra. Qualquer coisa que reduza o produto fotossintético, como a desertificação, asfaltamento de terras produtivas ou acidificação de lagos pela chuva ácida, diminui a produtividade da Terra em seu sentido mais fundamental.

Apesar dessa consolidação de conhecimentos ecológicos, governos nacionais expandiram a atividade econômica com pouco apreço à produção sustentável ou aos frágeis equilíbrios da natureza. Ao longo do último meio século, a expansão sétupla da economia global forçou a demanda sobre ecossistemas locais além da produção sustentável em país após país. O crescimento quíntuplo do pescado mundial, desde 1950, forçou a demanda sobre a maioria dos pesqueiros , além de sua capacidade de produzir peixes sustentavelmente. O aumento sêxtuplo da demanda mundial por papel está encolhendo as florestas globais. A duplicação dos rebanhos bovinos, ovinos e caprinos mundiais, desde 1950, está danificando pastos, transformando-as em desertos.2

Um ecólogo não só reconhece que os serviços prestados pelos ecossistemas podem às vezes valer mais que os bens, mas também que o valor dos serviços precisa ser calculado e incorporado aos sinais do mercado para que sejam protegidos. Embora o cálculo dos serviços não seja uma tarefa simples, qualquer estimativa razoável é muito melhor do que assumir que os custos são zero, como ocorre hoje. Por


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exemplo, uma floresta na parte superior de uma bacia hidrográfica pode prestar serviços como controle de enchente e reciclagem das chuvas no interior, muito mais valiosos do que sua produção de madeira. Infelizmente, os sinais de mercado não refletem isso, pois as madeireiras que derrubam árvores não arcam com os custos da redução dos serviços. Políticas econômicas nacionais e estratégias corporativas se baseiam principalmente nos sinais do mercado. A derrubada de uma floresta pode ser lucrativa para uma madeireira, mas é economicamente onerosa para a sociedade.

Outro grande fracasso do mercado em fornecer informações confiáveis surge quando governos subsidiam a exaustão de recursos ou atividades ambientalmente destrutivas. (Vide também Capítulo 11.) Por exemplo, ao longo de várias décadas, o Serviço Florestal dos Estados Unidos utilizou recursos dos contribuintes para abrir estradas em florestas nacionais para que as madeireiras pudessem explorá-las. Isso não só reduziu artificialmente o custo da madeira e do papel, mas também provocou enchentes, erosão do solo e o assoreamento de córregos e rios. No noroeste do Pacífico, destruiu pesqueiros de salmão altamente produtivos. E toda essa destruição foi assumida pelos contribuintes.3

Num mundo onde a demanda da economia pressiona os limites dos sistemas naturais, a dependência de sinais distorcidos de mercado para orientar decisões de investimento é uma receita para o desastre. Historicamente, quando a oferta de peixe era inadequada, o preço subia, encorajando investimentos em novas traineiras. Quando havia mais peixe no mar do que jamais esperaríamos pescar, o mercado funcionou bem. Hoje, com o pescado freqüentemente superando a produção sustentável, o investimento em mais traineiras em resposta aos altos preços irá simplesmente acelerar o colapso desses pesqueiros.

Existe uma situação semelhante com outros sistemas naturais, como aqüíferos, florestas e pastos. Assim que a demanda crescente pela água suplanta a produção sustentável de aqüíferos, os lençóis freáticos começam a cair e os poços secam. O mercado manda cavar poços mais profundos. Agricultores se engajam numa orgia competitiva de perfuração de poços, perseguindo os lençóis mais profundamente. Na planície norte da China, onde 25% dos grãos são produzidos, esse processo está em curso. Na Província de Hebei, dados de 1999 revelam 36.000 poços, na maioria rasos, sendo abandonados durante o ano à medida


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que 55.000 novos poços, mais profundos, eram perfurados. Na Província de Shandong, 31.000 foram abandonados e 68.000 poços novos foram perfurados.4

Numa eco-economia, por definição uma que respeita os princípios da ecologia, a perfuração de poços adicionais seria proibida logo que um lençol freático desse sinais de queda. Ao invés de gastar dinheiro para cavar poços mais profundos, os investimentos seriam canalizados para medidas que incrementassem a eficiência hídrica e estabilizasse a população, a fim de equilibrar o consumo da água com a oferta sustentável.

Aumentam as evidências de que nossa economia global está lentamente se solapando em várias frentes. Para que o avanço econômico continue, não resta outro recurso senão reestruturar sistematicamente a economia global a fim de torná-la ambientalmente sustentável.

Uma Tarefa Gigantesca

A conversão de nossa economia numa eco-economia é uma tarefa gigantesca. Não existem precedentes para a transformação de uma economia formada, em grande parte, por forças do mercado para outra moldada nos princípios da ecologia.

A escala do crescimento econômico projetado retrata a dimensão do desafio. O crescimento da produção mundial de bens e serviços, de US$ 6 trilhões em 1950 para US$ 43 trilhões em 2000, causou devastação ambiental numa escala que nunca poderíamos ter imaginado meio século atrás. Caso a economia mundial continue a expandir a uma taxa de 3% anuais, a produção de bens e serviços quadruplicará ao longo do próximo meio século, atingindo US$ 172 trilhões.5

Construir uma eco-economia no tempo disponível requer mudanças sistêmicas aceleradas. Não teremos êxito com projetos pontuais. Podemos ganhar batalhas ocasionais, mas perderemos a guerra por não dispormos de uma estratégia para uma mudança econômica sistêmica, que colocará o mundo num caminho desenvolvimentista ambientalmente sustentável.

Embora o conceito de desenvolvimento ambientalmente sustentável tenha evoluído há um quarto de século, nenhum país dispõe de uma estratégia para criar uma eco-economia _ para restaurar os equilíbrios do carbono, estabilizar as populações e lençóis freáticos e conservar suas florestas, solos e diversidade vegetal e animal. Podemos


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identificar nações individuais bem-sucedidas com um ou mais elementos da reestruturação, mas nenhuma que esteja avançando satisfatoriamente em todas as frentes.

Não obstante, pode-se vislumbrar sinais da eco-economia em alguns países. Por exemplo, 31 países da Europa, mais o Japão, estabilizaram suas populações, satisfazendo uma das condições mais básicas de uma eco-economia. A Europa estabilizou sua população dentro da sua capacidade produtora de alimentos, deixando-a com um superávit exportável de grãos para ajudar a compensar os déficits dos países em desenvolvimento. Ademais, a China _ a nação mais populosa do planeta _ tem hoje menor fertilidade que os Estados Unidos e caminha para a estabilidade populacional.6

Entre as nações, a Dinamarca é líder em eco-economia. Estabilizou sua população, proibiu a construção de usinas a carvão, proibiu o uso de vasilhames descartáveis para bebidas e hoje obtém 15% de sua eletricidade do vento. Além disso, reestruturou sua rede de transportes urbanos; atualmente, 32% de todos os percursos em Copenhague são realizados em bicicletas. A Dinamarca ainda está longe de equilibrar as emissões e fixações de carbono, mas segue nessa direção.7

Outros países também atingiram metas específicas. Um programa de reflorestamento na Coréia do Sul, iniciado há mais de uma geração, arborizou as colinas e montanhas do país. Costa Rica tem um projeto de mudança total para energia renovável até 2025. Islândia, juntamente com um consórcio de corporações liderado pela Shell e DaimlerChrysler, planeja se tornar a primeira economia mundial movida a hidrogênio.8

Assim, vemos elementos de uma eco-economia emergente, mas uma mudança sistêmica requer uma mudança fundamental nos sinais de mercado, sinais que respeitem os princípios da sustentabilidade ecológica. Se não estivermos motivados para transferir impostos sobre renda para atividades ambientalmente destrutivas, como emissões de carbono e uso pródigo da água, não conseguiremos construir uma eco-economia. (Vide Capítulo 11.)

A restauração dos equilíbrios da natureza é uma tarefa gigantesca. No caso da energia, depende da mudança de uma economia baseada no carbono para outra baseada no hidrogênio. Até mesmo as empresas petrolíferas mais progressistas, como BP e Royal Dutch Shell, que alardeiam sobre a construção de uma economia energética solar e de hi


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drogênio, continuam a investir maciçamente em petróleo, com as alocações para fontes benéficas ao clima representando uma minúscula parcela dos seus investimentos.9

A redução da erosão do solo ao nível de uma nova formação de solo exigirá mudanças nas práticas agrícolas. Em algumas situações, significará mudar da lavra intensa para lavra mínima ou lavra alguma. O agroflorestamento terá um grande destaque numa eco-economia.

A regeneração de florestas que reciclam as chuvas no interior e controlam enchentes é, em si mesma, uma tarefa gigantesca. Significa reverter décadas de corte de árvores e desmatamento através da restauração florestal, uma atividade que requererá milhões de pessoas plantando bilhões de árvores.

A construção de uma eco-economia afetará cada faceta de nossas vidas. Alterará a forma como iluminaremos nossas casas, o que comeremos, onde viveremos, como passaremos nossas horas de lazer e quantos filhos teremos. Dar-nos-á um mundo onde seremos parte da natureza e não estranhos a ela.

Reestruturação da Economia

Uma economia em sincronia com o ecossistema da Terra contrastará profundamente com a economia poluidora, perturbadora e, por fim, autodestruidora de hoje _ uma economia do descarte, baseada no combustível fóssil e centrada no automóvel. Uma das atrações do modelo econômico ocidental é a elevação dos padrões de vida de um quinto da humanidade para um nível que nossos ancestrais nunca teriam sonhado, proporcionando uma dieta incrivelmente diversificada, níveis sem precedentes de consumo material e mobilidade física inimaginável. Mas, infelizmente não funcionará a longo prazo mesmo para esse quinto afluente e muito menos para o resto do mundo.

Entre os setores econômicos chave _ energia, materiais e alimentos _ as mudanças mais profundas serão na energia e nos materiais. É difícil imaginar uma reestruturação setorial mais fundamental do que a do setor energético, saindo do petróleo, carvão e gás natural para a energia eólica, solar e geotérmica.

Quanto aos materiais, a mudança não será tanto nos materiais utilizados como na estrutura do setor propriamente dito, ao sair do modelo econômico linear, em que os materiais vão da mina ou floresta para os lixões, para o modelo da reutilização/reciclagem. Nesse sistema de


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ciclo fechado, que espelha a natureza, as indústrias de reciclagem substituirão, em grande parte, as indústrias extrativas.

No setor alimentício, as grandes mudanças não estarão na estrutura, e sim na forma como o setor é gerido. O desafio aqui é o melhor manejo do capital natural, a estabilização dos aqüíferos através do aumento da produtividade hídrica e a conservação da camada superior do solo, pela modificação das práticas agrícolas. E, acima de tudo, significa sustentar o aumento da produtividade do solo, a fim de evitar o desmatamento de mais florestas para a produção de alimentos.

Podemos ver agora a feição de uma eco-economia. Em vez de ser conduzida por combustíveis fósseis, será movida por fontes de energia derivadas do Sol, como o vento e a luz, e pela energia geotérmica do interior da Terra. (Vide Capítulo 5.) Será baseada no hidrogênio, em vez do carbono. Carros e ônibus serão movidos por motores de célula de combustível, alimentados por eletricidade gerada através de um processo eletroquímico que utiliza hidrogênio como combustível, em vez de motores de combustão interna. Com células de combustíveis movidas a hidrogênio, não existirá o CO2, perturbador do clima, nem poluentes nocivos à saúde; só haverá emissão de água.

Na nova economia, os níveis de CO2 atmosférico estarão estáveis. Em contraste à economia energética moderna, em que as reservas mundiais de petróleo e carvão estão concentradas em um punhado de nações, as fontes de energia da eco-economia estarão amplamente dispersas _ tão amplamente distribuídas como a luz solar e o vento. A alta dependência de todo o mundo de uma região geográfica _ o Oriente Médio _ para grande parte da energia, provavelmente cairá à medida que novas fontes de energia benéficas ao clima e motores a célula de combustível assumam o controle.

A economia energética será essencialmente uma economia solar e de hidrogênio, com várias fontes derivadas do Sol, sendo utilizadas diretamente para aquecimento e refrigeração, ou indiretamente para produzir eletricidade. A eletricidade eólica, provavelmente a mais barata fonte energética, será utilizada para eletrolizar a água, produzindo o hidrogênio. Isso proporciona um meio tanto de armazenar quanto de transportar a energia eólica. Inicialmente, os gasodutos existentes serão utilizados para a distribuição do hidrogênio. Porém, a mais longo prazo, tanto os gasodutos quanto os oleodutos poderão ser adaptados para transportar hidrogênio, à medida que o mundo muda de uma


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economia baseada no carbono para uma economia baseada no hidrogênio.

Os transportes urbanos mudarão _ na realidade, já estão mudando. Ao invés dos sistemas modernos barulhentos, congestionados, poluidores e centrados no automóvel, as cidades terão sistemas baseados em trilhos que favorecem o ciclismo e pedestrianismo, proporcionando maior mobilidade, exercício, ar mais puro e menos frustração. (Vide Capítulo 9.) Os historiadores do futuro, ao analisarem o sistema atual, provavelmente o considerarão como uma idade das trevas na evolução urbana.

Os sistemas de transportes urbanos manterão os mesmos componentes de hoje: automóvel, ferrovia, ônibus e bicicleta. A diferença estará no mix. À medida que mais e mais planejadores urbanos reconhecem o conflito inerente entre o automóvel e a cidade, novos sistemas de transporte, mais limpos e mais eficientes, serão desenvolvidos. A mobilidade individual urbana aumentará à medida que o uso do automóvel e o congestionamento do trânsito diminuam.

O setor de materiais da eco-economia também será muito diferente. (Vide Capítulo 6.) Economias industrializadas adultas, com população estabilizada, poderão operar em grande parte através da reciclagem dos materiais já em uso. O ciclo dos materiais se fechará, sem gerar desperdício ou resíduos para os lixões.

Uma das chaves da reversão do desmatamento da Terra é a reciclagem do papel; o potencial aqui foi atingido apenas parcialmente. Uma segunda chave é o desenvolvimento de fontes de energia alternativa que reduzirão o volume de madeira utilizada como combustível. Além disso, o incremento da eficiência da queima da madeira poderá reduzir significativamente a pressão sobre as florestas.

Uma outra opção promissora é o uso de plantações arbóreas cuidadosamente planejadas, ecologicamente manejadas e altamente produtivas. Uma pequena área destinada às plantações poderá ser fundamental para a proteção das florestas em nível global. As plantações poderão produzir várias vezes mais madeira por hectare do que uma floresta natural.

Na economia do futuro, o consumo da água estará em linha com a oferta. Os lençóis freáticos estarão estabilizados, e não em declínio. A reestruturação econômica será planejada para elevar a produtividade hídrica em cada faceta da atividade econômica.


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Nessa economia ambientalmente sustentável, a produção da pesca oceânica, fonte principal de proteína animal na dieta humana, será reduzida ao nível sustentável. A demanda adicional será atendida pela piscicultura. Isso, na realidade, é uma versão aquática da mesma mudança que ocorreu durante a transição da caça e coleta para o cultivo. A policultura da carpa herbívora de água doce, da qual os chineses são altamente dependentes para sua imensa piscicultura, proporciona um modelo ecológico para o resto do mundo.10

Uma situação de certa forma semelhante ocorre nos pastos. Uma das chaves para a aliviar a pressão excessiva sobre os pastos é alimentar os rebanhos com os resíduos agrícolas que, de outra forma, são queimados como combustível ou lixo. Essa tendência, já muito desenvolvida na Índia e China, pode ser a chave para a estabilização dos pastos mundiais. (Vide Capítulo 7.)11

E finalmente a nova economia terá uma população estável. A mais longo prazo, a única sociedade sustentável será aquela cujos casais tenham em média dois filhos.

Novas Indústrias, Novos Empregos

Descrever a eco-economia obviamente é uma tarefa de certa forma especulativa. No final, entretanto, não é tão imprecisa como poderia parecer, uma vez que as linhas gerais da eco-economia são definidas pelos princípios da ecologia.

O propósito em descrever a reestruturação da economia como um todo antes de se concentrar nos capítulos sobre os setores-chave é de dar uma idéia da dinâmica em ação. As tendências e mudanças específicas descritas não são projeções do que irá acontecer, embora o verbo futuro seja freqüentemente utilizado aqui por questão de eficiência. Ninguém sabe se essas mudanças de fato ocorrerão, mas sabemos que algo semelhante será necessário para que se possa construir uma eco-economia.

O que não está muito claro é como os princípios ecológicos se traduzirão em planejamento econômico, uma vez que, por exemplo, cada país tem uma combinação singular de fontes de energia renovável que moverá sua economia. Alguns países poderão fazer uso amplo de todas suas fontes de energia renovável, enquanto outros talvez se concentrem em uma que seja particularmente abundante, digamos solar ou eólica. Um país rico em energia geotérmica poderá preferir estruturar sua economia energética em torno dessa fonte subterrânea.


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A construção de uma nova economia envolve a desativação gradativa de velhas indústrias, reestruturação das existentes e criação de novas. O consumo mundial de carvão já está sendo eliminado gradativamente, tendo caído 7% após seu pico em 1996. Está sendo substituído por ganhos de eficiência em alguns países; por gás natural em outros, como no Reino Unido e na China; e por energia eólica em outros mais, como na Dinamarca.12

A indústria automobilística enfrentará uma significativa reestruturação ao substituir fontes de energia, saindo do motor de combustão interna a gasolina para o motor de célula de combustível a hidrogênio. Essa mudança da energia explosiva, derivada da ignição do vapor da gasolina, para uma reação química que gera eletricidade exigirá a re-instrumentação das fábricas de motores e o re-treinamento de engenheiros e mecânicos automotivos.

A nova economia também criará novas e grandes indústrias ainda não existentes ou incipientes. A geração da energia eólica é uma delas. (Vide Tabela 4-1.) Ainda em estado embrionário, promete se tornar a base da nova economia energética. Milhões de turbinas estarão em breve convertendo o vento em eletricidade, tornando-se parte da paisagem global. Em muitos países, o vento suprirá tanto a eletricidade quanto, através da eletrólise da água, o hidrogênio. Juntos, eletricidade e hidrogênio poderão atender a todas as necessidades energéticas de uma sociedade moderna.

Na realidade, haverá três novas indústrias subsidiárias, associadas à energia eólica para fabricação, instalação e manutenção de turbinas. Instalações fabris se localizarão em dezenas de países, industrializados e em desenvolvimento. A instalação, basicamente uma indústria de construção, terá uma natureza mais local. A manutenção, sendo uma atividade cotidiana, será uma fonte constante de emprego local.

A robustez da indústria de turbinas eólicas evidenciou-se em 2000 e 2001, quando estoques de alta tecnologia estavam em queda livre mundialmente. Enquanto as empresas de alta tecnologia, como um grupo, sofriam um mau desempenho, as vendas de turbinas eólicas aumentavam, elevando a receita dos fabricantes para o topo dos gráficos. O crescimento contínuo desse setor deverá se manter durante as próximas décadas.

À medida que a energia eólica emerge como uma fonte de eletricidade de baixo custo e se consolida como fonte principal de energia,


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Tabela 4_1. Exemplos de Indústrias da Eco-Economia

Indústria

Descrição


Piscicultura

Fabricação de

bicicletas

Construção de

fazendas eólicas

Fabricação de

turbinas eólicas

Geração de

hidrogênio

Fabricação

de célula de

combustível

Fabricação de

células solares

Construção de transportes leves sobre trilhos

Silvicultura

Embora o crescimento seja menor do que a taxa de dois dígitos da última década, a expansão acelerada deverá continuar

.

Por serem não poluidoras, silenciosas e exigirem pouco espaço de estacionamento, além de proporcionar o exercício necessário nas sociedades sedentárias, as bicicletas se tornarão cada vez mais comuns.

A geração de energia eólica, inclusive fazendas eólicas marinhas, crescerá rapidamente durante as próximas décadas até que o vento esteja suprindo a maior parte da eletricidade mundial.

Hoje, o número de turbinas eólicas em uso é medido em milhares, mas em breve será medido em milhões, criando uma gigantesca oportunidade industrial.

À medida que a transição de uma economia baseada no carbono para outra baseada no hidrogênio avança, a geração de hidrogênio se tornará uma indústria gigantesca quando o hidrogênio substituir o carvão e o petróleo.

Um imenso mercado evoluirá quando células de combustível substituírem os motores de combustão interna nos automóveis e começarem a gerar energia em prédios.

Para muitos dos 2 bilhões de habitantes de comunidades rurais do Terceiro Mundo, privados de eletricidade, as células solares serão a melhor opção para a eletrificação

Quando as pessoas não agüentarem mais o congestionamento do trânsito e a poluição associada ao automóvel, as cidades dos países industrializados e em desenvolvimento igualmente se voltarão ao transporte leve sobre trilhos para sua mobilidade.

À medida que os esforços para o reflorestamento do planeta ganhem ímpeto e a silvicultura expandir, a cultura arbórea emergirá como uma das principais atividades econômicas.



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gerará outra indústria _ a produção de hidrogênio. Assim que as turbinas eólicas estiverem em uso generalizado, haverá uma grande capacidade ociosa durante a noite, quando cai o consumo de energia. Com essa eletricidade essencialmente grátis, os proprietários de turbinas poderão se voltar para os geradores de hidrogênio, convertendo a energia eólica em hidrogênio, ideal para motores de célula de combustível. Os geradores de hidrogênio começarão a substituir as refinarias de petróleo. As turbinas eólicas substituirão tanto a mina de carvão quanto o poço de petróleo. (Vide Tabela 4-2.) Tanto as turbinas eólicas quanto os geradores de hidrogênio estarão amplamente distribuídos quando os países tirarem proveito dos recursos eólicos locais.

As mudanças na economia mundial de alimentos também serão significativas. (Vide Capítulo 7.) Alguma delas, como a mudança para a piscicultura, já estão em andamento. O subsetor de maior crescimento da economia mundial de alimentos, durante os anos 90, foi a aqüicultura, expandindo-se mais de 11% ao ano. A piscicultura provavelmente continuará a expandir-se devido a sua eficiência em converter grãos em proteína animal.13

Mesmo admitindo um crescimento futuro mais lento da aqüicultura, a produção de peixes provavelmente suplantará a de carne bovina durante esta década. Talvez o mais surpreendente seja a piscicultura vir a superar o pescado oceânico. Realmente, na China _ o maior consumidor mundial de frutos do mar _ a piscicultura já supre dois terços, com o pescado oceânico fornecendo o terço restante.14

Juntamente a esse desenvolvimento vem a necessidade de uma indústria de ração mista, uma análoga àquela que fornece as rações balanceadas utilizadas atualmente na avicultura. Haverá também uma demanda por ecólogos aquáticos, nutricionistas de peixe e veterinários marinhos.

Outro segmento de crescimento futuro é a indústria e assistência técnica de bicicletas. Não poluidoras e parcimoniosas em seu uso do solo, proporcionando o exercício necessário às sociedades sedentárias, sua demanda futura deverá aumentar. Já em 1965, a produção de automóveis e bicicletas estava praticamente equilibrada, mas hoje são fabricadas duas vezes mais bicicletas do que carros anualmente. Entre os países industrializados, o modelo de transporte urbano lançado pela Holanda e Dinamarca, onde as bicicletas se destacam, dá uma idéia do futuro papel da bicicleta em todo o mundo.15


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Tabela 4_2. Exemplos de Indústrias em Ocaso na Eco-Economia

Indústria Descrição


Mineração de carvão

Extração de petróleo

Geração de energia nuclear

Extração de madeira

Manufatura de produtos descartáveis

Indústria automobilística

O declínio de 7% na queima mundial de carvão, desde seu pico em 1996, continuará nos anos futuros.

As projeções baseadas nas reservas declinantes de petróleo indicam que a produção atingirá seu pico e começará a cair nos próximos 5 _ 20 anos. Temores sobre o aquecimento global poderão antecipar o declínio.

Embora o temor público enfoque questões de segurança, são os altos custos que asseguram o declínio dessa indústria.

A acelerada disseminação de selos ecológicos em produtos florestais, provavelmente forçará as madeireiras a se dedicarem à extração sustentável ou sucumbirem

À medida que se intensificam os esforços para o fechamento do ciclo dos materiais, muitos produtos descartáveis sofrerão pesados ônus fiscal ou serão proibidos.

À medida que a população mundial se urbaniza, o conflito entre o automóvel e a cidade intensificará, reduzindo a dependência no automóvel.


À medida que se dissemina o uso da bicicleta, cresce também a procura por bicicletas elétricas. Iguais às bicicletas atuais, exceto pelo minúsculo motor elétrico a bateria que poderá movê-la inteiramente ou servir como auxílio aos mais idosos ou aqueles que habitam locais enladeirados, suas vendas disparadas deverão continuar em ascensão nos anos futuros.

Ainda outra indústria de crescimento está aumentando: a produtividade hídrica. Da mesma forma que o último meio século dedicou-se


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ao aumento da produtividade do solo, o próximo meio século enfocará a elevação da produtividade hídrica. Praticamente todas as sociedades se voltarão para a gestão da água em nível de bacia hidrográfica, a fim de manejar com maior eficiência o suprimento disponível. Tecnologias de irrigação se tornarão mais eficientes. A reciclagem do esgoto urbano se tornará mais comum. Atualmente, a água tende a fluir para dentro e fora das cidades, carregando o lixo com ela. No futuro, a água será utilizada e reutilizada, e nunca despejada. Uma vez que a água não se desgasta, não há limite para o tempo durante o qual pode ser utilizada, contanto que seja purificada antes da reutilização.

Outra indústria que desempenhará um papel de destaque na nova economia e que reduzirá o consumo de energia é a da teleconferência. Cada vez mais, por questões ambientais e economia de tempo, as pessoas "comparecerão" às conferências eletronicamente, em conexões audiovisuais. Essa indústria envolve o desenvolvimento da infraestrutura eletrônica global, como também dosa serviços para viabilizá-la. Um dia, poderemos ter literalmente milhares de empresas organizando conferências eletrônicas.

A reestruturação da economia global criará não apenas novas indústrias, mas também novos empregos _ na realidade, novas profissões e novas especialidades, dentro das profissões. (Vide Tabela 4-3.) Por exemplo, à medida que o vento se transforma numa fonte de energia cada vez mais proeminente, haverá necessidade de milhares de meteorologistas eólicos para analisar sítios eólicos potenciais, monitorar a velocidade dos ventos e selecionar os melhores locais para as fazendas eólicas. Quanto melhores os dados sobre recursos eólicos, mais eficiente se tornará a indústria.

Intimamente ligados a essa nova profissão, estarão os engenheiros eólicos que projetam as turbinas eólicas. Novamente, o tamanho e desenho adequados da turbina poderão variar muito, conforme o local. Será responsabilidade dos engenheiros eólicos adequar os desenhos a regimes específicos de vento, a fim de maximizar a geração de eletricidade.

A arquitetura ambiental é outra profissão em crescimento acelerado. Entre os sinais de uma economia ambientalmente sustentável, estão prédios em harmonia com o meio-ambiente. Arquitetos ambientais desenham prédios eficientes em energia e materiais que maximizam o aquecimento, refrigeração e iluminação naturais.


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Tabela 4_3. Profissões em Expansão numa Eco-Economia


Profissão

Meteorologistas eólicos

Parteiras de planejamento familiar

Silvicultores

Hidrólogos

Engenheiros de reciclagem

Veterinários da aqüicultura

Economistas ecológicos

Geólogos

geotérmicos

Arquitetos ambientais

Mecânicos de bicicleta

Engenheiros de turbinas eólicas

Descrição

Meteorologistas eólicos desempenharão uma função na nova economia energética comparável a dos geólogos de petróleo, na anterior.

Para que a população mundial se estabilize logo, serão necessárias literalmente milhões de parteiras para acompanhamento do planejamento familiar.

O reflorestamento da Terra exigirá orientação profissional sobre que espécies plantar, onde plantar e em qual combinação.

À medida que aumenta a escassez de água, a demanda por hidrólogos para supervisionar o manejo de bacias hidrográficas, mananciais e eficiência hídrica aumentará.

Projetar eletrodomésticos que sejam facilmente desmontados e totalmente reciclados se tornará uma especialidade da engenharia.

Até hoje, os veterinários caracteristicamente se especializaram em animais de grande ou pequeno porte, mas com a piscicultura provavelmente superando a produção de carne bovina antes do final da década, veterinários marinhos estarão em demanda.

Ao se tornar claro que os princípios básicos da ecologia devem ser incorporados ao planejamento econômico e estabelecimento de políticas, aumentará a demanda por economistas capazes de pensar como ecólogos.

Com a probabilidade de extensas áreas do mundo se voltarem à energia geotérmica tanto para eletricidade quanto para aquecimento, crescerá a procura por geólogos geotérmicos.

Os arquitetos estão aprendendo os princípios da ecologia, a fim de incorporá-los aos prédios onde vivem e trabalham.

À medida que o mundo se volta para as bicicletas para transporte e exercício, mecânicos de bicicleta serão necessários para manter a frota em movimento.

Com milhões de turbinas eólicas a serem provavelmente instaladas nas décadas futuras, haverá uma forte demanda mundial por engenheiros de turbinas eólicas.



A Feição da Eco-Economia

Num futuro de escassez hídrica, hidrólogos de bacias hidrográficas estarão em alta. Será sua responsabilidade entender o ciclo hidrológico, incluindo o movimento da água subterrânea, conhecer a profundidade dos aqüíferos e determinar sua produção sustentável. Serão essenciais para o regime de manejo de bacias hidrográficas.

À medida que o mundo se desvia de uma economia de descarte, serão necessários engenheiros para desenharem produtos que possam ser reciclados _ desde automóveis até computadores. Assim que produtos sejam desenhados para serem desmontados simples e rapidamente em peças e materiais componentes, uma ampla reciclagem é relativamente fácil.

As tecnologias utilizadas na reciclagem são às vezes bem diferentes daquelas utilizadas no processamento de matérias-primas virgens. Dentro da indústria siderúrgica dos Estados Unidos, por exemplo, onde quase 60% do aço é produzido com sucata, as tecnologias aplicadas diferem, dependendo do insumo. O aço manufaturado em fornos a arco voltaico com sucata consome muito menos energia do que as fornalhas tradicionais, tipo Siemens-Martin, com ferro-gusa. Será responsabilidade dos engenheiros de reciclagem fecharem o ciclo de materiais, convertendo a economia de fluxo linear em outra de reciclagem abrangente.16

Nos países ricos em energia geotérmica, será responsabilidade dos geólogos geotérmicos identificarem os melhores locais, seja para usinas geradoras ou para exploração direta para aquecimento de prédios. O retreinamento de geólogos de petróleo para dominarem as tecnologias geotérmicas é uma forma de atender o provável aumento da demanda por geólogos geotérmicos.

A fim de que o mundo possa estabilizar a população mais cedo, ao invés de mais tarde, serão necessárias muitas parteiras para o acompanhamento do planejamento familiar em comunidades do Terceiro Mundo. Esse setor de crescimento estará concentrado principalmente nos países em desenvolvimento, onde milhões de mulheres não dispõem de acesso ao planejamento familiar. Os mesmos profissionais de planejamento familiar, que dão aconselhamento em saúde reprodutiva e uso de anticoncepcionais, poderão também desempenhar um papel importante no controle da disseminação do HIV.

Outra necessidade premente, particularmente nos países em desenvolvimento, é de engenheiros sanitários que possam projetar sistemas


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de esgotos não dependentes de água, uma tendência já em andamento em alguns países que sofrem escassez de água. Quando se reconhecer que o uso da água para descarga de resíduos é um uso negligente de um recurso escasso, uma nova classe de engenheiros sanitários estará em grande demanda. Mesmo hoje, é inaceitável utilizar água para escoamento de resíduos, quando ecossistemas marinhos estão sobrecarregados com fluxos de nutrientes. Além da perturbação ecológica de um método hídrico de destinação final do lixo, também há prioridades muito maiores no uso da água, como para beber, higiene e irrigação.

Ainda outra profissão com possibilidade de expansão acelerada na agricultura, à medida que as áreas produtivas escasseiam, é a de agrônomos especializados em cultivo múltiplo e intercultivo. Isso requer qualificação tanto para a seleção de culturas que possam conviver juntas numa rotatividade rígida em vários locais, como para práticas agrícolas que facilitem o cultivo múltiplo.

A Maior Oportunidade de Investimento da História

A reestruturação da economia global para que o avanço econômico seja sustentado representa a maior oportunidade de investimento da história. Como observado no Capítulo 1, a mudança conceitual é comparável àquela da Revolução Copérnica no Século XVI. Em escala, a Revolução Ambiental é comparável às Revoluções Agrícola e Industrial, que a precederam.

A Revolução Agrícola envolveu a reestruturação da economia alimentar, saindo de um estilo de vida nômade, baseado na caça e coleta, para um estilo de vida assentado, baseado no cultivo do solo. Embora a agricultura tenha iniciado como um complemento da caça e da coleta, veio a substituí-los totalmente. A Revolução Agrícola implicou o desmatamento de um décimo da superfície terrestre coberto por capim ou árvores, para que fosse arado. Contrariamente à cultura caçador/colhedor, que pouco efeito causou à terra, essa nova cultura agrícola transformou literalmente a superfície do planeta.17

A Revolução Industrial está em andamento há dois séculos, embora em alguns países ainda esteja em seus primórdios. Em sua base, havia uma mudança das fontes de energia _ da madeira ao combustível fóssil _ uma mudança que abriu caminho para uma expansão maciça da atividade econômica. Realmente, ela se distingue pelo domínio de quantidades gigantescas de energia fóssil para objetivos econômicos. Em


A Feição da Eco-Economia

bora a Revolução Agrícola tenha transformado a superfície da Terra, a Revolução Industrial está transformando a atmosfera do planeta.

A produtividade adicional que a Revolução Industrial viabilizou desencadeou imensas energias criativas. Também criou novos estilos de vida e a maior era ambientalmente destrutiva da história da humanidade, colocando o mundo firmemente no caminho do declínio econômico.

A Revolução Ambiental se assemelha à Revolução Industrial por ser, cada uma, dependente da mudança para uma nova fonte energética. E, igualmente às duas revoluções anteriores, a Revolução Ambiental afetará todo o planeta.

Há diferenças de escala, tempo e origem entre as três revoluções. Contrariamente às outras duas, a Revolução Ambiental deverá ser comprimida em algumas décadas. As outras revoluções foram movidas por novas descobertas, por avanços tecnológicos, enquanto esta revolução está sendo movida principalmente por nosso instinto de sobrevivência.

Como observado anteriormente, nunca houve uma oportunidade de investimento como essa. O volume que o mundo gasta atualmente, a cada ano, em petróleo _ a fonte principal de energia _ dá uma idéia de quanto poderia gastar em energia na eco-economia. Em 2000, o mundo consumiu quase 28 bilhões de barris de petróleo, cerca de 76 milhões de barris por dia. A US$ 27 o barril, isto representa US$ 756 bilhões anuais. Quantas turbinas eólicas seriam necessárias para gerar tamanha energia? Quantos telhados solares? Quantos poços geotérmicos?18

Uma grande diferença entre os investimentos em combustíveis fósseis e outros em energia solar, células solares e energia geotérmica é que estes últimos fornecerão energia perpetuamente. Esses "poços" não secarão. Caso o dinheiro gasto em petróleo em um ano fosse investido em turbinas eólicas, a eletricidade gerada seria suficiente para atender um quinto das necessidades mundiais.19

Investimentos em infra-estrutura para a nova economia energética, que viriam a ser necessários à medida que os combustíveis fósseis fossem exauridos, serão obviamente gigantescos. Incluirão linhas de transmissão conectando as fazendas eólicas aos consumidores, e dutos ligando as fontes de abastecimento de hidrogênio aos usuários finais. A infra-estrutura existente _ linhas de transmissão de eletricidade e gasodutos _ poderá, em grande parte, ser aproveitada na nova econo


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mia energética. A rede local de distribuição de gasodutos em várias cidades poderá facilmente ser convertida para o hidrogênio.

Nos países em desenvolvimento, as novas fontes de energia prometem reduzir a dependência do petróleo importado, liberando capital para investimento em fontes internas de energia. Embora poucos países possuam poços petrolíferos, todos têm energia eólica e solar. Em termos de expansão eco-econômica e geração de empregos, essas novas tecnologias energéticas são uma dádiva divina.

Os investimentos em eficiência energética com certeza também aumentarão rápido, simplesmente por serem mais rentáveis. Praticamente em todos os países, sejam industrializados ou em desenvolvimento, a energia economizada é a fonte mais barata de nova energia. Substituir lâmpadas incandescentes ineficientes por lâmpadas fluorescentes compactas, altamente eficientes, proporciona uma taxa de retorno que as bolsas mundiais não podem igualar.

Há também oportunidades abundantes de investimento na economia alimentar. Provavelmente, a demanda mundial por frutos do mar, por exemplo, deverá aumentar no mínimo pela metade, durante os próximos 50 anos, e talvez muito mais. Se assim for, a produção da piscicultura _ hoje, 31 milhões de toneladas anuais _ certamente terá que triplicar, assim como seus investimentos. Embora o crescimento da aqüicultura deva desacelerar dos 11% anuais da última década, mesmo assim deverá ser robusto, oferecendo uma oportunidade promissora para investimentos futuros.20

Uma situação semelhante ocorre na silvicultura. Atualmente, cobre cerca de 113 milhões de hectares. Uma ampliação de pelo menos 50%, acompanhada de um aumento continuado de produtividade, provavelmente seja necessária tanto para atender à demanda futura quanto para eliminar uma das pressões que estão reduzindo as florestas. Aqui também existe uma tremenda oportunidade para investimento.21

Nenhum segmento da economia global ficará intocado pela Revolução Ambiental. Nessa nova economia, algumas empresas serão vitoriosas e outras perdedoras. Aquelas que previrem a eco-economia emergente e se prepararem para ela sairão vitoriosas. Aquelas que se cingirem ao passado correrão o risco de se tornar parte dele.


A Feição da Eco-Economia

5


A Criação de uma Economia

Solar e de Hidrogênio

Em maio de 2001, a Casa Branca de Bush divulgou, com grande alarde, um programa vintenal para a economia energética dos Estados Unidos. O programa desapontou muitas pessoas por ter ignorado em grande parte o imenso potencial para a melhoria da eficiência energética. Também desconsiderou o imenso potencial da energia eólica, que provavelmente agregaria mais a capacidade geradora dos Estados Unidos nos próximos 20 anos do que o carvão. O plano ilustrou os problemas que alguns governos enfrentam no planejamento de uma economia energética compatível com o ecossistema da Terra.1

Elaborado sob a direção do Vice-presidente Dick Cheney, o programa governamental enfocou a produção crescente dos combustíveis fósseis, algo mais adequado para o início do Século XX do que para o início do Século XXI. Enfatizou o papel do carvão, mas os autores aparentemente desconheciam que o consumo mundial de carvão atingiu seu pico em 1996, tendo declinado desde então cerca de 7%, à medida que outros países se afastaram desse combustível. Até a China, que rivaliza com os Estados Unidos como nação consumidora de carvão, reduziu seu consumo em cerca de 14% desde 1996.2

O futuro energético que antevejo é muito diferente daquele traça


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do pelo programa energético de Bush. Por exemplo, o programa observou que 2% da geração de eletricidade nos Estados Unidos, que hoje provém de fontes renováveis, com exceção da hidroenergia, aumentará para 2,8% em 2020. Porém, meses antes da divulgação do programa energético de Bush, a AWEA [Associação Americana de Energia Eólica] projetava um aumento estonteante de 60% na capacidade de geração eólica dos Estados Unidos em 2001. Mundialmente, o uso apenas da energia eólica quase quadruplicou nos últimos cinco anos, uma taxa de crescimento comparável apenas com o setor de informática.3

Embora o programa energético de Bush não demonstre, a economia energética mundial está no limiar de uma grande transformação. Historicamente, o Século XX foi o século do combustível fóssil. Ao carvão, já consolidado como uma das principais fontes de combustível em 1900, juntou-se o petróleo, quando o automóvel entrou em cena. Entretanto, só em 1967 o petróleo finalmente veio a substituir o carvão como a base da economia energética mundial. O gás natural ganhou popularidade durante as últimas décadas do século, quando aumentaram os temores sobre poluição do ar urbano e mudança climática global, ultrapassando o carvão em 1999.4

O início do novo século marcou o ocaso da era do combustível fóssil. As últimas décadas mostraram uma mudança constante do carvão, o combustível fóssil mais poluente e perturbador do clima, para o petróleo, ligeiramente menos perturbador do meio ambiente , e em seguida para o gás natural, o mais limpo e menos perturbador do clima dentre os três. É esse desejo por combustíveis limpos, benéficos ao clima _ e não a exaustão de combustíveis fósseis _ que está movendo a transição global para a era solar e de hidrogênio.5

O uso do carvão atingiu seu pico em 1996, enquanto o petróleo deverá atingir seu pico nesta década ou na próxima. O consumo de gás natural continuará aumentando um pouco mais, devido às suas reservas abundantes e à popularidade como um combustível de queima limpa, eficiente em carbono. Sendo um gás, também é o combustível ideal para a transição da economia energética baseada no carbono para outra baseada no hidrogênio. Se continuar crescendo a uma taxa em torno de 2% ao ano, como vem ocorrendo na última década, o consumo de gás natural exigirá a construção contínua de gasodutos e instalações de armazenagem _ uma infra-estrutura que um dia poderá ser


A Criação de uma Economia Solar e de Hidrogênio

facilmente adaptada ao hidrogênio.6

Até mesmo as empresas de petróleo estão começando a perceber que já chegou a hora de uma transição energética. Após anos negando qualquer ligação entre a queima de combustíveis fósseis e a mudança climática, John Browne, Diretor-Presidente da British Petroleum (BP), anunciou sua nova posição num discurso histórico na Universidade de Stanford, em maio de 1997: "Meu colegas e eu hoje reconhecemos a seriedade da ameaça do aquecimento global. A hora de considerar as dimensões políticas da mudança climática não é quando a relação entre os gases de estufa e a mudança climática seja comprovada, e sim quando essa possibilidade não possa mais ser ignorada e seja levada a sério pela sociedade da qual fazemos parte. Nós, na BP, chegamos a esse ponto." Em fevereiro de 1999, o Diretor-Presidente da ARCO Michael Bowlin, declarou numa conferência sobre energia em Houston, Texas, que já se vislumbrava o começo do fim da era do petróleo. Ele prosseguiu discutindo a necessidade de mudar de uma economia energética baseada no carbono para uma economia baseada no hidrogênio.7

Seth Dunn escreve na revista World Watch que um consórcio de corporações, liderado pela Shell Hydrogen e DaimlerChrysler, chegou a um acordo em 1999 com o Governo da Islândia para tornar esse país a primeira economia mundial movida a hidrogênio. A Shell está interessada porque deseja dar início ao desenvolvimento de sua capacidade de produção e distribuição de hidrogênio, e a DaimlerChrysler espera lançar no mercado o primeiro automóvel movido a célula de combustível. A Shell pretende inaugurar sua primeira cadeia de postos de hidrogênio na Islândia.8

Os sinais da reestruturação da economia energética global são evidentes. Os acontecimentos se desenvolvem muito mais rapidamente do que se esperava até poucos anos atrás, provocados em parte pelas evidências cada vez maiores que a Terra está de fato se aquecendo e que a queima de combustíveis fósseis é a causa.9

A Base da Eficiência Energética

Quando o novo programa energético de Bush foi anunciado, muitos se surpreenderam com a ênfase, quase exclusiva, na expansão da produção, com pouca atenção sendo dada inicialmente ao potencial do uso mais eficiente da energia. Em resposta, a Alliance to Save Energy,


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de Washington, divulgou uma contra-proposta no sentido de eliminar a necessidade de se construir grande parte das 1.300 usinas propostas. Também seria muito menos dispendioso e menos poluente.10

Bill Prindle, Diretor do Programa de construção e serviços públicos da Alliance, assinalou que a adoção de normas de eficiência para eletrodomésticos, aceitas tanto pelo Governo Clinton quanto pelo governo Bush, eliminaria a necessidade de 127 usinas elétricas até 2020. Se a norma mais rígida de eficiência para aparelhos domésticos de ar-condicionado, aprovada pelo Governo Clinton, fosse adotada, eliminaria a necessidade de outras 43 usinas. Normas mais rigorosas para sistemas comerciais de ar-condicionado tornariam 50 usinas desnecessárias. Um aumento de eficiência energética em novas construções durante os próximos 20 anos, através de créditos fiscais, economizaria outras 170 usinas. E a melhoria da eficiência energética dos prédios existentes, incluindo condicionadores de ar, iluminação comercial e refrigeração comercial, eliminaria 210 usinas.11

A lista de Prindle continua, mas só essas cinco medidas eliminariam a necessidade de 600 usinas elétricas. Os custos das medidas dissuasórios dessas usinas seriam bem menores do que o custo de construção. Todas essas medidas economizadoras de eletricidade são economicamente viáveis, com algumas proporcionando taxas de retorno de 30%.12

Peter Coy, redator de economia da Business Week, assinala que uma tarifa de eletricidade baseada no hora do uso, aumentando os preços durante o horário de pico e reduzindo-os durante a noite, também diminuiria muito a capacidade geradora necessária. Embora ele não tivesse calculado a quantidade de usinas que seriam desnecessárias, sem dúvida eliminaria a necessidade de outro grande conjunto.13

Amory Lovins, do Rocky Mountain Institute, ganhou reputação internacional vendendo a idéia de que é mais barato economizar energia do que comprá-la. Em resposta às suas convincentes apresentações sobre o fato de os retornos anuais nos investimentos em melhoria de eficiência se situarem freqüentemente em torno de 30%, ou mais, muitas empresas investiram maciçamente na redução do seu consumo de energia. Mas, mesmo com os ganhos de eficiência desde o aumento dos preços do petróleo nos anos 70, Lovins acredita que as corporações americanas ainda poderiam reduzir suas contas de energia pela metade e, ao mesmo tempo, ganhar dinheiro.14

O exemplo da Europa é uma prova clara do potencial latente da


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economia de energia nos Estados Unidos. Os europeus consomem rotineiramente 30% menos energia por unidade de produto nacional bruto do que os americanos. Os Estados Unidos poderiam facilmente cumprir as exigências para sua redução do uso do carbono até 2010, nos termos do Protocolo de Kyoto, simplesmente se ajustando aos níveis europeus de eficiência, que ainda estão bem abaixo dos níveis de eficiência possíveis com o uso de tecnologias de última geração.15

Embora a Europa esteja muito adiante dos Estados Unidos em eficiência energética, os países continuam a avançar individualmente. No início de agosto de 2001, a Grã-Bretanha lançou uma nova política fiscal para encorajar investimentos em equipamentos economizadores de energia. Os gastos de capital podem agora ser deduzidos do lucro tributável caso os equipamentos atendam a normas estabelecidas de eficiência energética. Entre as categorias de equipamentos elegíveis para isenção fiscal estão co-geração, caldeiras, motores elétricos, iluminação e refrigeração. Esse programa baseou-se num sistema semelhante, já operando com sucesso na Holanda.16

A China está hoje determinando o ritmo do aumento da eficiência energética e reduzindo as emissões de carbono. Nos últimos quatro anos, a China aparentemente reduziu suas emissões de carbono, mesmo enquanto sua economia crescia 7% ao ano, através da eliminação gradativa de subsídios ao carvão, estabelecimento de preços de mercado para combustíveis e novas iniciativas de conservação de energia. Por exemplo, a China em breve dará início à produção de refrigeradores de alta eficiência que consumirão apenas metade da eletricidade dos modelos convencionais.17

Pode-se perceber parte do potencial mundial de economia de energia com a substituição das lâmpadas incandescentes por lâmpadas fluorescentes compactas (LFCs). Estas consomem menos de um quarto da eletricidade e, embora sejam mais caras que as incandescentes, duram 13 vezes mais. Ao longo de 3 anos, utilizando-as 4 horas por dia, a energia mais a lâmpada custam US$ 19,06 para uma fluorescente compacta e US$ 39,54 para uma incandescente. Mesmo excluindo o custo da mão-de-obra na substituição da lâmpada incandescente seis vezes durante os três anos, o retorno no investimento de uma lâmpada fluorescente compacta ainda se situa próximo a 30% ao ano.18

Viajando de país a país lançando livros e realizando conferências, verifico rotineiramente as lâmpadas nos apartamentos dos hotéis.


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Algumas cadeias utilizam LFCs quase que exclusivamente. Outras utilizam poucas ou nenhuma. O potencial mundial para investimento em lâmpadas fluorescentes compactas e a correspondente desativação de usinas elétricas não é apenas imenso, mas também rentável.

Outra área com enorme potencial para a melhoria de eficiência é o combustível automotivo. Nos Estados Unidos, que possuem uma das mais ineficientes frotas de veículos do mundo, os novos modelos 2001 fazem cerca de 8,7 km/litro, inferior ao pico de 9,3 km/litro de 1987. Assim, a eficiência do combustível caiu 6% quando, levando-se em conta os avanços da tecnologia e a crescente preocupação com o aquecimento global, deveria estar aumentando. Felizmente, neste momento, o Congresso está mostrando sinais de que poderá assumir a liderança e estabelecer novos padrões de eficiência para as próximas décadas.19

A eficiência do combustível entre os modelos 2001 vendidos nos Estados Unidos é muito variada, desde o híbrido elétrico Insight da Honda, que faz 24 km/litro na estrada e 21,5 km/litro na cidade, até uma Ferrari, com 4,5 km/litro na estrada e menos de 3 km/litro na cidade. Ligeiramente acima da Ferrari na classificação de consumo, estão vários dos grandes veículos utilitários esportivos. Os carros mais eficientes no mercado, como o Insight da Honda e o Prius da Toyota, obtêm facilmente o dobro da eficiência de combustível da frota dos Estados Unidos, ressaltando o gigantesco potencial para economia de combustível.20

Independente da fonte de energia, faz sentido tanto econômico quanto ambiental assegurar que a energia seja utilizada eficientemente. No mínimo, o mundo deveria estar realizando todos os investimentos em eficiência energética que fossem rentáveis, aos preços correntes. Isso, por si só, reduziria o consumo mundial de energia a um volume considerável.

Às vezes, uma medida simples pode fazer uma grande diferença. Em Bancoque, a prefeitura decidiu que às 9 horas de uma determinada noite todas as principais redes de televisão, conjuntamente, exibiriam um grande medidor indicando o consumo atual de eletricidade da cidade. Logo que o medidor apareceu, os telespectadores foram solicitados a desligar as lâmpadas e aparelhos desnecessários. Enquanto olhavam a tela, a contagem do medidor caiu, reduzindo o consumo em 735 megawatts, o suficiente para desligar duas usinas a carvão de porte


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médio. Para os telespectadores, essa experiência visual teve um efeito marcante, lembrando-os que individualmente podiam fazer uma diferença e coletivamente podiam de fato desativar usinas elétricas.21

O objetivo dessa seção é simplesmente dar uma idéia da economia potencial de energia. Um esforço global bem-sucedido nessa direção reduziria os gastos em energia e ajudaria a diminuir a poluição atmosférica e perturbação climática, enquanto surgem novas fontes energéticas. Mesmo durante o desenvolvimento de motores movidos a hidrogênio, reduziria a vulnerabilidade às altas do preço do petróleo _ uma preocupação de muitos governos.

Controlando o Vento

A indústria eólica moderna nasceu na Califórnia, no início dos anos 80, no rastro das altas do preço do petróleo em 1973 e 1979. Sob a liderança do Governador Jerry Brown, o estado agregou seu próprio incentivo fiscal ao federal, já existente, para o desenvolvimento de recursos de energia renovável , criando um ambiente para investimentos que produziu uma capacidade de geração eólica, em nível estadual, suficiente para atender às necessidades residenciais de São Francisco. Mas, após um início acelerado na Califórnia, diminuiu o interesse dos Estados Unidos pela energia eólica, quase desaparecendo durante uma década.22

Enquanto o interesse na energia eólica amortecia nos Estados Unidos, continuava avançando na Europa, liderado principalmente pela Dinamarca, que havia fabricado muitas das turbinas que foram instaladas na Califórnia. Entre 1995 e 2000, como observado anteriormente, a energia eólica quadruplicou mundialmente uma taxa de crescimento comparável ao setor da informática. (Vide Figura 5-1.) Então os Estados Unidos voltaram a campo, com a AWEA projetando um crescimento de 60% na capacidade de geração eólica do país em 2001.23

Hoje, a Dinamarca obtém 15% de sua eletricidade da energia eólica. Em Schleswig-Holstein, no extremo norte da Alemanha, a taxa é de 19% _ com algumas regiões desse estado obtendo expressivos 75%. O estado industrial de Navarra, na Espanha, partindo do zero seis anos atrás, obtém agora 22% de sua eletricidade do vento. Mas, em termos de capacidade geradora absoluta, a Alemanha surge como líder mundial, com os Estados Unidos em segundo lugar. (Vide Tabela 5-1.) Espanha, Dinamarca e Índia compõem os cinco maiores.24


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Figura 5_1. Capacidade de Geração Mundial

de Energia Eólica, 1980-2000

Os avanços na tecnologia de turbinas eólicas, derivados principalmente da indústria aeroespacial, reduziram o custo da energia eólica de 38 centavos de dólar por kw/hora, no início dos anos 80, para menos de 4 centavos nos principais sítios eólicos em 2001. (Vide Figura 5-2.) Em alguns locais, a energia eólica já é mais barata do que a energia gerada a petróleo ou a carvão. Com as principais corporações, como ABB, Royal Dutch Shell e Enron investindo nessa área, há perspectivas para reduções ainda maiores.25

O vento é uma fonte de energia imensa e mundial. As Grandes Planícies dos Estados Unidos são a Arábia Saudita da energia eólica. Três estados eolicamente ricos _ Dakota do Norte, Kansas e Texas _ dispõem de condições eólicas suficientes para atender às necessidades nacionais de energia. A China pode dobrar sua capacidade geradora atual só com o vento. A Europa Ocidental, com alta densidade populacional, poderá atender a todas suas necessidades com energia eólica marinha.26

À medida que os custos de geração eólica caem e as preocupações quanto à mudança climática aumentam, mais e mais países estão aderindo à energia eólica. A partir de dezembro de 2000, a escala de desenvolvimento mundial da energia eólica atingiu um novo nível. No início do mês, a França anunciou o desenvolvimento de 5.000 megawatts de energia eólica até 2010. Logo depois, a Argentina anunciou um


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Tabela 5_1. Capacidade Geradora de Energia Eólica em

Países Selecionados, 2000


País

Alemanha

Estados Unidos

Espanha

Dinamarca

Índia

Capacidade

(megawatts)

6,113

2,554

2,250

2,140

1,167


Fonte: Vide nota final 24

projeto para o desenvolvimento de 3.000 megawatts na Patagônia também até 2010. Então, em abril de 2001, o Reino Unido aceitou propostas para o desenvolvimento oceânico de 1.500 megawatts de energia eólica. Em maio, um relatório de Beijing indicava planos para a China desenvolver cerca de 2.500 megawatts até 2005.27

O crescimento efetivo da energia eólica está consistentemente superando as estimativas iniciais. A Associação Européia de Energia Eólica, que em 1996 havia estabelecido uma meta de 40.000 megawatts para a Europa até 2010, reajustou-a recentemente para 60.000 megawatts.28

Nos Estados Unidos, a energia eólica restringiu-se inicialmente à Califórnia, mas durante os últimos três anos, fazendas eólicas foram implantadas no Colorado, Iowa, Minnesota, Oregon, Pensilvânia, Texas e Wyoming, aumentando a capacidade dos EUA em 50% _ de 1.680 para 2.550 megawatts. (Um megawatt de capacidade geradora supre 350 residências.) Os cerca de 1.500 megawatts a serem adicionados em 2001 estarão localizados numa dúzia de estados. Uma fazenda eólica de 300 megawatts, em construção na divisa Oregon/Washington, a maior entre as existentes, poderá fornecer eletricidade para 105.000 lares.29

Mas isso é apenas o começo. A BPA (Bonneville Power Administration), uma agência federal dos Estados Unidos fornecedora de energia, divulgou em fevereiro que desejava adquirir 1.000 megawatts de capacidade geradora eólica, solicitando propostas. Para sua grande surpresa, recebeu propostas suficientes para construir 2.600 megawatts de capacidade em cinco estados, com o potencial de ampli


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Figura 5_2. Custo Médio por Quilowatt-hora de Eletricidade Eólica nos Estados Unidos, 1982, 1990 e 2001

ar esses locais para mais de 4.000 megawatts. A BPA, que pôde aceitar a maior parte dessas propostas, espera já ter um local implantado até o final de 2001.30

Uma fazenda eólica de 3.000 megawatts no estágio inicial de planejamento, no centro-leste de Dakota do Sul, próxima à divisa de Iowa, é 10 vezes maior do que a fazenda eólica de Oregon/Washington. Chamado de Rolling Thunder [Trovão Retumbante] esse projeto _ iniciado pela Dehlsen Associates sob a liderança de Jim Dehlsen, um pioneiro da energia eólica na Califórnia _ deverá fornecer energia para o Meio Oeste, em torno de Chicago. Ela Não é apenas grande pelos padrões da energia eólica, é atualmente um dos maiores projetos energéticos de qualquer tipo no mundo.31

A receita da eletricidade eólica tende a permanecer na comunidade, incrementando as economias locais, proporcionando renda, emprego e receita fiscal. Uma turbina eólica grande, de desenho avançado, ocupando um quarto de acre de terra, pode facilmente render ao agricultor ou pecuarista US$ 2.000 de royalties por ano e, ao mesmo tempo, fornecer US$ 100.000 de eletricidade à comunidade.32

Para agricultores e pecuaristas, descobrir o valor dos seus recursos eólicos é como descobrir petróleo _ com a vantagem de o vento ser inesgotável. Uma das atrações é que as turbinas distribuídas pela fazenda não interferem no uso do solo para agricultura ou pecuária. Para pecuaristas localizados em áreas com boa ventania, a receita eólica


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pode facilmente suplantar as vendas do gado. A prosperidade trazida pelo vento poderá revitalizar comunidades rurais em todo o mundo.

Com a obtenção de eletricidade barata gerada pelo vento, poderemos utilizá-la para eletrolizar a água, dividindo a molécula da água em seus elementos de hidrogênio e oxigênio. O hidrogênio é o mais simples dos combustíveis e, contrariamente ao carvão ou petróleo, é totalmente isento de carbono. É o combustível preferencial para o novo e altamente eficiente motor a célula de combustível, com o qual todos as principais montadoras trabalham atualmente. DaimlerChrysler pretende comercializar automóveis movidos a célula de combustível até 2003. Ford, Toyota e Honda provavelmente vêm logo atrás.33

O excesso de produção da energia eólica pode ser armazenado sob a forma de hidrogênio e utilizado nas células de combustível ou turbinas a gás para gerar eletricidade, nivelando a oferta quando há variação nos ventos. O vento, outrora considerado a pedra angular da nova economia energética, provavelmente se tornará seu alicerce.

Com o avanço das tecnologias de domínio do vento e abastecimento de veículos com hidrogênio, podemos agora prever um futuro em que agricultores e pecuaristas americanos fornecerão não apenas a maior parte da eletricidade do país, mas também a maior parte do hidrogênio para sua frota de veículos. Pela primeira vez, os Estados Unidos possuem a tecnologia para se divorciar do petróleo do Oriente Médio.

Dentro dos Estados Unidos, desenvolve-se um novo lobby para a energia eólica. Além do setor eólico e dos ambientalistas, agricultores e pecuaristas também instam os legisladores a apoiarem o desenvolvimento dessa abundante alternativa aos combustíveis fósseis.34

Na manufatura das turbinas que convertem o vento em eletricidade, a Dinamarca é líder mundial. 60% de todas as turbinas instaladas em 2000 foram fabricadas ou licenciadas por empresas dinamarquesas. Isso mostra como um país pode transformar presciência e forte compromisso ambiental num posicionamento dominante na eco-economia emergente. Embora registre um crescimento extraordinário no desenvolvimento da energia eólica, os Estados Unidos lutam para reentrar na corrida industrial das turbinas eólicas. A primeira unidade fabril de turbina eólica em grande escala construída nos Estados Unidos, fora da Califórnia, iniciou suas atividades recentemente em Champaign, Illinois, no coração do Cinturão do Milho.35

O mundo começa a dar o devido valor ao vento _ uma fonte de


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energia tanto vasta quanto inexaurível, uma fonte de energia que tanto pode suprir eletricidade quanto hidrogênio como combustível. Nos Estados Unidos, os agricultores estão aprendendo que duas colheitas _ agrícola e energética _ são melhores que uma. Líderes políticos começam a perceber que o controle do vento pode contribuir para a segurança energética e estabilidade climática. E os consumidores que escolhem a eletricidade verde estão aprendendo que podem ajudar a estabilizar o clima. Essa é uma combinação vencedora.

Transformando a Luz Solar em Eletricidade

Em seguida à energia eólica, a segunda fonte de energia de maior crescimento _ as células solares _ é relativamente nova. Em 1952, três cientistas dos Laboratórios Bell, em Princeton, Nova Jersey, descobriram que a luz solar, atingindo um material à base de silício, produzia eletricidade. A descoberta dessa célula fotovoltaica, ou solar, criou um imenso e novo potencial para a geração de eletricidade.36

Inicialmente dispendiosas, as células solares só podiam ser utilizadas em aplicações de alto valor, como o fornecimento de eletricidade para satélites. Outro uso econômico inicial foi para operação de calculadoras de bolso. Outrora dependentes de baterias, as calculadoras modernas hoje funcionam com energia fornecida por uma fina lâmina de silício.

A próxima aplicação a se tornar econômica foi para o fornecimento de energia a locais remotos, como chalés nas montanhas em países industrializados e vilarejos nos países em desenvolvimento ainda não conectados à rede de energia. Nos vilarejos mais remotos, já é mais econômico instalar células solares do que construir uma usina elétrica e conectar os vilarejos à grade. No final de 2000, cerca de um milhão de residências em todo o mundo recebiam eletricidade de instalações solares. Aproximadamente 700.000 dessas localizavam-se em vilarejos do Terceiro Mundo.37

À medida que o custo das células solares se reduz, essa fonte de energia se torna mais competitiva frente a usinas de grande porte, centralizadas. Para muitas das 2 bilhões de pessoas no mundo que não dispõem de acesso à eletricidade, pequenos conjuntos de células solares proporcionam um atalho, uma fonte acessível de eletricidade. Nos vilarejos dos planaltos peruanos, por exemplo, as famílias gastam cerca de US$ 4 por mês com velas. Com apenas um pouco mais, podem


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dispor de iluminação de muito melhor qualidade, de células solares. Em algumas comunidades do Terceiro Mundo, não atendidas por uma rede centralizada, empreendedores locais estão investindo em instalações geradoras solares e vendendo a energia à população.38

Talvez o avanço tecnológico mais estimulante tenha sido o desenvolvimento de uma cobertura fotovoltaica no Japão. Num esforço conjunto, o setor de construção, a indústria de células solares e o governo japonês pretendem implantar 4.600 megawatts de capacidade geradora até 2010, suficiente para atender todas as necessidades de eletricidade de um país como a Estônia.39

Com uma cobertura fotovoltaica, o telhado de um prédio se transforma numa usina. Em alguns países, incluindo Alemanha e Japão, os prédios dispõem hoje de medidores de via dupla _ vendendo eletricidade à concessionária local quando têm excesso e adquirindo-a quando há insuficiência.40

Prédios comerciais novos nos Estados Unidos, Alemanha e Suíça incorporaram materiais fotovoltaicos às suas fachadas para gerarem eletricidade. Pela aparência externa, nada indica que as vidraças e janelas sejam, na realidade, pequenas usinas elétricas.

O crescimento das vendas de células fotovoltaicas atingiu em média 20% ao ano entre 1990 e 2000. A partir de 2000, deram um salto de 43%. Ao longo da última década, as vendas mundiais dessas células mais que sextuplicaram _ de 46 megawatts de capacidade em 1990 para 288 megawatts em 2000. (Vide Figura 5-3.)41

Os três maiores fabricantes de células solares são: Japão, Estados Unidos e a União Européia. Em 1999, a produção de células solares, só no Japão, saltou para 80 megawatts, levando-o ao primeiro lugar, na frente dos Estados Unidos. Uma maior parcela de células solares produzidas nos Estados Unidos, que atingiu 60 megawatts em 1999, foi exportada para países em desenvolvimento. A Europa atualmente ocupa o terceiro lugar, com 40 megawatts em 1999, porém sua capacidade aumentou em mais de 50% quando a Royal Dutch Shell e Pilkington Glass implantaram instalações fabris para 25 megawatts na Alemanha.42

Quando a BP absorveu a Amoco, também adquiriu Solarex, o braço solar da Amoco, transformando a BP, da noite para o dia, no terceiro maior fabricante mundial de células solares, depois da Sharp e Kyocera, ambas japonesas. Siemens/Shell ocupa o quarto lugar. O mercado mundial de células solares se destaca pela concorrência inten


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Figura 5_3. Vendas Mundiais de Equipamentos Fotovoltaicos,

1971-2000

sa entre empresas e países. Uma das razões dos principais países industrializados desenvolverem programas ambiciosos de telhados solares é para ajudar a desenvolver sua indústria de células solares.43

O Japão, Alemanha e Estados Unidos desenvolvem grandes programas de apoio à indústria. As novas instalações da Shell/Pilkington na Alemanha foram construídas em resposta ao vigoroso programa alemão de aumento do uso de energia solar, particularmente de telhados. Contrariamente ao Japão, que depende de subsídios aos compradores de sistemas de telhados solares, o governo alemão cobra um preço promocional pela eletricidade solar e faz empréstimos a juros baixos para encorajar investimentos. A Alemanha tem um programa de 100.000 Telhados, com uma meta de instalação de 300 megawatts de células solares até 2005. O programa Um Milhão de Telhados Solares, dos Estados Unidos, foi lançado em 1997. Embora seja um objetivo impressionante, o apoio financeiro governamental não é tão forte quanto no Japão e Alemanha. A Itália também começa a avançar na frente solar, com um programa de 10.000 Telhados Solares.44

O potencial da arena solar é gigantesco. Aerofotografias mostram que, mesmo no famoso clima nublado das Ilhas Britânicas, a implantação de células solares nos telhados do país poderia gerar 68.000 megawatts de energia num dia claro, cerca da metade da demanda de pico da Grã-Bretanha.45

O custo de células solares caiu de mais de US$ 70 por watt de


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capacidade de produção nos anos 70 para menos de US$ 3,50 por watt hoje. E deverá continuar caindo, possivelmente para apenas US$ 1 por watt, à medida que a tecnologia avança e a capacidade industrial se desenvolve aceleradamente. Pesquisas destinadas à melhoria da tecnologia fotovoltaica estão em curso em centenas de laboratórios. Avanços no desenho ou tecnologia de fabricação ocorrem quase que mensalmente.46

Explorando o Calor da Terra

Em contraste a outras fontes renováveis, como energia eólica, solar e hidroenergia, que dependem direta ou indiretamente da luz solar, a energia geotérmica vem do interior da própria Terra. Produzida radiativamente dentro da Terra e pela pressão da gravidade, é um recurso gigantesco, a maior parte nas profundezas da Terra. A energia geotérmica pode ser explorada economicamente quando está relativamente próxima à superfície, como demonstram fontes termais, gêiseres e a atividade vulcânica.

Essa fonte de energia é essencialmente inesgotável. Banhos quentes, por exemplo, têm sido usados durante milênios. É possível extrair-se calor mais rapidamente do que é gerado em qualquer local, porém isso requer apenas um ajuste da extração do calor à quantidade gerada. Contrariamente a poços de petróleo, que se exaurem, campos geotérmicos bem administrados produzem indefinidamente.

A energia geotérmica é muito mais abundante em algumas partes do mundo do que em outras. A região mais rica é a extensa Borda do Pacífico. No Leste do Pacífico, recursos geotérmicos são encontrados ao longo das regiões costeiras da América Latina, América Central e América do Norte até o Alasca. No lado ocidental, distribuem-se amplamente no Leste da Rússia, Japão, Península da Coréia, China e ilhas-nações como as Filipinas, Indonésia, Nova Guiné, Austrália e Nova Zelândia.47

Essa fonte de energia soterrada é utilizada tanto para gerar calor como eletricidade. Quando utilizada para calor, água quente ou vapor, é caracteristicamente bombeada do subsolo, extraído o calor, e a água re-injetada de volta à terra. A eletricidade pode ser gerada da água quente bombeada do subsolo, do vapor extraído diretamente ou do vapor produzido pela circulação da água nas fissuras das rochas quentes sob a superfície. A energia geotérmica extraída diretamente pode ser utilizada para aquecimento espacial, como na Islândia, onde aque


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ce cerca de 85% dos prédios; para banhos quentes, em que as fontes trazem a energia para a superfície, como no Japão; e para a geração de eletricidade, como nos Estados Unidos.48

Seu primeiro aproveitamento para a geração de eletricidade ocorreu na Itália em 1904, sendo hoje utilizada em dezenas de países, embora, em muitos casos, seja utilizada principalmente para fornecer água quente a casas de banho. Durante as primeiras sete décadas do Século XX, o crescimento da capacidade geotérmica de geração de eletricidade foi modesto, atingindo apenas 1.100 megawatts em 1973. Entretanto, após os dois aumentos do preço do petróleo em 1973 e 1979, o uso dessa energia começou a crescer. Em 1998, havia octuplicado para 8.240 megawatts. (Vide Figura 5_4.)49

Os Estados Unidos, com mais de 2.800 megawatts de capacidade, são líderes mundiais na exploração dessa fonte energética. Mas, como parcela de geração nacional de eletricidade, outros países menores estão muito à frente. Enquanto os Estados Unidos obtêm apenas 1% de sua eletricidade da energia geotérmica, a Nicarágua obtém 28% e as Filipinas, 26%.50

A maioria dos países apenas começou a explorar sua riqueza geotérmica. Para os países ricos em energia geotérmica, como aqueles da Borda do Pacífico, nas costas do Mediterrâneo e ao longo da Grande Falha do Leste da África (Vale do Rift), o calor geotérmico é uma imensa fonte potencial de energia _ e uma que não perturba o clima da

Figura 5_4. Energia Geotérmica Mundial, 1950-1998


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Terra. No Japão, há uma abundância de energia geotérmica próxima à superfície, como atestam as milhares de spas de fontes termais por todo o país. Estima-se que o potencial de geração de eletricidade geotérmica no Japão possa atender 30% das necessidades nacionais. Alguns países são tão bem dotados que poderiam conduzir suas economias totalmente com a energia geotérmica.51

Numa época de preocupação crescente quanto à mudança climática, muitos países estão começando a explorar o potencial geotérmico. O Departamento de Energia dos Estados Unidos, por exemplo, anunciou em 2000 o lançamento de um programa para desenvolver os ricos recursos de energia geotérmica do Oeste. A meta é suprir 10% da eletricidade nessa região com energia geotérmica até 2020.52

Gás Natural: O Combustível da Transição

Ao longo do último meio século, o consumo de gás natural aumentou doze vezes. Na realidade, em 1999, o gás natural superou o carvão como fonte mundial de energia, ficando atrás só do petróleo. (Vide Figura 5-5.) Esse crescimento no uso do gás natural é auspicioso, pois à medida que esta fonte energética cresce, o sistema de armazenagem e distribuição _ seja gasodutos de longa distância ou redes urbanas de distribuição a residências individuais _ também se expande, abrindo caminho à futura mudança para uma economia de hidrogênio.53

Figura 5_5. Consumo Mundial de Combustíveis Fósseis, 1950-2000


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O gás natural poderá suplantar o petróleo como a principal fonte mundial de energia dentro dos próximos 20 anos, particularmente caso uma queda previsível na produção de petróleo ocorra nesta década, e não na próxima. O gás natural ganhou popularidade tanto por ser uma fonte de energia de queima limpa quanto por ser menos intensiva em carbono do que o petróleo ou o próprio carvão. Emite quase a metade do carbono do que o carvão por cada unidade de energia produzida. Contrariamente ao carvão e petróleo, que freqüentemente emitem dióxido de enxofre e óxidos nitrosos quando queimados, o gás queima limpo.54

É essa qualidade de queima limpa que agrada os governos como forma de reduzir a poluição atmosférica. Na China, por exemplo, a mudança do carvão para gás natural, tanto para uso industrial quanto residencial, está reduzindo a poluição atmosférica urbana, que nos últimos anos ceifou literalmente milhões de vidas. Como parte do seu planejamento a longo prazo, a China está implantando um novo gasoduto de campos descobertos no seu longínquo noroeste, para a cidade de Lanzhou, na Província de Gansu. O governo também aprovou a importação de gás natural e planeja construir um gasoduto ligando os campos de gás siberianos da Rússia às principais cidades industriais de Beijing e Tianjin.55

O potencial do gás natural para desempenhar um papel central na transição da era do combustível fóssil para a era solar e de hidrogênio não passou despercebido pelos líderes mais progressistas desta indústria. Por exemplo, Gasunie, a concessionária holandesa de gás natural, espera ter um papel de destaque nessa transição. Embora a Gasunie hoje transporte gás natural dos campos do Mar do Norte, através da Holanda , para outros países na Europa, a empresa pretende futuramente utilizar a energia eólica marinha para gerar eletricidade, convertendo-a em hidrogênio que, por sua vez, será levado através da rede atualmente utilizada para o gás natural.56

Nos Estados Unidos, a Enron, uma empresa texana de gás natural que nos últimos anos transformou-se numa corporação energética global, também tem uma noção exata da função que poderá desempenhar na transição para uma nova economia energética. Em anos recentes, adquiriu duas empresas de energia eólica, proporcionando-a a capacidade de explorar os imensos recursos eólicos do Texas. Essa abundância de vento para gerar eletricidade barata e produzir hidrogênio dá a Enron a opção de um dia introduzir o hidrogênio na mesma rede de


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distribuição dos gasodutos que hoje utiliza para distribuir o gás natural no Nordeste e Centro Oeste.57

O mesmo ocorre na China, onde o desenvolvimento de campos de gás natural no noroeste e os gasodutos utilizados para transportar o gás para o leste, para as cidades industriais do leste, poderão vir a ser utilizados para transportar o hidrogênio produzido com a riqueza eólica da região. (A instalação de turbinas eólicas juntamente com as tradicionais árvores quebra-ventos em áreas onde o solo é vulnerável à erosão eólica poderá também ajudar a controlar a erosão e as tempestades de areia que atravessam o país até Beijing e outros cidades.)

As empresas de gás natural estão bem posicionadas para liderar a construção da economia solar e de hidrogênio. Poderão um dia investir em geração de energia eólica em regiões remotas, ricas em vento, e então utilizar essa eletricidade para eletrolizar a água e produzir hidrogênio. Este, por sua vez, poderia ser exportado em forma líquida, da mesma forma que o gás natural é hoje comprimido em forma líquida para embarque em navios-tanque.

Alcançando a Economia do Hidrogênio

A transição de combustíveis fósseis para uma economia de energia solar e de hidrogênio pode ser percebida nas taxas de crescimento extremamente variadas entre as diversas fontes de energia. (Vide Tabela 5-2.) Durante os anos 90, a energia eólica cresceu a uma taxa fenomenal de 25% ao ano, expandindo-se de 1.930 megawatts em 1990 para 18.449 megawatts em 2000. Enquanto isso, as vendas de células solares aumen

Tabela 5_2. Tendências do Consumo de Energia, por Fonte, 1990-2000

Fonte Energética Taxa Anual de Crescimento

(porcentagem)


Energia Eólica

Células Solares

Energia Geotérmica

Energia Hidrelétrica

Gás Natural

Petróleo

Energia Nuclear

Carvão

25

20

4

2

2

1

0,8

_ 1


Fonte: Worldwatch Institute, Sinais Vitais 2001


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taram 20% ao ano, e a energia geotérmica cresceu 4% anuais. A hidroenergia, a quarta fonte de energia renovável, cresceu 2% ao ano.

Entre os combustíveis fósseis, foi o gás natural que cresceu com maior rapidez, a uma taxa de 2% ao ano, seguido pelo petróleo, com 1%. O uso do carvão caiu 1% ao ano, tendo a queda se iniciado após 1996. A energia nuclear continuou a crescer lentamente, numa média inferior a 1% ao ano durante a década.

As taxas de crescimento contrastantes entre as várias fontes energéticas foram ainda maiores em 2000 do que durante os anos 90. A capacidade de geração eólica aumentou 32%, e as vendas de células solares, 43%. A queima de carvão, o combustível fóssil que inaugurou a era industrial, caiu 4% em 2000; o gás natural aumentou 2%; e o petróleo, 1%. A energia nuclear teve uma expansão inferior a 1%. Esses dados para o ano mais recente _ com ganhos dramáticos na energia eólica e solar combinados ao declínio agudo do carvão _ indicam que a reestruturação da economia energética está ganhando ímpeto.58

O carvão é o primeiro combustível fóssil a atingir um pico e começar a cair. Após atingir uma alta histórica em 1996, a produção caiu 7% em 2000 devendo continuar a cair à medida que a mudança para o gás natural e renováveis ganha ímpeto. O consumo de carvão está caindo drasticamente tanto no Reino Unido _ onde a Revolução Industrial nasceu _ quanto na China, o maior consumidor mundial.59

A virada da energia nuclear não poderia ser mais dramática. Nos anos 80, a capacidade de geração nuclear expandiu-se 140%, contra 6% nos anos 90. Confrontada com custos de desativação de usinas que podem equivaler aos custos de construção original, a fonte energética que seria "barata demais para ser medida" é hoje muito cara para ser usada. Onde quer que mercados de eletricidade se abram à concorrência, a energia nuclear enfrenta dificuldades. Com várias usinas antigas programadas para fechar, seu uso mundial deverá atingir um pico e começar a declinar em poucos anos.60

A desativação de usinas nucleares já está em andamento ou programada para os próximos anos em muitos países, incluindo Bulgária, Alemanha, Casaquistão, Holanda, Rússia, República Eslovaca, Suécia e Estados Unidos. Em três países outrora firmemente comprometidos com essa fonte _ França, China e Japão _, a energia nuclear está perdendo sua atratividade. A França prorrogou sua moratória em novas usinas. A China declarou que não autorizará novas usinas nos próxi


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mos três anos. O programa, outrora ambicioso, do Japão enfrenta dificuldades. Um grave acidente em setembro de 1999, numa fábrica de combustível nuclear ao norte de Tóquio, aumentou o crescente temor público quanto à segurança nuclear no Japão.61

Enquanto isso, o uso de energia eólica e células solares avança aos saltos. O crescimento espetacular da eletricidade eólica é impulsionado pelos redução dos custos. Com as novas turbinas de desenho avançado, a eletricidade está sendo gerada a menos de 4 centavos de dólar por quilowatt-hora nos principais pontos eólicos _ contra 18 centavos, uma década atrás. Superávits de eletricidade eólica em contratos de longo prazo podem garantir o preço, algo que aqueles que dependem do petróleo ou gás natural não podem fazer. Com as adições anuais da capacidade eólica durante os anos 90 excedendo as da energia nuclear, a tocha está sendo passada para uma nova geração de tecnologias energéticas.62

Contrastando com a velha economia energética, em que um punhado de países controla a oferta, as novas fontes de energia estão amplamente dispersas. A oportunidade econômica para as nações em desenvolvimento desenvolverem suas fontes indígenas de energia pressagia um forte incremento para seu desenvolvimento global. Novas coalizões estão surgindo em apoio às novas fontes energéticas, como já ocorre entre grupos ambientais e agrícolas nos Estados Unidos que apóiam o desenvolvimento da energia eólica.

O vento, porém, não apenas satisfaz a demanda local por eletricidade. Como observado anteriormente, a eletricidade barata gerada do vento pode ser utilizada para eletrolizar a água, produzindo hidrogênio. À noite, quando a demanda cai, a eletricidade de fazendas eólicas pode ser utilizada para mover geradores de hidrogênio que produzirão combustível para automóveis, caminhões e tratores.

Com os primeiros automóveis com motores movidos a célula de combustível esperados no mercado em 2003, e com o hidrogênio como o combustível preferido desses novos motores, abre-se um gigantesco mercado novo. Como já mencionado, a Royal Dutch Shell já está abrindo postos de hidrogênio na Europa. William Ford, o jovem Presidente do Conselho da Ford Motor Company, declarou que espera presidir ao funeral do motor de combustão interna.63

Os benefícios econômicos do desenvolvimento de fontes renováveis locais de energia de baixo custo são óbvios. Por exemplo, numa comuni


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dade que obtém sua eletricidade da energia eólica, o dinheiro gasto com eletricidade permanece em grande parte na região. O desenvolvimento de recursos eólicos, assim, ajudará as comunidades rurais em muitos países, proporcionando uma fonte complementar de renda e emprego.

À medida que a economia energética mundial for reestruturada, o restante da economia também mudará. A geografia da atividade econômica será alterada, em alguns casos dramaticamente. A implantação tradicional da indústria pesada, como a siderurgia, em áreas próximas a fontes de carvão e minério de ferro não será mais necessária. No futuro, indústrias intensivas em energia estarão localizadas em regiões ricas em vento e não em carvão. Nações outrora importadoras de energia poderão se tornar auto-suficientes e até exportar eletricidade ou hidrogênio.

Uma das características da nova economia energética é sua dependência muito maior de fontes de energia em pequena escala e descentralizadas, ao invés de poucos sistemas de grande porte centralizados. Sistemas de pequeno porte, projetados para atender às necessidades de residências individuais, fábricas ou prédios comerciais, se tornarão mais comuns. No lugar de poucas fontes energéticas, altamente concentradas, o mundo se voltará para uma imensa quantidade de pequenas fontes individuais de energia. Células solares a hidrogênio e turbinas a gás de ciclo combinado, altamente eficientes, movidas a gás natural ou hidrogênio, serão comuns. As células solares poderão ser utilizadas para gerar eletricidade para prédios comerciais, fábricas ou lares individuais, ou para mover automóveis.

Na eco-economia, o hidrogênio será o combustível predominante, substituindo o petróleo da mesma forma que este substituiu o carvão que, por sua vez, substituiu a madeira. Uma vez que o hidrogênio pode ser armazenado e utilizado à medida que for necessário, proporciona o apoio perfeito a uma economia que tem como pilares a energia eólica e solar. Se essa fonte de energia, livre de poluição e isenta de carbono, puder ser desenvolvida mais cedo, muitos dos nossos problemas atuais relacionados à energia poderão ser resolvidos. Juntos, eletricidade e hidrogênio poderão proporcionar energia em todas as formas necessárias para operar uma economia moderna, seja operando computadores, alimentando automóveis ou fabricando aço.

A priori, um sistema energético como esse pode parecer improvável. Porém, duas décadas atrás, a idéia de um micro-computador, laptop


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e Internet parecia igualmente fantástica. Como observa Seth Dunn, do Worldwatch Institute, o que é mais inconcebível é que uma economia da era da informática seja movida por um sistema energético primitivo, da era industrial. À medida que tomadores de decisão corporativos e governamentais perceberem a necessidade de reestruturar a economia energética, e quão econômico e prático pode ser um sistema energético de emissões zero, livre de carbono, então poderão finalmente dedicar o tipo de esforço que sustentou a última grande transição energética _ da madeira para combustíveis fósseis um século atrás.64

Se o objetivo é expandir a geração de eletricidade eólica com a rapidez necessária para acelerar a desativação gradual do carvão, significará um crescimento extraordinariamente veloz da energia eólica. Tal crescimento é possível? Sim. O crescimento da Internet é o modelo. Entre 1985 e 1995, a quantidade de computadores "host" na Internet mais que duplicaram ano após ano. Em 1985, havia 2.300 "hosts" na Internet. Já em 1995, totalizavam 14.352.000.65

Um cálculo superficial mostra que tipo de crescimento seria necessário para que o vento se tornasse a base da economia energética global e quanto custaria. O que aconteceria caso a geração de eletricidade eólica dobrasse a cada ano, durante os próximos 10 anos, como ocorreu com a Internet? Consideremos, para fins de cálculo, que em 2000 o mundo dispusesse de 20.000 megawatts de eletricidade eólica e que em 2001 fosse o dobro, ou 40.000 megawatts, e assim por diante. Nesse ritmo, em 2005 seriam 640.000 megawatts _ quase o suficiente para atender toda a demanda de eletricidade dos Estados Unidos. Em 2010, chegaria a 20,4 milhões de megawatts de capacidade de geração eólica, muito além dos 3,2 milhões de megawatts da capacidade geradora mundial ou da projeção dos cerca de 4 milhões de megawatts de capacidade necessária para 2010. Isso não apenas satisfaria as necessidades mundiais de eletricidade, mas também atenderia outras necessidades energéticas _ inclusive as dos transportes e da indústria pesada e consumo residencial.66

Quanto custaria? Considerando generosamente que seriam necessários investimentos da ordem de US$ 1 milhão de dólares por megawatt de eletricidade, 10 milhões de megawatts de capacidade de energia eólica exigiriam um investimento de US$ 10 trilhões, ao longo dos próximos 10 anos. Isso significaria, aproximadamente, US$ 1 trilhão ao ano _ ou o dobro do que o mundo gastou em petróleo em 2000, ou


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apenas 2,5% do produto mundial bruto de US$ 40 trilhões. Outro referencial financeiro que, de certa forma, é mais pertinente é o gasto anual de US$ 700 bilhões por parte dos governos mundiais em atividades ambientalmente destrutivas como mineração de carvão, capacidade pesqueira excessiva e extração predatória de aqüíferos. (Vide Capítulo 11.) O deslocamento desses subsídios para investimentos em desenvolvimento eólico aceleraria a evolução de uma eco-economia simultaneamente em várias frentes. Esse cálculo ilustra simplesmente que, se o mundo deseja agir rapidamente para eliminar as emissões excessivas de carbono, pode fazê-lo.67

A transição de uma economia baseada no combustível fóssil ou carbono para outra baseada no hidrogênio e de alta eficiência proporcionará oportunidades gigantescas de investimento e emprego mundialmente. A questão não é se haverá uma revolução energética. Ela já está em andamento. As únicas questões são com que rapidez se desenvolverá, se será rápida o suficiente para evitar o descontrole da mudança climática e quem se beneficiará mais com a transição.

Realisticamente, com que rapidez a geração eólica poderia expandir-se durante esta década? Durante os anos 90, cresceu 25% ao ano, com apenas meia-dúzia de países responsáveis pela maior parte do crescimento. Caso todos os países com locais comercialmente viáveis começassem a desenvolver seus recursos eólicos, com que rapidez se expandiriam? Poderiam dobrar a cada ano? Isso seria difícil, exigindo uma mobilização semelhante àquela da II Guerra Mundial. Poderia duplicar durante uns poucos anos no início da década, enquanto a base fosse ainda pequena, mas depois o ritmo de expansão desaceleraria. A rapidez com que o mundo desenvolverá os recursos eólicos dependerá, em parte, da rapidez com que o clima venha a mudar e de quão alarmados ficaremos com ondas recordes de calor, degelo acelerado e tempestades mais destrutivas. Embora não seja possível prever a taxa de crescimento futuro, podemos seguramente considerar que o mundo poderá estar obtendo grande parte da sua eletricidade do vento em 2010, caso se torne importante fazê-lo.68

Em seu Worldwatch Paper, Hydrogen Futures, Seth Dunn cita o Presidente John F. Kennedy: "Há riscos e custos num programa de ação. Mas são muito menores do que os riscos e custos de longo prazo de uma inação confortável." Dunn prossegue para estabelecer um paralelo entre as observações de Kennedy durante a guerra fria e a atual


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transição energética. "Há riscos e custos envolvidos na criação rápida de uma economia do hidrogênio, mas são muito menores do que os riscos e custos de longo prazo de se permanecer confortavelmente comprometido com a economia do hidrocarbono."69

A chave para acelerar a transição para uma economia do hidrogênio é fazer com que o mercado incorpore os custos ecológicos aos preços. The Economist argumenta que há necessidade de se dar um tratamento igual e deixar o mercado agir: "Isso significa, por exemplo, acabar com os muitos subsídios que sustentam o carvão e outros combustíveis fósseis. Também significa introduzir um imposto de carbono, ou mecanismo idêntico, para assegurar que os preços dos combustíveis fósseis reflitam o dano que causam à saúde humana e ao meio ambiente." Mais e mais analistas estão chegando à mesma conclusão. Um estudo recente da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico também defende uma reforma fiscal a fim de reduzir as emissões de carbono. A introdução gradativa de um imposto de carbono para que a queima de combustíveis fósseis reflita seu custo pleno à sociedade aceleraria a transição para a energia eólica, células solares e energia geotérmica, desenvolvendo-as bem mais rapidamente durante esta década do que durante a década passada.70


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Projeto para uma Nova Economia de Materiais

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Projeto para uma

Nova Economia de Materiais

Em março de 2001, o aterro sanitário de Fresh Kills, destinação final da produção diária de 12.000 toneladas de lixo da Cidade de Nova York, foi definitivamente desativado. Hoje, o lixo é levado para locais distantes em Nova Jersey, Pensilvânia e Virgínia _ alguns deles a mais de 480 quilômetros de distância. Considerando uma carga de 20 toneladas de lixo para cada um dos caminhões reboques utilizados para transporte a longa distância, cerca de 600 unidades são necessárias para a remoção diária do lixo de Nova York. Esses reboques formam um comboio de quase 15 quilômetros de extensão, congestionando o trânsito, poluindo o ar e elevando as emissões de carbono. Esse comboio diário de caminhões saindo da cidade levou o Vice-Prefeito Joseph J. Lhota, que supervisionou a desativação de Fresh Kills, a declarar que a eliminação do lixo da cidade "se assemelha a uma operação militar contínua."1

O que está acontecendo em Nova York ocorrerá em outras cidades, caso também deixem de adotar programas abrangentes de reciclagem. Em vez de concentrar os esforços na redução do lixo gerado enquanto Fresh Kills se enchia, a decisão foi simplesmente levá-lo para outro lugar. Mesmo uma medida simples, como a reciclagem de todo o pa


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pel, poderia reduzir o comboio diário em 187 caminhões, ou 4,5 quilômetros.2

Comunidades locais em outros estados, carentes de recursos, se prontificam a aceitar o lixo de Nova York _ se forem bem remuneradas. Alguns o consideram uma benesse. Entretanto, para os governos estaduais que têm que lidar com congestionamentos de trânsito, ruído, aumento da poluição atmosférica e reclamações de cidades vizinhas, esse esquema não é muito atraente. O Governador de Virginia protestou ao Prefeito Rudy Giuliani contra o uso do estado como depósito de lixo. "Compreendo o problema que Nova York enfrenta," observou ele. "Mas o estado natal de Washington, Jefferson e Madison não tem a menor intenção de se tornar o lixão de Nova York." Resta ver se, a longo prazo, Nova York poderá continuar a despejar seu lixo em outros estados.3

Os períodos antigos da história da humanidade foram marcados pelos materiais que destacaram a era _ a Idade da Pedra e do Bronze, por exemplo. Nossa era é simplesmente a Idade dos Materiais, uma era de excessos cujo destaque não é o uso de qualquer material específico, e sim o gigantesco volume de materiais consumidos.

Mundialmente, processamos ou consumimos 26 bilhões de toneladas de materiais a cada ano, incluindo 20 bilhões de toneladas de pedra, cascalho e areia utilizados na construção de estradas e edificações; mais de 1 bilhão de toneladas de minério de ferro na siderurgia; e 700 milhões de toneladas de minério de ouro para a extração desse metal. Das florestas, retiramos 1,7 bilhão de toneladas de madeira para combustível, cerca de 1 bilhão de toneladas para produtos de madeira, e um pouco mais de 300 milhões de toneladas para papel. A fim de obter fósforo e potássio para reconstituir os nutrientes que nossas culturas removem do solo, extraímos anualmente 139 milhões de toneladas de rocha fosfatada e 26 milhões de toneladas de potassa.4

Cada um dos 6,1 bilhões de habitantes do planeta utiliza em média 137 quilos de aço anualmente, em automóveis, eletrodomésticos, prédios e outros produtos. Isso significa que cada um de nós consome quase o dobro do nosso peso em aço a cada ano. A produção dessa quantidade de aço significa processar mais de 340 quilos de minério de ferro por pessoa.5

A escala da economia de materiais é muito maior do que poderíamos imaginar, simplesmente porque entramos em contato apenas com


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o produto final _ vemos, por exemplo, o aço em nosso carro ou refrigerador, mas não as toneladas do minério de onde foi extraído, ou vemos o papel no nosso jornal e papelaria, mas não a pilha de toras de onde foi processado.

A produção de alguns artigos aparentemente inócuos, como jóias de ouro, pode ser incrivelmente destrutiva. Por exemplo, os anéis de ouro trocados em casamentos requerem o processamento de toneladas de minério, muito provavelmente através do processo de cianetação. O pesquisador do Worldwatch, John Young, calculou que, para criar um par de alianças de ouro, o minério processado equivale a um buraco no chão com 3 metros de extensão, 1,8 m de largura e 1,8 m de profundidade. Felizmente para os noivos, esse buraco fica em quintal alheio, como também o cianeto utilizado para separar o ouro do minério.6

Todas os números citados acima são médias globais, porém o uso de materiais _ como da energia e dos alimentos _ varia muito entre as sociedades. Por exemplo, a produção per capita de aço nos Estados Unidos totaliza 352 quilos anuais; na China, 98 quilos e na Índia, apenas 24 quilos.7

O processamento de imensas quantidades de minério para produzir metais está poluindo ar e água locais. O uso de energia, a perturbação física do solo e a poluição associada ao processamento de quantidades crescentes de minério estão se tornando cada vez menos aceitáveis.

O porte gigantesco da economia de materiais não é apenas fisicamente perturbador, mas também consome quantidades imensas de energia. Nos Estados Unidos, só o setor siderúrgico consome a mesma eletricidade das 90 milhões de residências do país.8

Construir uma eco-economia depende da reestruturação da economia de materiais porque _ da mesma forma que a economia energética _ se conflita com o ecossistema da Terra. O arquiteto William McDonough e o químico Michael Braungart falam sobre isso. Eles descrevem uma economia mais regenerativa do que destrutiva, uma cujos produtos "agem dentro de ciclos de vida berço-a-berço, ao invés de berço-a-túmulo." De fato, esse replanejamento significa substituir o modelo linear atual, de fluxo direto, por um modelo circular que imite a natureza, fechando o ciclo. Significa substituir a indústria de mineração por indústrias de reciclagem, um passo que viabilizará uma economia industrial adulta com uma população estável, vivendo basicamente dos materiais já em uso.9


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Produtos Descartáveis

Dois conceitos que surgiram em meados do Século XX determinaram o desenvolvimento da economia global _ obsolescência programada e produtos descartáveis. Ambos foram adotados entusiasticamente nos Estados Unidos, após a II Guerra Mundial, como forma de promover crescimento econômico e emprego. Quanto mais rápido os produtos deteriorassem, mais cedo seriam descartados e mais rápido a economia cresceria.

Para inúmeros bens de consumo, mudanças anuais de desenho se tornaram a chave para estimular vendas. Nos automóveis, os modelos mudavam a cada ano. O lançamento de novos modelos, um evento de destaque nos calendários econômicos dos principais países industrializados, automaticamente desvalorizava o valor do modelo do ano anterior. As mudanças destinavam-se não tanto para melhoria de desempenho como para vender mais veículos.

Uma situação semelhante ocorre com o vestuário, especialmente feminino. Em shows anuais, desfila a última moda. As mudanças no vestuário feminino envolvem elevar ou baixar as saias, ou realçar cores ou tecidos em qualquer ano determinado. Para muitas pessoas, a auto-estima significa usar roupas que estejam "na moda."

A economia do descarte evoluiu durante a ultima metade do Século XX. O descarte de produtos, facilitado pelo apelo da conveniência e o custo artificialmente baixo da energia é responsável pelo grosso do lixo que produzimos diariamente e por uma parcela ainda maior dos materiais que acabam em aterros.

É fácil esquecer quantos produtos descartáveis existem até que comecemos efetivamente a listá-los. Substituímos lenços, toalhas de mão e guardanapos de pano pelos de papel, e as garrafas de vidro, reutilizáveis, por latas e garrafas plásticas. Como o último dos insultos, talvez os próprios sacos de compras que são utilizados para transportar os produtos descartáveis são, eles próprios, descartáveis, somando-se ao fluxo do lixo. (A pergunta no caixa do supermercado, "Papel ou plástico?" deveria ser substituída por: "Trouxe sua sacola?")

A GrassRoots Recycling Network, dos Estados Unidos, calculou a "taxa de descarte" dos produtos _, ou seja, a parcela que é descartada contra a que é reciclada ou reutilizada. (Vide Tabela 6_1.) Obviamente, os produtos descartáveis atingem maior pontuação. Por definição, a taxa de descarte de fraldas descartáveis é 100%, como lenços, pratos e


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Tabela 6_1. Taxa de Descarte e Quantidades de Artigos

Comumente Descartados nos Estados Unidos, 1997

Produto Taxa de Descarte Quantidade

(percentual descartado) (milhões de toneladas)


Fraldas descartáveis

Lenços, pratos, copos descartáveis

Vestuário, calçados

Pneus

Revistas

Papel de escritório

Eletrodomésticos

Papel para jornal

Latas de alumínio

Latas de aço

100

100

87

77

77

49

48

45

42

40

3,1

4,9

5,0

3,3

1,7

3,5

2,1

6,1

0,7

1,1


Fonte: Agência de Proteção Ambiental dos EUA, "Characterization of Municipal Solid Waste in the United States: 1998 Update," conforme divulgado pela GrassRoots Recycling Network (Atenas, Geórgia).

copos de papel. Embora os americanos tenham se destacado na reciclagem de jornais ao longo da última década, 45% de todo o papel-jornal ainda é descartado, ao invés de reciclado. Jogar fora jornal é uma forma de transformar florestas em lixões.

O advento dos pratos e copos de papel descartáveis, mais os talheres plásticos, coincidiram com o surgimento da indústria de "fast food." O crescimento extraordinário desse setor ajudou a assegurar o crescimento no consumo de pratos, copos e utensílios descartáveis. Esses e outros descartáveis são constantemente levados por caminhões de lixo para aterros sanitários numa viagem só de ida pela economia.

Mesmo enquanto lida com produtos tradicionais descartáveis, o mundo hoje se vê frente a um novo desafio de descarte com os micro computadores. Embora não sejam obsoletos por desígnio, o ritmo de inovações da indústria rapidamente os tornam como tais, proporcionando ao computador comum uma expectativa de vida inferior a dois anos. Contrariamente aos refrigeradores, que são relativamente fáceis de reciclar, os computadores contêm um gama diversificada de mate


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riais, muitos dos quais tóxicos, incluindo chumbo, mercúrio e cádmio, tornando-os difíceis de reciclar. Isto ajuda a explicar porque só 11% dos computadores são reciclados, em comparação a 70% dos refrigeradores.10

Um estudo realizado pela Silicon Valley Toxics Coalition calculou que, entre 1997 e 2004, cerca de 315 milhões de computadores se tornaram obsoletos, só nos Estados Unidos. Com cada computador contendo quase 2 quilos de chumbo, os Estados Unidos enfrentam o problema de lidar com meio bilhão de quilos de chumbo. Embora o mundo tenha sido bem sucedido em retirá-lo da tinta e da gasolina, o chumbo ainda é largamente utilizado em computadores. Uma vez no lixão, o chumbo pode infiltrar-se em aqüíferos e contaminar os mananciais de água potável. Esses mesmos computadores contêm cerca de 180.000 quilos de mercúrio e 907.000 quilos de cádmio.11

Os Materiais e o Meio Ambiente

Os materiais utilizados em nossa economia moderna se encaixam em três categorias. A primeira é metais, incluindo aço, alumínio, cobre, zinco e chumbo. A segunda, minerais não-metálicos, como pedra, areia, cascalho, pedra calcária e argila _ materiais utilizados diretamente na construção de rodovias, estradas e edificações ou na fabricação de concreto. Este grupo também inclui três minerais _ fosfato, potassa e cal _ utilizados na agricultura para aumentar a fertilidade do solo. (Vide Tabela 6_2.) O grupo final de materiais inclui aqueles de origem orgânica, como madeira do setor florestal e algodão, lã e couro da agropecuária.12

Na categoria não-metálica, a pedra, com 11 bilhões de toneladas produzidas anualmente, e areia e cascalho, com 9 bilhões de toneladas anuais, dominam totalmente os outros minerais. Mas pedra, areia e cascalho geralmente estão disponíveis localmente e não envolvem transporte a longa distância. Utilizados principalmente na construção de estradas, estacionamentos e edificações, esses materiais são quimicamente inertes. Logo que a pedra ou o cascalho estejam aplicados no leito de uma rodovia, podem durar por gerações ou mesmo séculos.13

Este capítulo enfoca os metais porque sua extração e processamento são tão ambientalmente destrutivos como intensivos no consumo de energia. Sua produção consome quantidades infindáveis de energia para remover a terra e alcançar o minério, extraí-lo, transportá-lo para a


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Tabela 6_2. Produção Mundial de Minerais Não-Metálicos

Mineral Produção

(milhões de toneladas)


Pedra

Areia e cascalho

Argila

Sal

Rocha fosfatada

Cal

Gesso

Barrilha

Potassa

11,000

9,000

500

210

139

117

110

31

26


Fonte: Vide nota final 12.

fundição e então processá-lo para obtenção de um metal puro. Ademais, grande parte dessa energia vem do carvão, que também precisa ser extraído. Ao longo do tempo, à medida que os minérios de alta qualidade se exauriam, os mineiros se deslocaram para os de baixa qualidade, causando progressivamente mais dano ambiental com cada tonelada de metal produzida.14

Desde o início da Era Industrial, a produção de aço tem sido um indicador básico de industrialização e avanço econômico. No final do Século XX, a União Soviética era o gigante internacional do aço. Entretanto, no início dos anos 90, o colapso na produção do aço soviético acompanhou o colapso do regime soviético. Atualmente, a China é líder mundial na produção de aço, seguida dos Estados Unidos e Japão. Quantitativamente, as 833 milhões de toneladas de aço bruto produzido anualmente (vide Figura 6_1) supera o uso de todos os outros metais juntos. É comparável a 24 milhões de toneladas de alumínio e 13 milhões de toneladas de cobre, segundo e terceiro respectivamente no ranking dos metais. Embora o aço consista predominantemente de ferro, é uma liga, e muitas das suas características atraentes vêm da adição de pequenas quantidades de outros metais, como zinco, magnésio e níquel.15

A produção per capita mundial de aço atingiu seu pico histórico em 1979, tendo caído 20% desde então. O declínio reflete a mudança para carros menores, o colapso parcial da antiga economia soviética e uma mudança no crescimento de economias industriais avançadas da indústria pesada para serviços, especialmente serviços de informação.16


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Figura 6_1. Produção Mundial de Aço, 1950-2000

Anualmente, 1,4 bilhão de toneladas de minério é extraído mundialmente para a produção de aço destinado principalmente a automóveis, eletrodomésticos e ao setor de construção. Uma quantidade equivalente de minério é extraída para produzir 13 milhões de toneladas de cobre. Numa era quando a mineração a céu aberto substituiu a mineração subterrânea, vastas áreas são fisicamente desfiguradas. Os refugos da mina ficam para trás _ freqüentemente prejudicando a vazão de córregos vizinhos e contaminando os mananciais. Qualquer coisa que reduza o uso de aço, particularmente aquele produzido do minério virgem, aliviará sensivelmente a pegada humana na terra.17

Embora a produção de alumínio seja muito pequena em comparação ao aço, as 24 milhões de toneladas produzidas anualmente minimizam em muito o papel do alumínio devido à sua baixa densidade e peso leve. A Austrália produz um terço da bauxita mundial, o minério do alumínio, com Guiné, Jamaica e Brasil também contribuindo significativamente para a produção mundial.18

Nos Estados Unidos, mais da metade de todo o alumínio é absorvido pelas indústrias de embalagem e transporte de alimentos. Para bebidas, podem ser utilizados materiais alternativos como o vidro. Entretanto, aeronaves, automóveis e bicicletas são hoje altamente dependentes do alumínio.19

Grande parte dos estoques mundiais de alumínio, com sua leveza e resistência, é aplicada na frota de aviões comerciais. Seja que momento


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for, haverá uma fração significativa do alumínio mundial em vôo. Com as viagens aéreas crescendo a uma taxa de 6% ao ano, os investimentos de alumínio em aeronaves também está aumentando.20

Embora o uso do alumínio em aeronaves já esteja consolidado, sua substituição do aço nos automóveis é mais recente, provocada pelo aumento nos preços dos combustíveis e o desejo por melhor quilometragem da gasolina. A aplicação do alumínio no carro médio americano, por exemplo, aumentou de 87 quilos em 1991 para 110 quilos no final da década. Embora o custo do alumínio seja muito maior do que o aço, seu menor peso reduz o consumo de combustível, o que, durante a vida útil do veículo, mais que compensa a energia adicional utilizada na sua produção.21

A produção de alumínio também representa um pesado ônus ambiental, tanto na mineração quanto na fundição. Devido à sua ocorrência característica em finas camadas de minério de bauxita, sua extração em minas a céu aberto agride a paisagem. Para cada tonelada de alumínio produzida, sobra uma tonelada de "lama vermelha" _ uma mistura cáustica de produtos químicos _ após a extração da bauxita. Essa sujeira vermelha permanece sem tratamento em grandes lagoas biologicamente mortas, vindo a poluir tanto os mananciais superficiais quanto os subterrâneos.22

Porém, grande parte do dano causado pela produção de alumínio vem da geração de eletricidade para a fundição. Mundialmente, a indústria de alumínio consome a mesma quantidade de energia que todo o continente africano. Em alguns casos, a eletricidade para a fundição de alumínio vem de usinas a carvão, mas freqüentemente de hidrelétricas. Dezenas de barragens foram construídas, particularmente em regiões remotas, para gerarem eletricidade barata para a indústria do alumínio. Governos, ávidos para construir indústrias em seus países concorrem entre si pela fundição de alumínio subsidiando o custo da eletricidade. Conseqüentemente, o alumínio representa uma das matérias-primas mundiais mais subsidiadas.23

Entre os metais, o ouro se destaca por dois motivos _ sua produção diminuta e perturbação ambiental gigantesca. Em 1991, a produção de apenas 2.445 toneladas de ouro exigiu a remoção e processamento de mais de 741 milhões de toneladas de minério _ uma massa equivalente a quase dois terços do minério utilizado na produção de 571 milhões de toneladas de ferro naquele ano. (Vide Tabela 6_3.) O maior produ


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Tabela 6_3 Produção de Metais e Minério Extraído para Cada Metal, 1991


Metal Produção Minério Extraído Minério Extraído (em toneladas) p/tonelada de Metal Produzido

Ferro

Cobre

Ouro

Zinco

Chumbo

Alumínio

Manganês

Níquel

Estanho

Tungstênio

571.000.000

12.900.000

2.445

8.000.000

2.980.000

23.900.000

7.450.000

1.230.000

200.000

31.500

1,428,000,000

1,418,000,000

741,000,000

1,600,000,000

119,000,000

104,000,000

25,000,000

49,000,000

20,000,000

13,000,000

3

110

303,000

200

40

4

3

40

100

400


Fonte: U.S. Geological Survey; John E. Young, Mining the Earth (Washington, DC: Worldwatch Institute, julho 1992); W.K. Fletcher, Departamento de Ciências Terrestres e Oceânicas, Universida da Colúmbia Britânica

tor de ouro é a África do Sul. Outros produtores incluem Austrália, Brasil, Rússia e Estados Unidos. 85% do ouro extraído destina-se ao setor joalheiro. 24

A partir do Século XIX, o ouro foi utilizado como lastro do papel-moeda. Conseqüentemente, grande parte do ouro mundial está guardado nos cofres de bancos federais. Porém, quando os Estados Unidos se retiraram do padrão ouro em 1971, muitos países acompanharam-nos e alguns, desde então, têm vendido seu ouro, incluindo Austrália, o Banco da Inglaterra, Holanda e o Banco Nacional Suíço. Assim, o ouro deixou de representar o barômetro final do valor do papel-moeda para se transformar em mais outra commodity. The Economist observa que o ouro "é o combustível queimado de um sistema monetário obsoleto."25

Em termos de danos por tonelada de metal produzido, nada se aproxima do ouro. Cada tonelada de ouro requer o processamento de aproximadamente 300.000 toneladas de minério _ o equivalente a uma pequena montanha. Ao longo da última década, foi desenvolvido um novo processo de cianetação do ouro. Lixivia-se uma solução de cianeto por um montão de minério triturado, retirando os pedaços de ouro que passam. Isso reduz o custo da mineração, porém deixa para trás resíduos tóxicos. O cianeto é tão tóxico que a ingestão de uma colher de chá de 2% de solução de cianeto causa a morte em 40 segundos.26


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Em janeiro de 2000, um derramamento gigantesco de 130 milhões de litros de solução de cianeto escorreu de uma mina de ouro na Romênia para o Rio Tisza, fluiu através da Hungria em direção à Iugoslávia, misturou-se ao Danúbio e desaguou no Mar Negro. A solução letal da mina sob controle australiano deixou em seu rastro cerca de 1 milhão de quilos de peixes morto apenas no segmento húngaro. Esse despejo de cianeto, que deixou sem vida trechos extensos do rio, foi considerada o pior desastre ambiental da Europa desde Chernobyl.27

Derramamentos de cianeto têm ocorrido em muitos países. Em 1992, um incidente semelhante no Rio Alamosa, afluente do Rio Colorado, nos Estados Unidos, matou tudo que existia num trecho de 27 quilômetros e deixou para o Estado uma conta de limpeza de US$ 170 milhões, depois que a empresa responsável faliu.28

Outra tecnologia comum na mineração utiliza mercúrio para extrair ouro do minério. O mercúrio se acumula no meio-ambiente, concentrando-se à medida que se desloca na cadeia alimentar. Foram os despejos de mercúrio na Baía de Minamata, no Japão, há uma geração, que demonstraram os danos cerebrais e defeitos congênitos que esse metal pesado pode causar.29

Na Amazônia, garimpeiros de ouro despejam quase 100.000 quilos de mercúrio anualmente no ecossistema, informa John Young. Embora os níveis de mercúrio nos peixes do Amazonas freqüentemente excedam os níveis de segurança para o consumo humano, a população local não dispõe de outra fonte de proteínas. Uma colher de chá de mercúrio num lago de 10 hectares pode tornar os peixes nocivos para consumo humano. Não se sabe quando os efeitos da absorção do mercúrio começarão a se manifestar na Amazônia sob a forma de dano cerebral e defeitos congênitos, mas sabemos que eles surgiram inicialmente em bebês japoneses cerca de uma década após as fábricas de fertilizantes terem iniciado o despejo de mercúrio na Baía de Minamata.30

Além da descarga de cianeto e mercúrio, altamente tóxicos, no ecossistema, a mineração de ouro também é uma atividade fisicamente perigosa. Na África do Sul, onde a maior parte do ouro é extraída do subsolo, mortes nas minas são rotineiras, ceifando uma vida por cada tonelada de ouro produzido.31

O ouro não é o único metal que prejudica o Planeta. A extração de outros metais, como cobre, chumbo e zinco, também desfiguram a


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paisagem e poluem o meio ambiente. A redução dessa destruição do meio ambiente natural e da poluição do ar, água e solo dependerão de um projeto para uma nova economia de materiais, em que indústrias de mineração sejam, em grande parte, substituídas por indústrias de reciclagem.

O Ônus Tóxico da Terra

Não se sabe exatamente quantos produtos químicos são fabricados hoje, mas, após o advento dos produtos químicos sintéticos, cuja maioria é de natureza orgânica, o número de produtos em uso ultrapassa 100.000. Um exame de sangue aleatório nos americanos facilmente revelará quantidades mensuráveis de, no mínimo, 200 produtos químicos que não existiam um século atrás.32

Vários desses produtos são altamente persistentes e encontrados em regiões remotas do planeta, longe de suas origens. Pesquisas recentes, realizadas no Instituto Polar da Noruega, revelaram que os ursos polares que habitam o Círculo Ártico apresentam altas concentrações de poluentes orgânicos persistentes (POPs) na gordura. Uma das conseqüências do acúmulo de POPs, alguns dos quais são disruptores endócrinos, é que 1,5% de todas as fêmeas tem órgãos sexuais deformados.33

A toxicidade da maioria desses produtos químicos ainda não foi analisada. Aqueles comprovadamente tóxicos estão incluídos numa relação de 644 produtos, cuja descarga no meio ambiente pela indústria deve ser informada à Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA). A publicação anual do Inventário de Descargas Tóxicas (TRI) da EPA divulga alguns dos produtos químicos mais perigosos liberados na atmosfera ou na água, ou simplesmente enterrados. Embora esses dados detalhados dos Estados Unidos, compilados de relatórios apresentados por empresas industriais, de mineração e de energia não sejam complementados por dados de outros países, dão, entretanto, uma idéia da situação global.34

Em 1999, cerca de 3,5 bilhões de toneladas de produtos químicos tóxicos _ 12,5 quilos por pessoa _ foram liberados no meio ambiente americano. A extração de metais foi responsável por 1,8 bilhão de quilos, e as usinas elétricas, 545 milhões. A indústria de metais primários, que refina metais e fabrica produtos metálicos, de chapas de aço até fios de cobre a latas de alumínio, liberou 295 milhões de quilos de


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produtos tóxicos. Compostos contendo cobre, zinco e arsênico representaram quase três quartos de todos os produtos tóxicos liberados por essas indústrias. A indústria química vem logo em seguida, com 305 milhões. A indústria de papel, em terceiro, com 103 milhões de quilos de produtos tóxicos liberados.35

No setor de geração de energia, o ácido clorídrico e o ácido sulfúrico figuravam entre os principais produtos tóxicos liberados. Isso não inclui as emissões de dióxido de enxofre e os vários óxidos nitrosos que interagem com a umidade atmosférica para formar o ácido sulfúrico e nítrico que atacam o sistema respiratório e geram a chuva ácida. Enquanto os garimpeiros despejam quase 100.000 quilos de mercúrio no ecossistema amazônico anualmente, usinas elétricas a carvão liberam cerca de 45.000 quilos de mercúrio na atmosfera nos Estados Unidos. A EPA informa que "o mercúrio das usinas deposita-se nos cursos d'água, poluindo rios e lagos e contaminando os peixes." Os riscos à saúde humana e particularmente os danos pré-natais ao desenvolvimento do sistema nervoso motivaram restrições ao consumo de peixe em cerca de 50.000 lagos, rios e lagoas nos Estados Unidos. Os 16.000 quilos de mercúrio depositados por usinas elétricas a carvão na Nova Inglaterra anualmente levaram os seis estados da região a alertar crianças e mulheres grávidas a limitarem seu consumo de peixes de água doce. Um relatório da Academia Nacional de Ciências, abrangendo todo o país, revela que 60.000 bebês poderão sofrer danos neurológicos causados pela exposição ao mercúrio antes do parto.36

O Inventário de Descargas Tóxicas (TRI), hoje disponível na Internet, também dá informações em nível comunitário, aparelhando grupos locais com dados necessários para avaliarem as ameaças potenciais à sua saúde e ao meio ambiente. Desde o lançamento do TRI em 1988, as emissões de produtos químicos tóxicos vêm mostrando uma queda constante.37

Infelizmente, poucos países instituíram procedimentos como esse, de divulgação abrangente. E o sistema americano ainda tem brechas, como no caso dos pesticidas que são despejados no meio ambiente por agricultores, jardineiros e administradores de campos de golfe.

Alguns produtos químicos que são utilizados em grandes quantidades também são letais em volume pequeno. Por exemplo, uma colher de chá de arsênico causa a morte em menos de um minuto. A exposição a produtos tóxicos em níveis variados e em várias combinações


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pode causar defeitos congênitos, danos ao sistema imunológico e sistema nervoso central (inclusive retardamento mental), doenças respiratórias, disrupção dos sistemas endócrinos, do equilíbrio hormonal e quase todos os tipos de câncer.38

Os poluentes também causam dano ao meio ambiente. A chuva ácida, provocada pelas emissões de dióxido de enxofre, por exemplo, danificou florestas em regiões industrializadas, incluindo Europa, América do Norte e China. Uma pesquisa realizada em 2000 revela que um quarto das florestas européias está danificado. Uma fundição de níquel em Norilsk, na Sibéria, matou todas as árvores numa área de 3.500 quilômetros quadrados. Milhares de lagos na zona norte dos países industrializados estão hoje mortos devido à acidificação da chuva ácida.39

Em alguns países, os poluentes ambientais se acumularam a ponto de reduzir a expectativa de vida. Na Rússia, uma combinação do colapso no sistema de saúde, crescimento dramático da pobreza ao longo da última década e níveis altíssimos de poluição ajudou a reduzir a expectativa de vida entre os homens, para menos de 60 anos. Histórias de terror sobre os efeitos à saúde da poluição industrial descontrolada na Rússia são comuns. Por exemplo, na cidade industrial de Karabash, no sopé dos Urais, as crianças sofrem rotineiramente de envenenamento por chumbo, arsênico e cádmio. Isso se traduz em defeitos congênitos, distúrbios neurológicos e câncer. Os poluentes também causam disrupção nos sistemas metabólicos e afetam os sistemas imunológicos.40

Os países em desenvolvimento também começam a sofrer os efeitos da poluição descontrolada. Payal Sampat, do Worldwatch Institute, relata que Ludiana, a maior cidade do estado agrícola do Punjab, no norte da Índia, hoje paga o preço da poluição industrial. Uma combinação de indústrias, de têxteis à eletrogalvanização de metais deixou os mananciais subterrâneos contaminados com cianeto, cádmio e chumbo. A água de poço que abastece a cidade já não é mais potável. Outras cidades na Índia, como Jaipur, e na China, como Shenyang, outrora dependentes de mananciais subterrâneos, hoje buscam seu abastecimento em outras fontes.41

Cientistas analisando a poluição da água subterrânea alertam que, por enquanto, o que estamos vendo é apenas a ponta do iceberg, uma vez que leva tempo para os produtos químicos tóxicos, solúveis na água, se infiltrarem no solo e poluírem os aqüíferos. Os tóxicos exis


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tentes nos aqüíferos hoje podem ser o produto de atividades industriais de uma geração atrás.42

A dispersão de alguns tóxicos é relativamente nova. Esse é o caso do Japão, por exemplo, onde a incineração do lixo urbano despeja dioxinas na atmosfera. Dioxinas _ tão tóxicas que sua presença não é medida em partes por milhão, e sim em partes por bilhão _ são produtos da queima de plásticos. Tóquio tornou-se a capital mundial das dioxinas. Embora as emissões japonesas de dioxinas, maiores do mundo, totalizem apenas 4 quilos por ano, já atingem um nível que pode causar câncer ou outras doenças.43

Um dos grandes desafios que o mundo hoje enfrenta é como desintoxicar a Terra. Como faremos o ar seguro para respirar, a água segura para beber e o solo seguro para a produção de alimentos? Um passo importante foi dado em dezembro de 2000, quando os delegados de 122 países, reunidos em Estocolmo, aprovaram um acordo pioneiro, proibindo o uso de 12 dos produtos químicos mais tóxicos atualmente em uso. Esses 12 poluentes orgânicos persistentes incluíram pesticidas como DDT, aldrin, endrin, clordano e dialdrin, como também produtos químicos industriais como hexaclorobenzeno e PCBs. Assim que 50 países ratificarem o tratado, um processo que deverá levar pelo menos três anos, sua implementação terá início. O Primeiro Ministro da Suécia, Goeran Persson, observou: "Substâncias perigosas não respeitam fronteiras internacionais ou nacionais. Só podem ser combatidas com estratégias comuns." A maioria dos países já proibiu o uso de chumbo da gasolina, uma causa comum de retardo mental nas crianças.44

Se reestruturarmos a economia energética para estabilizar o clima (vide Capítulo 5), então a queima do carvão para a geração de eletricidade _ fonte do mercúrio que inviabiliza os peixes para consumo humano, e do ácido clorídrico e ácidos sulfúricos que estão destruindo florestas e afetando sistemas respiratórios _ desaparecerá em grande parte.

Se indústrias de reciclagem substituírem indústrias de mineração, o fluxo de poluentes será sensivelmente reduzido. Se os países proibirem o uso de recipientes descartáveis para bebidas, como o fizeram Dinamarca e Finlândia, então tanto a quantidade de energia quanto a de materiais utilizados na fabricação de garrafas sofrerão uma redução significativa. Na criação de uma eco-economia, muitos dos objetivos se reforçam mutuamente.45


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A Função da Reciclagem

À medida que a economia metaboliza mais e mais metais e outras matérias-primas, os danos se acumulam. Embora a reciclagem se justifique como uma alternativa economicamente atraente para os custos crescentes dos aterros sanitários, ela também reduz, em grande parte, os danos ao ecossistema.

Como observado anteriormente, a extração e processamento do aço, cobre, ouro e alumínio são responsáveis pela maioria das emissões de carbono, poluentes e devastação da paisagem, associadas à economia de materiais. Na reciclagem, os três materiais para enfoque são aço, cobre e alumínio, uma vez que o alto valor do ouro praticamente assegura que não será descartado.

Em termos de potencial de reciclagem, o aço _ com produção mundial de 833 milhões de toneladas anuais _ encabeça a lista. O uso do aço, há muito uma medida de industrialização, é controlado por poucas indústrias, principalmente a automotiva e de eletrodomésticos, e pelo setor de construção. Entre os vários produtos que utilizam aço nos Estados Unidos, a maior taxa de reciclagem é a do automóvel. Os veículos agora são simplesmente valiosos demais para serem abandonados como sucatas enferrujadas em ferro-velhos. Nos Estados Unidos, quase todos os automóveis descartados são reciclados.46

A taxa de reciclagem dos eletrodomésticos está estimada em 77%. No setor de construção, a reciclagem de vigas e chapas de aço é ainda maior, cerca de 95%; o aço utilizado em vergalhões de reforço embutidos em concreto, todavia, não é facilmente reciclado. Para esses e outros usos na construção, a taxa de reciclagem é de 45%, conforme o Steel Recycling Institute. Quanto às latas de aço, a taxa de reciclagem de 58% em 1999 nos Estados Unidos, deveu-se às campanhas municipais de reciclagem lançadas no final dos anos 80.47

Nos Estados Unidos, cerca de 58% da produção siderúrgica em 1999 veio de sucata, com 42% sendo produzido de minério virgem. (Vide Figura 6_2.) A reciclagem do aço começou a aumentar há mais de uma geração, com o advento do forno a arco voltaico, um método altamente eficiente de produzir aço de sucata. O aço produzido da sucata só utiliza um terço da energia exigida pelo minério virgem. E, uma vez que não requer a extração do minério, elimina totalmente uma das causas da perturbação ambiental. Nos Estados Unidos, Itália e Espanha, fornos a arco voltaico representam hoje mais da metade de


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Figura 6_2. Teor de Reciclagem do Aço

nos Estados Unidos, 1984-99

toda produção siderúrgica. Ao longo das últimos duas décadas, a indústria siderúrgica dos Estados Unidos deixou de utilizar grande parte do minério virgem, valendo-se principalmente de sucata.48

É mais fácil para os países com economias industriais adultas e populações estáveis obterem a maior parte do aço através da reciclagem de sucata do que para os países em desenvolvimento, simplesmente porque o estoque de aço embutido na economia é essencialmente fixo. O número de eletrodomésticos, a frota de veículos e o estoque de construções crescem pouco, ou quase nada. Em países nos estágios iniciais de industrialização, todavia, a criação de infra-estrutura _ seja indústrias, pontes, arranha-céus ou transportes, incluindo automóveis, ônibus e trens _ deixa pouco aço para reciclar.

À medida que a indústria siderúrgica dos Estados Unidos se deslocou para uma dependência básica na sucata, sua distribuição geográfica também mudou. Outrora concentrada no oeste da Pensilvânia, onde havia uma abundância tanto de minério de ferro quanto de carvão, a indústria moderna que utiliza mini-usinas a arco voltaico alimentando-se de sucata está amplamente dispersa por todo o país, na Carolina do Norte, Nebraska e Texas, por exemplo. Mini-usinas fornecem aço para indústrias locais, permitindo que comunidades locais dependam basicamente do aço já existente.49


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Outro metal com efeito ambiental penetrante é o alumínio. Alguns produtos de alumínio são facilmente reciclados, outros não. Por exemplo, dentro da indústria de alimentos, a folha de alumínio utilizada para embalar alimentos congelados não é reciclada com facilidade. Latas de alumínio para bebidas, por outro lado, são mais fáceis de manejar. Nos Estados Unidos, cerca de 64 bilhões das 102 bilhões de latas de alumínio utilizadas em 1998 foram recicladas. Entretanto, essa taxa de reciclagem de 63% é baixa, comparada com alguns países. No Japão, atual líder, 79% das latas são recicladas. O Brasil vem logo em seguida, com 77%. No Japão, a reciclagem do alumínio é motivada por uma escassez de locais para o lixo, enquanto em muitos países em desenvolvimento é motivada pelo desemprego generalizado.50

No Brasil, onde o desemprego é alto, a reciclagem de latas de alumínio tornou-se uma grande fonte de emprego. Cerca de 150.000 brasileiros ganham a vida recolhendo latas usadas e levando-as aos centros de reciclagem, recebendo US$ 200 por mês, contra um salário mínimo de aproximadamente US$80. 45 latas podem ser trocadas por um quilo de feijão preto, e 35 latas por um quilo de arroz. O sistema desenvolvido no Brasil para a reciclagem de latas de alumínio hoje emprega mais gente do que a indústria automotiva.51

Apesar da alta taxa de reciclagem de latas, a taxa global de reciclagem de alumínio não é alta. Nos Estados Unidos, a participação da sucata na produção de alumínio em 1998 foi de 33%. Cerca da metade veio de sucata gerada nas indústrias onde vários produtos de alumínio são fabricados. Assim, o volume reciclado de bens de consumo contendo alumínio foi muito baixo. Uma das razões é que o investimento em alumínio nos carros e aeronaves é relativamente recente, restringindo o volume atualmente disponível para reciclagem. Contrariamente ao uso mundial do aço, que aumentou pouco desde 1973, a produção de alumínio ainda está em crescimento.52

O fato encorajador é que a reciclagem de ambos, aço e alumínio, está aumentando. O que é desencorajador é que o aumento é lento para ambos. Grandes quantidades de alumínio e aço acabam em lixões.

Como observado anteriormente, na eco-economia as sociedades dependerão significativamente das matérias-primas já em circulação. Por exemplo, no pequeno e densamente habitado Estado de Nova Jersey, há oito mini-usinas siderúrgicas que dependem quase que exclusivamente de sucata e 13 fábricas de papel que só utilizam papel


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usado. Conjuntamente, essas usinas siderúrgicas e fábricas de papel comercializam mais de US$ 1 bilhão em produtos, anualmente, proporcionando emprego e receita fiscal. Ironicamente, essas prósperas indústrias existem num estado onde não possui minas de ferro e tem poucas áreas florestais.53

Numa eco-economia, as mini-usinas a arco voltaico, que transformam eficientemente a sucata em produtos acabados de aço, irão substituir em grande parte as minas de ferro. Economias industrializadas avançadas virão a depender principalmente do estoque de materiais já presente na economia, em vez de matérias-primas virgens. Para metais como aço e alumínio, as perdas pelo uso serão mínimas. Com políticas adequadas, os metais _ uma vez investidos na economia _ poderão ser utilizados indefinidamente.

O Replanejamento da Economia de Materiais

Na natureza, fluxos lineares de mão-única não têm vida longa. Nem, por extensão, podem sobreviver na economia humana que integra o ecossistema da Terra. O desafio é replanejar a economia de materiais para que seja compatível com o ecossistema. Essa iniciativa possui vários componentes: inclui projetar produtos que possam ser facilmente desmontados e reciclados, replanejar processos industriais que eliminem a geração de resíduos, proibir o uso de recipientes descartáveis de bebidas, utilizar aquisições governamentais para expandir o mercado de materiais reciclados, desenvolver e aplicar tecnologias que requeiram menos material, proibir a mineração de ouro ou no mínimo seu uso de soluções de cianeto e mercúrio, adotar um imposto de aterro sanitário e eliminar subsídios para atividades ambientalmente destrutivas.

Alguns países já estão adotando essas medidas. A Alemanha e, mais recentemente, o Japão começaram a exigir que produtos como automóveis, eletrodomésticos e equipamentos de escritório sejam projetados de tal forma que possam ser facilmente desmontados e reciclados. Em maio de 2001, o Diet japonês promulgou uma rigorosa lei de reciclagem de eletrodomésticos, proibindo o descarte de aparelhos como lavadoras, televisores ou aparelhos de ar condicionado. Com os consumidores sendo responsabilizados pelo custo da desmontagem, sob a forma de uma taxa de disposição paga às empresas de reciclagem _ que pode chegar a US$ 60 por um refrigerador ou US$ 35 por uma lavadora _ é


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forte a pressão para projetar aparelhos que sejam desmontáveis com maior facilidade e a baixo custo.54

Com computadores se tornando obsoletos em um par de anos à medida que a tecnologia avança, a necessidade de poder rapidamente desmonta-los e recicla-los é um supremo desafio para a criação de uma eco-economia.

Outra iniciativa política que poderá em muito contribuir para a redução do uso de materiais é a proibição de recipientes descartáveis de bebidas, algo que a Dinamarca e Finlândia já fizeram. A Dinamarca, por exemplo, proibiu recipientes descartáveis para refrigerantes em 1977 e para cerveja em 1981. A Ilha Prince Edward, no Canadá, instituiu uma proibição semelhante. O resultado, em todos estes três casos, foi um redução substancial no fluxo do lixo para os aterros.55

Os custos ambientais dos recipientes de bebidas variam muito. Uma garrafa de vidro reutilizável requer menos de um quinto da energia de uma lata reciclada de alumínio, pressupondo-se 15 reutilizações, o que pode ser uma estimativa conservadora.56

Há também uma grande economia com transportes, já que os vasilhames são simplesmente devolvidos às engarrafadoras de refrigerantes e cerveja. Quando recipientes descartáveis de vidro ou alumínio são utilizados e reciclados, precisam ser transportados para uma fábrica para derretimento, remanufatura e transporte de volta às instalações de engarrafamento.

Outra área de redução potencial do uso de materiais é o setor de transportes. Quando as cidades replanejarem seus sistemas de transportes urbanos num esforço de atingir metas sociais de maior mobilidade individual, ar limpo, menor congestionamento do trânsito e frustração, e mais oportunidades de exercício, o uso de carros cairá. (Vide Capítulo 9.)

Mais fundamental até do que projetar produtos é replanejar processos industriais para eliminar totalmente a descarga de poluentes. Muitos dos processos industriais atuais evoluíram quando a economia era bem menor e quando o volume de poluentes não ameaçava dominar o ecossistema. Mais e mais empresas hoje percebem que isso não poderá continuar e algumas, como a Dupont, adotaram uma meta de emissão zero.57

Outra forma de redução do lixo é o agrupamento sistemático de fábricas, para que os resíduos de um processo possam ser utilizados


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como matéria prima de outro. A NEC, grande empresa eletrônica japonesa, foi uma das primeiras multinacionais a adotar essa abordagem em suas várias instalações fabris. Na realidade, parques industriais estão sendo projetados por corporações e governos especificamente para reunir fábricas que tenham resíduos utilizáveis. Hoje na indústria, assim como na natureza, o refugo de uma empresa se transforma no sustento de outra.58

Incentivos mercadológicos para a reciclagem podem ser gerados por políticas de aquisições governamentais. Por exemplo, quando o Governo Clinton promulgou uma Ordem Executiva em 1993, exigindo que todo o papel adquirido por órgãos governamentais contivesse no mínimo 20% de material usado até 1995 (aumentando para 25% até 2000), criou um forte incentivo para as fábricas de papel incorporarem o papel usado em seu processo fabril. Uma vez que o Governo dos Estados Unidos é o maior comprador mundial de papel, isso criou um mercado florescente para o papel reciclado.59

Vários governos estaduais atingiram metas semelhantes ao estabelecerem um teor mínimo de material reciclado para papel de imprensa, informa John Young. Ele observa que a quantidade de instalações de reciclagem de papel de imprensa na América do Norte aumentou de 9 em 1988 para 29 em 1994. Isso criou um mercado para jornais reciclados, retirando-os do passivo da economia e transformando-os num ativo, um bem vendável.60

A desmaterialização da economia é facilitada pelas novas tecnologias, menos dependentes de materiais. Telefones celulares, que requerem torres amplamente dispersas ou satélites para a transmissão do sinal, representam a maior parte do crescimento do uso do telefone nos países em desenvolvimento. Essas nações não precisarão investir em milhões de quilômetros de fios de cobre, como o fizeram os países industrializados. Até 1990, telefones celulares eram raros. Mas, em 1996, as vendas de 51 milhões desses aparelhos superaram os 47 milhões de novos telefones fixos. Em 1999, as vendas de celulares totalizando 172 milhões de unidades foram quase o triplo dos 63 milhões de aparelhos fixos vendidos. Havia 491 milhões de celulares em uso, então comparados aos 907 milhões de aparelhos tradicionais. Em 2005, o número de telefones celulares em uso provavelmente excederá o número de aparelhos fixos.61

A nova tecnologia chegou na hora certa para países em desenvolvi


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mento, como China e Índia, que dispõem de poucas linhas de telefonia tradicional. Em poucos anos, a China superou o Japão na quantidade de assinantes de telefones celulares, atrás apenas dos Estados Unidos. Podemos hoje antever uma população mundial conectada a uma rede de telefonia que não exigirá milhões de toneladas de fios de cobre.62

Até hoje, os esforços para reduzir o uso de materiais têm sido modestos, consistindo basicamente de programas de reciclagem. Em 1992, um grupo chamado Factor 10 Institute foi organizado na França, sob a liderança de Friedrich Schmidt-Bleeck. Sua meta é aumentar a produtividade dos recursos por um fator de 10 que acreditam estar bem ao alcance da tecnologia e gestão existentes, dados os incentivos programáticos apropriados. Reconhecem que o aumento da produtividade dos recursos em 10 vezes _ ou seja, reduzir o uso de materiais em 90% _ "constituirá uma mudança radical da premissa tradicional que uma economia sadia é aquela que consome quantidades cada vez maiores de energia, materiais e recursos para produzir maior quantidade de bens, maior geração de empregos e maior renda." Algumas reduções poderão ser até maiores; por exemplo, a substituição de automóveis por bicicletas, a fim de aumentar a mobilidade em cidades congestionadas, poderá reduzir o uso dos materiais em mais de 90%.63

Embora relativamente pouca atenção tem sido dada à criação de indústria de construção, ela é uma das grandes usuárias de materiais, incluindo aço e cimento. Medidas simples, como o aumento da longevidade dos prédios, poderão reduzir em muito o uso desses materiais e da energia consumida em sua fabricação.

A breve análise da mineração de ouro neste capítulo levanta dúvidas se os benefícios sociais dessa atividade superam os custos ecológicos. Cerca de 85% de todo o ouro extraído anualmente é utilizado para produzir jóias usadas como status, freqüentemente como demonstração de riqueza, por uma pequena minoria da população mundial.

A ambientalista turca Birsel Lempke, agraciada com o Right Livelihood Award (freqüentemente chamado do Nobel alternativo), também questiona o futuro da mineração do ouro. Ao mesmo tempo em que as análises proporcionam mais informações sobre os custos ecológicos da mineração do ouro, levantam dúvidas graves se vale a pena transformar imensas áreas naquilo que Lempke chama de "paisagem lunar." Ela esclarece não ser contra o ouro per se, e sim contra os produtos químicos mortais, como cianeto e mercúrio, que são despejados no


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ecossistema da Terra durante o processamento do minério.64

Se os custos da mineração do ouro para a sociedade suplantam os benefícios, então a questão é como melhor eliminar gradativamente essa atividade. Uma forma seria aplicar um imposto sobre o ouro que refletisse os custos ambientais para a sociedade, inclusive a destruição paisagística causada pelo processamento anual de mais de 700 milhões de toneladas do minério, mais o custo à sociedade da poluição do mercúrio e cianeto. Esse imposto provavelmente aumentaria substancialmente o preço do ouro. Outra abordagem seria simplesmente negociar uma proibição internacional no uso de cianeto e mercúrio na mineração de ouro, como a comunidade internacional recentemente proibiu o uso de uma dúzia de produtos químicos tóxicos. Qualquer das abordagens poderia ser aplicada. Independente de qual prevaleça, tanto as gerações atuais quanto futuras serão beneficiadas.65

Outra indústria cujo valor para a sociedade está sendo questionado pela comunidade ambiental é a indústria de água mineral. O Fundo Mundial para a Natureza (WWF), uma organização com 5,2 milhões de membros, divulgou um estudo, em abril de 2001, recomendando aos consumidores que abandonem a água mineral, observando que não era mais segura ou mais sadia do que a água da torneira, mesmo considerando que possa custar 1.000 vezes mais.66

O WWF observa que, nos Estados Unidos e Europa, há mais normas regulamentando a qualidade da água da torneira do que da água mineral. Embora um marketing inteligente nos países industrializados tenha convencido muitos consumidores de que a água mineral é mais sadia, o estudo do WWF não encontrou qualquer sustentação para esse argumento. Para aqueles que vivem em locais onde a água não é segura, como algumas cidades do Terceiro Mundo, é muito mais barato ferver ou filtrar a água do que comprá-la em garrafas.67

A eliminação gradativa do consumo de água mineral eliminaria a necessidade de frotas de caminhões que a transportam e distribuem. Isso, por sua vez, reduziria os materiais necessários para a fabricação dos caminhões, como também o congestionamento do trânsito, poluição atmosférica e níveis crescentes de dióxido de carbono associados a essa operação.68

Uma das iniciativas políticas mais produtivas em termos ambientais seria eliminar os subsídios que encorajam o uso de matérias-primas. Em nenhum lugar são maiores do que no setor energético. Na França,


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por exemplo, a empresa estatal de alumínio recebe eletricidade à taxa altamente subsidiada de 1,5 centavos de dólar por quilowatt/hora, enquanto as outras indústrias pagam 6 centavos e consumidores residenciais, quase 12 centavos. No Canadá, o Governo de Quebec também oferece eletricidade à indústria de alumínio a 1,5 centavos por kw/h. Sem esse gigantesco subsídio, provavelmente a indústria não poderia fabricar com lucro latas descartáveis para bebidas. Esse benefício ao alumínio subsidia indiretamente os transportes, inclusive companhias aéreas e automóveis, encorajando assim as viagens, uma atividade intensiva em energia.69

A iniciativa mais abrangente para desmaterializar a economia seria o imposto proposto sobre a queima de combustíveis fósseis, um imposto que refletisse o custo total à sociedade da mineração do carvão, extração do petróleo, poluição atmosférica associada a seu uso e perturbação climática. Um imposto sobre emissões de carbono levaria a um preço mais realista para a energia, de forma que permeasse a economia de materiais intensivos em energia e reduzisse o uso de materiais.

O desafio da criação de um setor de eco-economia de materiais é assegurar que o mercado envie sinais honestos. Nas palavras de Ernst von Weizsäcker, ambientalista e líder do Bundestag alemão, "O desafio é fazer com que o mercado fale a verdade ecológica." Para ajudar o mercado a falar a verdade, por exemplo, precisaremos não apenas de um imposto sobre o carbono, mas também um imposto sobre aterros sanitários, para que aqueles que geram o lixo paguem o custo total de sua eliminação, da gestão do aterro e dos seus fluxos potencialmente tóxicos perpetuamente.70


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Em novembro de 1965, o Secretário da Agricultura dos Estados Unidos Orville Freeman pediu-me para elaborar um plano para o desenvolvimento da agricultura da Índia. Não tinha havido chuvas de monção naquele verão, deixando a Índia vulnerável a uma fome de proporções históricas. O país havia priorizado o desenvolvimento industrial em detrimento da agricultura e não possuía reservas de grãos. Como declarou uma autoridade indiana, "Nossas reservas estão nos silos do Kansas."

O Presidente Lyndon Johnson inquietou-se, pois sabia que os Estados Unidos não poderiam, a longo prazo, alimentar a crescente população da Índia. Desejava um plano para este país desenvolver sua agricultura e um acordo para que a Índia o implementasse imediatamente, em troca de uma ajuda maciça em alimentos. Já que estava trabalhando como analista agrícola para a Ásia no Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, e estava familiarizado com a Índia, tendo passado parte do ano de 1956 morando em alguns vilarejos do país, fui designado para elaborar o plano.

Este capítulo foi adaptado de "Erradicação da Fome: Um Desafio Crescente," em Lester R. Brown et al., Estado do Mundo 2001 (Salvador-BA: UMA Editora, 2001)



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As principais medidas a serem tomadas pela Índia eram simples. A primeira seria o país se afastar de uma política urbana de limite de preços para grãos, que desencorajava investimentos na agricultura, e adotar uma política rural de preços mínimos, encorajando os agricultores a investirem na melhoria de suas terras e em outras medidas incrementadoras da produção. A segunda medida seria transferir a indústria de fertilizantes do setor público, em que uma fábrica de adubo levou nove anos para ser construída, para o setor privado, em que instalações poderiam ser construídas em dois anos. A terceira seria explorar os abundantes recursos hídricos subterrâneos para irrigação. E a quarta seria disseminar rapidamente os cereais de alta produtividade já testados e aprovados para uso na Índia.

Durante o ano após a assinatura do acordo, os Estados Unidos embarcaram um quinto de sua safra de trigo para Índia, a fim de compensar a fraca colheita. Dois navios saíam de portos americanos a cada dia, carregados com grãos _ parte do maior transporte de grãos entre dois países da história. Entre 1965 e 1973, a Índia dobrou sua colheita de trigo, um ganho recorde para um país grande. O plano agrícola obteve um sucesso além das nossas expectativas e a Índia se tornou auto-suficiente em grãos.1

Não foi difícil elaborar o plano em novembro de 1965. Qualquer um poderia tê-lo feito, pois as medidas necessárias eram óbvias. Hoje, entretanto, com sua população projetada a aumentar em 563 milhões até 2050, a Índia enfrenta um desafio muito mais complexo. Atingir um equilíbrio humanístico entre população e alimentação dependerá muito mais agora do sucesso de programas de planejamento familiar no aceleramento da mudança para famílias menores do que de agricultores. Na Índia, como no mundo como um todo, a erosão do solo, exaustão de aqüíferos e mudança climática são as principais ameaças à sustentabilidade da agricultura e à criação do setor de alimentos de uma eco-economia.2

Aumentar a produção para alimentar a crescente população mundial será extremamente mais difícil durante este meio século do que no anterior. Durante a última metade do Século XX, os agricultores mundiais quase que triplicaram a produção de grãos, de 631 milhões de toneladas em 1950 para 1.835 bilhões em 2000. Esse ganho em meio século foi quase o dobro daquele desde o início da agricultura, cerca de 11.000 anos atrás até 1950.3


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Apesar dessa conquista impressionante, grande parte do avanço foi neutralizada pelo crescimento populacional. Hoje, 1,1 bilhão, das 6,1 bilhões de pessoas, ainda está subnutrido e abaixo do peso. A fome e o temor da inanição, literalmente, determinam suas vidas.4

Erradicar a fome que existe agora e alimentar aqueles que estão por vir é um desafio considerável, tornado mais complexo ainda devido ao fato de dois dos três sistemas alimentícios mundiais _ pastos e pesqueiros oceânicos _ já estarem pressionados além dos seus níveis sustentáveis. A produção das terras cultivadas ainda não atingiu seu limite, porém o aumento da sua produtividade desacelerou-se ao longo da última década.

Sob sua forma mais básica, a fome é um problema de produtividade. As pessoas têm fome por não produzirem alimento suficiente para atender suas necessidades, ou porque não dispõem de renda suficiente para adquiri-lo. A única solução definitiva é elevar a produtividade _ uma tarefa complicada pelo encolhimento progressivo tanto da área cultivada quanto do volume per capita de água de irrigação nos países em desenvolvimento.

Relatório de Situação

Como foi observado, 1,1 bilhão de pessoas estão subnutridas e abaixo do peso. O entrosamento desse número com a estimativa do Banco Mundial de 1,3 bilhão vivendo na pobreza, ou seja, com US$ 1 por dia, ou menos, não causa surpresa. Pobreza e fome andam de mãos dadas.5

As conquistas na erradicação da fome no leste da Ásia e América Latina deixam a maior parte dos famintos do mundo concentrada no subcontinente indiano e África subsaariana. Nessas regiões, a maioria dos famintos vive no campo. O Banco Mundial informa que 72% dos pobres mundiais (1,3 bilhões) vivem em áreas rurais. A maioria é subnutrida e condenada a uma vida curta. Esses pobres rurais não vivem em planícies produtivas irrigadas, mas sim nas periferias semi-áridas e áridas da agricultura ou nas áreas altas de bacias hidrográficas, em encostas íngremes, de fácil erosão. A erradicação da fome depende da estabilização desses frágeis ecossistemas.6

Demograficamente, a maioria dos pobres do mundo vive em países onde as populações continuam a crescer rapidamente, países onde a pobreza e o crescimento populacional se reforçam mutuamente. O


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subcontinente indiano, por exemplo, acrescenta mais 21 milhões de pessoas por ano à sua população, o equivalente a outra Austrália. Até meados do século, a população dessa região _ já a mais faminta da Terra _ deverá incluir outras 900 milhões de pessoas.7

Nenhum fator individual pressiona tão diretamente a perspectiva de erradicação da fome nessa região como o crescimento populacional. Nas sociedades rurais, quando uma fazenda passa de uma geração a outra, é caracteristicamente subdividida entre os filhos. Com a segunda geração de crescimento populacional acelerado e a subseqüente fragmentação da terra, as fazendas estão diminuindo a ponto de não mais sustentarem adequadamente as pessoas que nelas vivem.

Entre 1970 e 1990, a quantidade de fazendas na Índia com menos de 2 hectares aumentou de 49 milhões para 82 milhões. Assumindo que essa tendência continuou desde então, a Índia hoje pode ter 90 milhões de famílias, ou mais, com fazendas inferiores a 2 hectares. Caso cada família se componha de seis membros, então 540 milhões de pessoas _ mais da metade da população _ estão vivendo presas a um equilíbrio precário com suas terras.8

Em Bangladesh, o tamanho médio das fazendas já caiu abaixo de 1 hectare. Conforme um estudo, sua "forte tradição de legar terras em proporções fixas para todos os herdeiros masculinos e femininos levou a um aumento dos sem-terra e à fragmentação extrema das propriedades agrícolas." Além dos milhões hoje sem terra, outros milhões possuem lotes tão pequenos que são de fato sem-terra.9

A África, com o mais acelerado crescimento populacional do mundo, enfrenta uma redução semelhante de área cultivada per capita. Por exemplo, à medida que a população da Nigéria aumentar dos 114 milhões de hoje para um total projetado de 278 milhões de pessoas em 2050, sua área per capita de grãos _ a maior parte semi-árida e sem irrigação _ diminuirá de 0,15 para 0,06 hectare. A perspectiva alimentar da Nigéria, caso permaneça nessa trajetória populacional, é pouco promissora.10

O que dificulta ainda mais os esforços para expandir a produção de alimentos é o déficit hídrico. Como observado anteriormente, quase 3,2 bilhões de pessoas a serem adicionadas à população mundial nos próximos 50 anos nascerão em países que já enfrentam carência de água, como a Índia, Paquistão e países do Oriente Médio e da África semi-árida. Na Índia, os lençóis freáticos estão caindo em grandes


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áreas, à medida que a demanda excede a produção sustentável dos aqüíferos. Para muitos países que enfrentam déficits hídricos, o esforço de erradicar a fome, enquanto a população continua a crescer, assemelha-se a tentar subir uma escada rolante que desce.11

Quando o mundo se vê diante da perspectiva de adicionar 80 milhões de pessoas por ano à população, durante as próximas duas décadas, a expansão da produção de alimentos se torna mais difícil. Em cada um dos três sistemas alimentares _ terras cultivadas, pastos e pesqueiros oceânicos _ a produção aumentou dramaticamente durante a última metade do século XX. Hoje, tudo isso mudou.

Entre 1950 e 2000, como mencionado acima, a produção mundial de grãos quase triplicou. A produção per capita elevou-se quase 40% quando o aumento da colheita superou o crescimento populacional. A maré crescente da produção de grãos melhorou a nutrição de grande parte da humanidade, porém, após 1984, esse aumento desacelerou, ficando atrás do crescimento populacional. Em 2000, a produção per capita havia caído 11% do seu pico. (Vide Tabela 7_1.) O declínio concentrou-se na África, onde o acelerado crescimento populacional simplesmente ultrapassou a produção de grãos, e na antiga União Soviética, onde a economia encolheu pela metade desde 1990 e o padrão de vida deteriorou.12

Cerca de 1,2 bilhão de toneladas da colheita mundial de grãos é consumido diretamente como alimento, com a maior parte dos 660 milhões de toneladas (36%) restantes sendo consumida indiretamente pela pecuária, avicultura e aquacultura. A parcela de grãos utilizada para forragem varia muito entre os "três grandes" produtores de alimentos _

Tabela 7-1. Produção Mundial per Capita de Grãos,

Carne Bovina e Caprina e Frutos do Mar, 1950-2000

Alimento Período de Período de

Crescimento Crescimento Declínio Declínio

(percentual) (percentual)


Grãos

Carne Bovina e Caprina

Frutos do Mar

1950-84 + 38 1984-2000 - 11

1950-72 + 44 1972-2000 - 15

1950-88 + 112 1988-98 - 17


Fonte: Vide nota final 12.


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desde 4% na Índia até 25% na China e 65% nos Estados Unidos.13

Durante o último meio século, a crescente demanda mundial por proteína animal foi atendida em grande parte pela expansão da produção da pecuária nos pastos e de frutos do mar nos pesqueiros oceânicos. A produção mundial de carne bovina e caprina aumentou de 24 milhões de toneladas em 1950 para 65 milhões de toneladas em 2000, quase o triplo. Entretanto, a maior parte do crescimento ocorreu entre 1950 e 1972, quando a produção aumentou 44%. Desde então, a produção per capita de carne bovina e caprina caiu 15%.14

Cerca de quatro quintos das carnes bovinas e caprinas produzidas mundialmente em 2000, aproximadamente 52 milhões de toneladas, provêm de animais que pastam. Com os pastos mundiais hoje sendo explorados além de sua capacidade, os ganhos futuros de produção provavelmente serão limitados.15

O crescimento do pescado oceânico excedeu até mesmo ao da carne bovina e caprina, aumentando de 19 milhões de toneladas em 1950 para 86 milhões de toneladas em 1998, o último ano para o qual existem dados disponíveis. Esse crescimento quádruplo também se concentrou no período de 1950 a 1988, quando o crescimento anual do pescado oceânico _ de 3,8% _ foi, de longe, o dobro do crescimento da população mundial. Conseqüentemente, o pescado oceânico per capita elevou-se de 8 quilos em 1950 para 17 quilos em 1988. Desde então, caiu cerca de 17%. A nova realidade é que pescadores e pecuaristas não podem mais atender à grande parte da crescente demanda mundial por alimentos. Pela primeira vez desde o início da civilização, os agricultores deverão tentar sozinhos suprir a necessidade futura de alimentos.16

Elevando a Produtividade das Terras Cultivadas

Num mundo onde há pouca terra nova para cultivo, a elevação da produtividade das terras existentes é a chave para alimentar as 80 milhões de pessoas adicionadas a cada ano. Também é essencial para a proteção do ecossistema da Terra. Caso os agricultores não tivessem quase triplicado a produtividade do solo de 1950 para cá, teria sido necessário derrubar o equivalente à metade das florestas mundiais remanescentes para a produção de alimentos.

Há pelo menos três formas de elevar a produtividade das terras cultivadas: elevar a produção por safra, aumentar o número de lavou


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ras por ano, através do cultivo múltiplo, e obter mais da colheita existente, através do "processamento" dos resíduos agrícolas por ruminante para produzir carne e leite.

Elevar a produtividade das terras cultivadas em todo o mundo está se tornando cada vez mais difícil. Ao longo do último século, os cultivadores incrementaram significativamente o rendimento genético do trigo, arroz e milho. No cerne desse esforço, estava um aumento da participação do fotossintato, o produto da fotossíntese, nas sementes. Enquanto o trigo originalmente não utilizava mais de 20% de seus fotossintatos para a produção da semente, as variedades altamente produtivas de hoje dedicam metade, ou mais, para a formação da semente. Calcula-se que o limite máximo teórico da parcela que pode ser dedicada à semente seja de 60%, uma vez que as raízes, talo e folhas também necessitam do fotossintato.17

Atingir o potencial genético das novas sementes requer amenizar quaisquer limitações de nutrientes ou de umidade sobre a produção. Os fertilizantes destinam-se a remover os limites impostos pelas deficiências de nutrientes. À medida que as cidades cresciam no século passado, houve perturbações maciças no ciclo dos nutrientes, dificultando a devolução dos nutrientes nos dejetos humanos ao solo, tornando o mundo cada vez mais dependente de fertilizantes. Em épocas antigas, quando o alimento era produzido e consumido localmente, os nutrientes eram automaticamente reciclados de volta ao solo, sob a forma de dejetos animais e humanos. Mas, à medida que as cidades se desenvolveram, quando o mundo mudou de uma economia de subsistência para uma economia de mercado, e o comércio internacional se expandiu, os agricultores compensaram a perda crescente de nutrientes com fertilizantes.

Quando o consumo mundial de fertilizantes elevou-se de 14 milhões de toneladas em 1950 para 141 milhões em 2000, isso, em alguns países, começou a pressionar os limites fisiológicos dos vegetais na absorção de nutrientes. Conseqüentemente, o uso de fertilizantes estabilizou-se nos Estados Unidos, Europa Ocidental, Japão e hoje possivelmente na China. Nesses países, a aplicação de nutrientes adicionais tem pouco efeito sobre a produção. Algumas regiões do mundo, como o subcontinente indiano e a América Latina, ainda podem utilizar lucrativamente fertilizantes adicionais; porém, no mundo como um todo, o crescimento acelerado do uso de fertilizantes _ a força motriz que


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ajudou a triplicar a colheita mundial de grãos desde 1950 _ é hoje história.18

Onde o uso de fertilizantes é excessivo, o escoamento de nutrientes para rios e oceanos pode causar eflorescência de algas que absorvem todo o oxigênio disponível na água quando se decompõem, criando zonas de morte sem vida marinha. A produção terrestre de alimentos amplia-se, em parte, às custas da produção marinha.19

O acúmulo de nitratos nos mananciais subterrâneos da Europa Ocidental levou a União Européia a restringir o uso de fertilizante. Na Dinamarca, os agricultores são obrigados a coligir um equilíbrio anual de nitrogênio para sua aplicação e uso na lavoura. Se esse equilíbrio, apresentando ao governo anualmente mostrar escoamento excessivo, os agricultores podem ser multados. O Estado de Iowa, preocupado com o nitrogênio na água subterrânea, instituiu um imposto sobre fertilizantes para desencorajar seu uso excessivo.20

Da mesma forma que os fertilizantes removem as limitações de nutrientes sobre a produção, a irrigação pode remover as limitações de umidade, permitindo que as plantas atinjam seu pleno potencial genético. Em alguns casos, a irrigação simplesmente incrementa a produtividade do solo, mas, em outros, permite o cultivo em estação seca ou uma expansão do cultivo para solos áridos.

Enquanto o mundo como um todo quase triplicou a produtividade do solo desde 1950, alguns países foram além. Durante o último meio século, China, França, Reino Unido e México quadruplicaram o rendimento do trigo por hectare. A Índia quase fez o mesmo. E os Estados Unidos quadruplicaram seu rendimento de milho por hectare.21

Por várias décadas, os cientistas geraram um fluxo constante de novas tecnologias destinadas a elevar a produtividade do solo, mas já está desacelerando. Em alguns países, os agricultores estão literalmente "na cola" dos cientistas nas estações experimentais, em busca de novas tecnologias. Nos países onde a produção já triplicou ou quadruplicou, está se tornando difícil para os fazendeiros continuarem a elevá-la. Por exemplo, a produtividade do trigo nos Estados Unidos aumentou pouco de 1983 para cá. No Japão, a produtividade do arroz quase não se altera desde 1984.22

Mesmo alguns países em desenvolvimento estão hoje estabilizando a produtividade dos grãos. Entre 1961 e 1977, a produtividade do arroz na Coréia do Sul aumentou quase 60%, porém, durante o quarto


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de século desde então, cresceu apenas 1%. Igualmente, o rendimento do trigo no México subiu de 0,9 toneladas por hectare em 1950 para 4,4 toneladas em 1982, um aumento quase quíntuplo. De lá para cá, não mudou significativamente. (Vide Figura 7_1.) À medida que a produtividade se estabilizar em mais e mais países, a expansão da produção global de grãos se tornará progressivamente mais difícil.23

Durante o último meio século, os agricultores mundiais quase triplicaram a produtividade do solo, mas agora será mais difícil atingir ganhos futuros de produtividade. Os agricultores conseguiram duplicar a produtividade de 1 tonelada por hectare em 1950 para 2 toneladas em 1982. Em 2000 atingiram 2,8 toneladas, quase o triplo de 1950. O crescimento, porém, está desacelerando.24

Elevar a produtividade agrícola é basicamente um desafio biológico, algo como aumento de desempenho atlético. Em algum lugar, na antiguidade, alguém correu uma milha em menos de seis minutos. Bem antes da primeira Olimpíada dos tempos modernos, realizada em 1896, os corredores já cobriam a milha em menos de cinco minutos. Em 1954, Roger Bannister rompeu a barreira dos quatro minutos. Meio século já se passou, mas ninguém fala em correr uma milha em três minutos. Atingimos o ponto em que cortar outro minuto da nossa milha pode ser fisiologicamente impossível.25

Figura 7-1. Produtividade do Trigo por Hectare,

no México, 1950-2000


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Enfrentamos uma situação semelhante com a produtividade dos grãos. Para os agricultores mundiais, aumentar o rendimento médio de 1 tonelada por hectare para 2 foi fácil. Crescer de 2 para quase 3, estágio em que nos encontramos hoje, foi muito mais difícil. Para que o mundo se desloque de 3 para 4 toneladas por hectare poderá ser quase tão difícil como reduzir o recorde da milha de 4 para 3 minutos. Se assim for, haverá forte pressão no planejamento familiar para conter o crescimento populacional.

Para o mundo como um todo, o aumento da produtividade do solo desde 1990 desacelerou significativamente. De 1950 até 1990, a produtividade mundial dos grãos por hectare subiu 2,1% ao ano. Entretanto, entre 1990 e 2000, o ganho anual foi de apenas 1,1%. (Vide Tabela 7 _ 2.)

Tabela 7-2. Ganhos Mundiais de Produtividade de Grãos,

por Hectare, 1950-2000

Ano Produtividade por Hectare1 Aumento Anual

(toneladas) (percentual)


1950 1,06

1990 2,47 2,1

2000 2,75 1,1


1Rendimento de 1990 é uma média trienal.

Fonte: Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, Production, Supply and Distribution, banco de dados eletrônico, Washington, DC, atualizado em maio de 2001.

A biotecnologia é citada freqüentemente como uma fonte potencial de maior rendimento, mas, embora os biotecnólogos já venham desenvolvendo novas variedades vegetais por duas décadas, ainda não produziram uma única variedade de trigo, arroz ou milho que possa elevar dramaticamente a produção. A razão é que os cultivadores convencionais já fizeram o máximo que podiam para elevar o rendimento dos grãos.As maiores contribuições da biotecnologia provavelmente virão do desenvolvimento de variedades de culturas que reduzam o uso de inseticidas, sejam mais resistentes à seca ou mais resistentes ao sal. Se os engenheiros genéticos conseguirem desenvolver variedades resistentes ao sal, isso aliviará os déficits hídricos. Talvez a maior questão afetando o futuro da biotecnologia sejam os possíveis efeitos do uso de culturas geneticamente modificadas, a


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longo prazo, sobre o meio ambiente e à saúde humana.

A produtividade do solo também pode ser incrementada pelo aumento de culturas anuais onde a temperatura e umidade do solo permitirem. Na China, por exemplo, o cultivo duplo de trigo e milho no inverno é generalizado, permitindo aos agricultores da planície norte da china colherem duas safras de grãos de alta produtividade a cada ano. No norte da Índia, o cultivo duplo de trigo no inverno e arroz no verão é hoje comum, é a chave para o sustento da população indiana de 1 bilhão de pessoas. Tanto a Argentina quanto os Estados Unidos fazem o cultivo duplo de trigo no inverno e soja no verão.26

Embora os Estados Unidos estejam na mesma latitude da China, o cultivo duplo não é tão comum, em parte porque, até recentemente, a elegibilidade dos agricultores aos incentivos governamentais dependia da restrição da área cultivada, desencorajando assim o cultivo múltiplo. Enquanto havia excesso de terra disponível, não existia motivação para contemplar seriamente o cultivo duplo ou desenvolver tecnologias que o viabilizassem.

Atualmente, cerca de 10% dos 30 milhões de hectares cultivados com soja nos Estados Unidos divide o cultivo com trigo no inverno. Caso se reduza a oferta mundial de alimentos, essa área poderá ser ampliada significativamente, proporcionando uma assistência estratégica no aumento da oferta de alimentos.27

Elevar a produtividade das terras cultivadas é a chave para salvar as florestas mundiais remanescentes. Se os agricultores mundiais não puderem aumentar a produtividade do solo o suficiente para atenderem o crescimento futuro da demanda por alimentos, então maiores derrubadas de florestas para a agricultura serão inevitáveis.

Elevando a Produtividade Hídrica

Ao longo do último meio século, a área irrigada mundial triplicou, aumentando de 90 milhões de hectares em 1950 para quase 270 milhões em 2000. A maior parte desse crescimento ocorreu entre 1950 e 1978, quando a irrigação expandiu-se mais rapidamente do que a população, incrementando o índice per capita de terra irrigada de 0,037 ha para 0,047 ha, um aumento de um quarto. Após 1978, todavia, esse crescimento desacelerou, ficando atrás do crescimento populacional e reduzindo o índice per capita em 8%. (Vide Figura 7_2.)28


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Figura 7-2. Área Irrigada Mundial, Per Capita, 1950-98

No futuro imediato, uma combinação de exaustão de aqüíferos e desvio da água de irrigação para aplicações não-agrícolas poderá acabar com o crescimento histórico da área irrigada. Caso isso ocorra, será bem mais difícil alimentar 3 bilhões de pessoas a mais.

Em muitos países, está se intensificando a competição pela água entre o campo e a cidade, sublinhando a importância de se elevar a produtividade hídrica. Embora muitos países não tenham projeções de desvios futuros de água de irrigação para uso residencial e industrial, uma previsão do Banco Mundial para a Coréia do Sul _ um país relativamente bem suprido de água _ dá uma idéia do que o futuro poderá trazer. Como muitos países, a Coréia hoje consome praticamente toda água disponível. O Banco calcula que, caso a economia coreana cresça 5,5% anualmente, até 2025, o aumento da extração de água para usos residenciais e industriais reduzirá a oferta anual remanescente para irrigação de 13 bilhões para 7 bilhões de toneladas. Um aumento do preço e ganhos associados de produtividade provavelmente minimizarão a perda da água de irrigação, contudo essa análise demonstra como poderá ser difícil para alguns países manter, ao menos, a área irrigada existente.29

Os agricultores em todo o mundo enfrentam uma batalha ferrenha na competição pela água, uma vez que a ciência econômica da água não favorece a agricultura. A indústria quase sempre paga pela água 50 a 100 vezes mais do que a agricultura. Onde quer que crescimento


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econômico e geração de empregos sejam o foco principal dos líderes políticos, a água escassa provavelmente irá para a indústria.30

Além disso, os países que a extraem em excesso, inclusive os principais produtores de alimentos como China, Índia e Estados Unidos, perderão a água de irrigação quando os aqüíferos estiverem exauridos. Assim que a demanda crescente suplantar a produção sustentável de um aqüífero, a distância entre demanda e produção sustentável se alargará a cada ano. E, na medida que o fizer, a queda anual dos lençóis freáticos também aumentará a cada ano, acelerando a exaustão dos aqüíferos e abrindo caminho para uma queda súbita da oferta de alimentos.31

A necessidade de água no subcontinente indiano já está suplantando a oferta. Lençóis freáticos estão caindo em grande parte do país, inclusive no Punjab, o celeiro da nação. (Vide Capítulo 2.) O consumo excessivo de água é incentivado pelos altos subsídios à eletricidade fornecida aos agricultores que utilizam bombas elétricas na irrigação.32

Na África subsaariana, o potencial da irrigação é limitado simplesmente porque grande parte do continente é árida ou semi-árida. A maior promessa aqui poderá estar em a água produzir e sistematicamente acumular matéria orgânica, para que os solos possam absorver e reter a maior parte da baixa precipitação. A construção de terraços de terra, protegidos por rochas, retém a água e reduz a erosão do solo. Árvores leguminosas plantadas como barreiras contra o vento reduzem a erosão eólica e acrescentam nitrogênio e matéria orgânica ao solo.

A situação hídrica mundial hoje é semelhante a das terras cultivadas em meados do século passado: as oportunidades para se desenvolver novos suprimentos estão desaparecendo aceleradamente. Em 1950, as fronteiras de assentamentos agrícolas já haviam se esmaecido em grande parte, restando pouca terra produtiva a lavrar. Em resposta, governos se lançaram num esforço amplo para elevar a produtividade do solo, incluindo: preços mínimos para produtos agrícolas que encorajaram os agricultores a investir em insumos para elevar a produtividade; melhorias do solo; grandes inversões públicas em pesquisa agrícola para elevar a produtividade das lavouras; e a criação de instituições públicas para dar apoio a tamanho esforço _ desde serviços de extensão agrícola até bancos de crédito agrícola. A sociedade mobilizou uma vasta gama de recursos que duplicaram a produtividade do solo entre 1950 e 1984.


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A duplicação da produtividade das áreas de grãos em pouco mais de uma geração é um dos notáveis feitos científicos da era moderna. Ao se iniciar um novo século, um esforço semelhante de base ampla será necessário para elevar a produtividade hídrica. Há vários caminhos para aumentar a produtividade hídrica, mas a chave é cobrar pela água um preço próximo ao seu valor de mercado, um passo que levará a avanços sistêmicos de eficiência. A China, enfrentando uma escassez aguda de água, anunciou recentemente um plano para aumentar os preços anualmente, ao longo dos próximos cinco anos. A atratividade da tarifação conforme o valor de mercado deve-se ao fato de ser sistêmica e promover o uso mais racional da água por toda a economia.

Com 70% da água que é desviada dos rios ou bombeada do subsolo sendo usada para irrigação, quaisquer ganhos de eficiência com a água de irrigação têm benefícios que vão muito além da agricultura. De fato, suprir cidades e indústrias com água suficiente e, ao mesmo tempo, sustentar a produção de alimentos talvez só seja possível se a produtividade da irrigação for sistematicamente elevada mundialmente.33

O uso eficiente da água na irrigação é a chave. Há muitos meios de irrigar a lavoura, incluindo sulco, inundação, aspersão e gotejamento. Irrigação por sulcos, provavelmente a forma mais antiga, consiste na condução da água em pequenos canais, ou sulcos, paralelos às fileiras do plantio. Irrigação por inundação, aplicada tradicionalmente no arroz, está sendo hoje reavaliada, uma vez que pesquisas recentes demonstraram que, em algumas situações, a inundação periódica produz o mesmo resultado que a inundação contínua e consome menos água.34

Irrigação por aspersão, largamente utilizada na região das Grandes Planícies, nos Estados Unidos, é freqüentemente realizada com água subterrânea. Os círculos verdes cultivados, que podem ser vistos quando se sobrevoa essa região durante o verão, são criados com água de aspersores de pivô central que utilizam água de poços. (Nessa região, a maior parte da água é retirada do aqüífero Ogallala _ essencialmente um aqüífero fóssil, uma vez que sua recarga é limitada.) Trocar um sistema de aspersão de alta pressão por outro de baixa pressão poderá incrementar a eficiência da irrigação de 65 para 80%. E a mudança para um sistema de precisão de baixa energia poderá elevá-la para 90% ou mais.35

A tecnologia de irrigação por gotejamento, introduzida em Israel, é o sistema de irrigação mais eficiente de todos. Caracteristicamente


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utiliza uma mangueira plástica com pequenos orifícios, ou emissores, que ficam ao nível do solo ou alguns centímetros abaixo. Sandra Postel e suas colegas informam que estudos em vários países constataram que a irrigação por gotejamento reduz o consumo de água de 30 a 70%. E, ao proporcionar um suprimento constante de água, cuidadosamente ajustado às necessidades da lavoura, eleva a produção de 20 a 90%. A combinação de uso reduzido de água e maior produção pode facilmente dobrar a produtividade hídrica, o que é uma perspectiva bem atraente.36

No passado, essa forma de irrigação de alto custo, intensiva em mão-de-obra, só era aplicada em culturas de alto valor, como frutas e legumes. Mas isso está mudando. Novos sistemas de baixo custo, desenhados especificamente para pequenas propriedades, caracteristicamente com um prazo de retorno de um ano, estão abrindo novos e amplos horizontes para expansão. Por serem intensivos em mão-de-obra, esses sistemas são bem adaptados a pequenas propriedades, onde a mão-de-obra é mais abundante. Postel relata que a Índia possui cerca de 10 milhões de hectares que podem ser irrigadas lucrativamente com sistemas de gotejamento. Pode haver um potencial semelhante na China.37

Outra forma de elevar a produtividade hídrica é mudar para culturas mais eficientes em termos de água. Por exemplo, o trigo caracteristicamente produz 50% mais de grãos por unidade de água do que o arroz. É por isso que o Egito restringe o plantio do arroz em favor do trigo.38

Em termos gerais, quanto maior a rentabilidade de uma lavoura, mais produtivo é o uso da água. Por exemplo, uma cultura de arroz que rende quatro toneladas por hectare utiliza pouco mais água do que outra que rende duas toneladas por hectare, simplesmente porque grande parte da água utilizada para produzir arroz se perde por evaporação. Em termos simples, a elevação da produtividade do solo também eleva a produtividade da água.

Reestruturando a Economia Protéica

A demanda por carne _ bovina, suína, caprina e de aves _ aumenta caracteristicamente junto com a renda, movida talvez pela preferência pela carne, adquirida durante nossos 4 milhões de anos de caçadores e colhedores. Essa fome inata de proteína animal, que se manifesta em toda sociedade, vem incrementando a demanda mundial pela carne há


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40 anos consecutivos. Como uma das tendências mais previsíveis da economia global, a produção mundial de carne aumentou de 44 milhões de toneladas em 1950 para 233 milhões em 2000, um aumento mais que quíntuplo. (Vide Figura 7_3.) Esse crescimento, cerca do dobro do aumento populacional, elevou a absorção per capita de carne em todo mundo, de 17 para 38 quilos.39

Quando os limites dos pastos e pesqueiros forem atingidos, então a demanda crescente por proteína animal terá que ser satisfeita através da alimentação do gado em confinamento e dos peixes na piscicultura; através do aumento da produção de carne de porco, de aves e de ovos, todas altamente dependentes de rações concentradas; ou através de uma maior produção de leite.

Nessa nova situação, a eficiência diversificada com a qual os grãos estão sendo transformados em proteína _ carnes de boi, porco, aves e peixes _ está determinando as tendências de produção. O gado confinado requer aproximadamente 7 quilos de ração concentrada por quilo adicional de peso "em pé". Nos suínos, a relação é quase de 4 para 1. Frangos são muito mais eficientes, com uma relação de 2 para 1. Os peixes, inclusive as espécies herbívoras e onívoras, requerem menos de 2 quilos de grãos concentrados por quilo de ganho.40

Existem três maneiras de aumentar o fornecimento de proteína animal sem consumo maior de grãos: melhorar a eficiência da conversão de grãos em proteína animal; sair de formas menos eficiente de conversão, como carnes bovinas e suínas, para se concentrar nas mais eficientes, como aves ou peixes cultivados; e contar com os ruminantes para a conversão de maior quantidade de forragem em carne ou leite.

Não é surpresa, então, que a ciência econômica das diversas taxas de conversão esteja acelerando o aumento da produção entre os conversores mais eficientes. As áreas de confinamento existentes no mundo estão sendo mantidas, mas há pouco investimento devido basicamente ao alto custo. Entre 1990 e 2000, a produção mundial de carne bovina aumentou apenas 0,5% ao ano, comparado com 2,5% na carne suína. A fonte de carne com maior crescimento durante esse período foi o frango, registrando 4,9% anuais. (Vide Tabela 7_3.)41

O pescado oceânico não aumentou significativamente desde 1990, ficando assim bem atrás da demanda disparada por frutos do mar. Em contrapartida, a produção da aquacultura ampliou-se de 13 milhões de


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Figura 7-3. Produção Mundial de Carne, 1950-2000

toneladas de peixes em 1990, para 31 milhões de toneladas em 1998, crescendo mais de 11% ao ano. Mesmo que o aumento da aquacultura desacelere durante esta década, sua produção ainda deverá superar a produção de carne bovina até 2010.42

A China é líder na aquacultura, responsável por 21 milhões de toneladas da produção mundial em 1998. Sua produção está dividida eqüitativamente entre áreas costeiras e internas. Na produção costeira, predominam os crustáceos _ principalmente ostras, amêijoas e mexilhões. Também inclui pequenas quantidades de camarões, pitus e alguns peixes de barbatana. A aquacultura costeira é, quase sempre, prejudicial ao meio ambiente por depender da conversão de brejos em criatórios ou pela concentração de resíduos, causando eflorescências danosas de algas.43

Com exceção dos crustáceos, a maior parte da produção da aquacultura chinesa provém de lagoas, lagos, reservatórios e arrozais no interior do país. Cerca de 5 milhões de hectares de terra são dedicados exclusivamente à piscicultura, na maioria à policultura da carpa. Além disso, 1,7 milhões de hectares de arrozais produzem o arroz e o peixe conjuntamente.44

Ao longo do tempo, a China evoluiu uma policultura de peixes através de quatro tipos de carpa que se alimentam em níveis diferentes da cadeia alimentícia, emulando efetivamente os ecossistemas aquáticos naturais. A carpa prateada e a cabeça-grande se alimentam de


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Tabela 7-3. Crescimento Mundial da Produção

de Proteína Animal, for Fonte, 1990-2000

Fonte Taxa de Crescimento Anual (percentual)


Aquacultura

Carne de Aves

Carne suína

Carne bovina

Pescado oceânico1

11,4

4,9

2,5

0,5

0,1


1 1990-98 apenas.

Fonte: Vide nota final 41.

fitoplâncton e zooplâncton respectivamente. A carpa-capim, como o nome indica, se alimenta principalmente de vegetação, enquanto a carpa comum se alimenta de detritos que se assentam no fundo. Grande parte da aquacultura da China está integrada à agricultura, permitindo que os agricultores utilizem os resíduos agrícolas, como esterco de porco, para fertilizar as lagoas, estimulando o crescimento de plâncton. A policultura pesqueira, que incrementa a produtividade das lagoas sobre monoculturas em pelo menos a metade, também domina a piscicultura na Índia.45

À medida que escasseiam tanto a água quanto a terra, os piscicultores chineses aumentam a alimentação de concentrados de grãos a fim de elevar a produtividade das lagoas. Entre 1990 e 1996, os agricultores chineses incrementaram a produtividade anual das lagoas de 2,4 para 4,1 toneladas de peixe por hectare.46

Nos Estados Unidos, o bagre americano, que requer menos de 2 quilos de ração por quilo de peso, é o peixe-líder da aquacultura. A produção norte-americana de 270.000 toneladas está concentrada em quatro estados: Mississipi, Louisiana, Alabama e Arkansas. O Mississipi, com cerca de 45.000 hectares de lagoas de bagre e 60% da produção nacional, é a capital mundial do bagre. 47

A atenção pública tem se focado nas operações de aquacultura nocivas ao meio ambiente, como a cultura do salmão, espécie carnívora, e do camarão. Entretanto, essas operações representam apenas 1,5 milhões de toneladas de produto. A aquacultura mundial é dominada


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por espécies herbívoras, mais particularmente a carpa na China e Índia, e também o bagre nos Estados Unidos e tilápia em vários países.48

Da mesma forma que a aquacultura complementa o pescado, novas práticas estão evoluindo para uma expansão eficiente da pecuária. Embora as pastagens estejam exploradas ao limite, e além, ainda há um grande potencial inaproveitado para o uso de resíduos agrícolas _ palha de arroz e trigo e talos de milho _ na alimentação de ruminantes, como o gado bovino, caprino e ovino. Isso poderá significar que uma determinada cultura de grãos pode gerar uma segunda colheita _ da carne ou do leite que será produzido com palhas e talos. Os ruminantes possuem um sistema digestivo altamente sofisticado, que pode transformar a palha e os talos em carne e leite, sem uso de grãos que podem ser usados para consumo humano. No momento, a maior parte da alimentação humana advém do fotossintato contido nas sementes dos cereais, porém, ao alimentar os animais com palha e talos de milho, o fotossintato que vai para o talo e folhas também pode ser convertido em alimento.49

Na Índia, tanto os búfalos d'água, particularmente eficientes na conversão de resíduos agrícolas em leite, quanto o gado bovino se destacam no setor de laticínios. A Índia tem alcançado um sucesso singular na transformação de resíduos agrícolas em leite, ampliando a produção de 20 milhões de toneladas em 1961 para 79 milhões em 2000 _ um aumento quase quádruplo. Seguindo um crescimento constante, o leite se tornou o principal produto agrícola indiano, em termos de valor, em 1994. Em 1997, suplantou os Estados Unidos, tornando-se líder mundial na produção de leite. (Vide Figura 7_4.) Extraordinariamente, conquistou essa posição utilizando exclusivamente subprodutos e resíduos agrícolas, evitando o desvio de grãos do consumo humano para o gado.50

Entre 1961 e 2000, a produção per capita de leite na Índia aumentou de 0,9 litros por semana, para 1,5 litros, ou cerca de uma xícara de leite por dia. Embora não seja um alto nível de consumo pelos padrões ocidentais, é uma ampliação animadora num país carente de proteínas.51

A estrutura indiana no setor de laticínios é singular, com o leite sendo produzido quase que exclusivamente por pequenos agricultores que possuem apenas de uma a três vacas. A produção leiteira está integrada à agricultura, envolvendo cerca de 70 milhões de agriculto


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Figura 7-4. Produção de Leite nos Estados Unidos e Índia, 1961-2000

res, para os quais é uma valiosa fonte de renda suplementar. A atividade, mesmo em pequena escala, é um processo intensivo em mão-de-obra, incluindo coleta dos resíduos nos locais de engorda das vacas, ordenha e transporte do leite para o mercado. A posse de algumas vacas ou búfalas também significa um suprimento de esterco como combustível de cozinha e adubo. Caso a Índia consiga introduzir novas fontes de energia para a cozinha, liberará mais esterco de vaca para adubo.52

A China também tem um grande potencial para alimentar os gados bovinos e ovinos com talos de milho e palha de arroz e trigo. Como produtor mundial de arroz e trigo, e segundo produtor de milho, esse país colhe anualmente cerca de 500 milhões de toneladas de palha, talos e outros resíduos agrícolas. Atualmente, grande parte disso é simplesmente queimada, como forma de se desfazer dela, ou utilizada nos povoados como combustível. Felizmente, a China possui imensos recursos eólicos que podem ser explorados para produzir eletricidade para cozinhar e, dessa forma, liberar os resíduos agrícolas para alimentar os animais.53

A amoniação dos resíduos agrícolas (ou seja, a incorporação de nitrogênio) na matéria seca ajuda a flora microbiana no rume dos bovinos e ovinos para digestão mais completa dos resíduos. O uso dessa tecnologia nas principais províncias agrícolas da região Centro-Leste da China _ Hebei, Shandong, Henan e Anhui _ criou um "Cinturão da


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Carne." A produção de carne nessas quatro províncias suplanta hoje a das províncias pecuaristas da Mongólia Central, Qinghai e Xinjiang.54

Os ruminantes também produzem esterco enriquecedor do solo que não apenas devolve os nutrientes ao solo, mas também acrescenta matéria orgânica, melhorando tanto sua aeração quanto capacidade retentora de água e conseqüentemente incrementando a produtividade do solo. Sistemas pecuários baseados na matéria seca são basicamente de natureza local, por causa do volume dos resíduos e sua dificuldade de transporte.

Satisfazer a demanda por proteína num mundo carente delas, onde a escassez hídrica deverá significar escassez de grãos, é um desafio para as políticas agrícolas mundiais. Se os grãos escassearem, como hoje parece muito provável, outros países, como Estados Unidos, Canadá e França, poderão seguir o exemplo da Índia de utilizar os ruminantes para a conversão sistemática de resíduos agrícolas em alimentos.

A Erradicação da Fome: Uma Estratégia Ampla

Este capítulo começou observando que, para a sustentação de um crescimento adequado da produção de alimentos para erradicação da fome, exigirá um esforço sobre-humano, tanto dentro da agricultura quanto nas atividades correlatas fora do setor. A erosão do solo, exaustão de aqüíferos e mudança climática ameaçam a produção futura de alimentos. A segurança alimentar poderá depender tanto dos esforços de planejadores familiares quanto dos agricultores, como também tanto das decisões tomadas em ministérios de energia, que determinam as futuras tendências climáticas, quanto das decisões tomadas nos ministérios de agricultura. A dificuldade da erradicação da fome só se equipara à urgência em realizá-la.

Nos países onde a área agrícola encolhe rapidamente, a elevação da produtividade do solo merece hoje ser mais priorizada do que no passado. E, cada vez mais, a elevação da produtividade hídrica é a chave para maiores ganhos de produtividade do solo. Governos que correm o risco de uma queda súbita na produção de alimentos, como resultado da exaustão de aqüíferos, só poderão evitar essa situação se simultaneamente desacelerarem o crescimento populacional e elevarem a produtividade hídrica, a fim de estabilizar os lençóis freáticos.

A estabilização populacional é tão essencial quanto difícil. Caso o crescimento populacional continue, levará à maior fragmentação do


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domínio da terra, como também à pobreza hidrológica numa escala hoje difícil de imaginar. Centenas de milhões de pessoas não terão água suficiente para atender às suas necessidades mais básicas, inclusive a produção de alimentos. O Capítulo 10 se estende mais na discussão da necessidade premente de estabilizar a população mundial.

Com a desaceleração do crescimento da produtividade do solo, o crescimento populacional contínuo torna a erradicação da fome rural muito mais difícil, senão impossível. Talvez a medida mais importante que a Índia possa adotar, por exemplo, para incrementar sua segurança alimentar futura seja acelerar a mudança para famílias menores. Isso permitiria que se deslocasse para o nível baixo da projeção populacional da ONU, em vez do nível médio, e assim acrescentar apenas 289 milhões de pessoas, em vez de 563 milhões durante os próximos 50 anos.55

À medida que encolhe o acúmulo de tecnologias agrícolas não utilizadas, a provisão de alimentos suficientes dependerá, cada vez mais, do fortalecimento da assistência internacional de pesquisa agrícola. A alocação de recursos para pesquisa agrícola está muito aquém das necessidades. Para alguns agricultores, o canal da tecnologia está secando. Mais investimentos em pesquisa agrícola que ajudem a ampliar cultivos múltiplos e intercultivos, localmente direcionados, poderão render altos dividendos.

A elevação da produtividade de grãos por hectare nas duas regiões onde se concentra a maior parte dos famintos mundiais não será fácil. A produtividade do trigo na Índia, por exemplo, já triplicou desde 1960. O aumento da rentabilidade do arroz, de pouco menos de 1 tonelada por hectare em 1965 para 1,9 toneladas em 1993, diminuiu. O aumento da produtividade do solo na Índia é limitado pela proximidade ao Equador. A duração do dia no verão é relativamente curta, e, uma vez que o arroz é cultivado caracteristicamente durante a estação de monção do verão, quando a cobertura de nuvens é espessa, a intensidade solar é baixa.56

Agora que a escassez hídrica está restringindo os esforços para a ampliação da produção mundial de alimentos, chegou o momento de um esforço total para aumentar a produtividade hídrica. Essa campanha poderia ser moldada nos esforços anteriores de elevação da produtividade do solo, envolvendo uma gama de iniciativas governamentais _ incluindo pesquisa sobre aumento de produtividade, tarifação da água para refletir seu valor, empréstimos governamentais para agricul


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tores elevarem a produtividade hídrica e treinamento de agentes de extensão rural para ajudar os agricultores nesse esforço.

À medida que a escassez hídrica se transforma em escassez alimentar, todos os países precisarão reexaminar o potencial do cultivo múltiplo. Esse é o caso específico de um país como os Estados Unidos, onde os limites das áreas agrícolas tradicionalmente desencorajam o cultivo múltiplo.

Na Índia, a área de cultivo múltiplo pode ser ampliada, através da coleta e armazenagem da água durante a época de monção, para que uma maior extensão de terra possa ser cultivada durante a estiagem. Se os agentes de extensão rural forem treinados em técnicas de coleta de água, poderão ajudar os agricultores locais a aumentar seu armazenamento. Isso ajudará a elevar a produtividade por safra, como também as colheitas anualmente.

Com as terras escasseando, serão necessários esforços para proteger áreas nobres mundialmente. Aqui, o modelo é o Japão. Conseguiu proteger os arrozais mesmo dentro dos limites de Tóquio, permitindo assim que o país permanecesse auto-suficiente em seu alimento básico _ o arroz.

O mesmo ocorre com a conservação do solo: com a erosão hoje causando um prejuízo sensível à produção de alimentos em tantos países, a adoção de práticas agrícolas que reduzam a erosão do solo trará altos benefícios. O modelo são os Estados Unidos, que tanto converteram terras agrícolas altamente erodíveis de volta a pastagens como adotaram práticas conservacionistas para reduzir a erosão. A conversão dessas áreas em pastos ou matas, juntamente com a adoção de lavras conservacionistas em 37% de todas as terras agrícolas reduziram a erosão do solo de 3,1 bilhões de toneladas em 1982 para 1,9 bilhão em 1997.57

Outro potencial para a ampliação da produção de alimentos, e que tem sido negligenciado em muitos países industrializados, é a alimentação de ruminantes com resíduos agrícolas, como descrito anteriormente. Isso poderá reduzir a pressão sobre os pastos, como ocorreu na Índia e na China. Esse potencial de uma segunda colheita de uma única safra precisa ser explorado sistematicamente em todo o mundo.

Reconhecendo que a má nutrição é, em grande parte, conseqüência da pobreza rural, o Banco Mundial está substituindo suas estratégias tradicionais de desenvolvimento agrícola, centradas no cultivo, por es


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tratégias de desenvolvimento rural que adotem uma abordagem bem mais abrangente. Os planejadores do Banco acreditam que uma abordagem mais sistêmica para a erradicação da pobreza rural _ que englobe a agricultura, mas também que integre o desenvolvimento do capital humano, o desenvolvimento de infra-estrutura e o desenvolvimento social, numa estratégia de desenvolvimento rural _ será necessária para reduzir o número daqueles que vivem na pobreza. Uma das vantagens de encorajar investimentos no campo, tanto em agronegócios quanto em outras indústrias, é o incentivo para os chefes-de-família permanecerem no campo, mantendo o lar e a comunidade intactos. Na ausência dessa estratégia, a pobreza rural simplesmente alimenta a pobreza urbana.58

Em países como a Índia, onde a área agrícola está encolhendo, se torna mais difícil elevar a produtividade do solo o suficiente para fornecer nutrição adequada. O desafio nessas áreas é mobilizar o capital, tanto através da poupança interna quanto pela atração de investimentos externos para construir as fábricas necessárias à geração de emprego e renda em áreas rurais. Isso ajudará as famílias rurais e comunidades a permanecerem juntas. Para isso, o modelo é a China, que conseguiu altos níveis de poupança e atraiu volumes recordes de capital estrangeiro.59

Outra iniciativa no lado da demanda, além da estabilização do crescimento populacional, é que os ricos se alimentem mais abaixo na cadeia alimentícia. As pessoas mais bem nutridas do mundo não são aquelas que estão no nível inferior da cadeia alimentícia, como os indianos, que consomem cerca de 200 quilos de grãos por ano, ou aquelas no nível alto da cadeia, como os americanos que consomem cerca de 800 quilos de grãos por ano, principalmente sob a forma de produtos pecuários, são as pessoas que estão no nível intermediário, como os italianos, que consomem 400 quilos de grãos por ano. A expectativa de vida na Itália _ um país com a afamada dieta mediterrânea (rica em amidos, frutas e legumes secos, e apenas quantidades moderadas de produtos pecuários) _ excede a da Índia e dos Estados Unidos. Mesmo com os Estados Unidos gastando mais, per capita, no tratamento da saúde do que a Itália, a expectativa de vida neste último é maior, aparentemente devido a um consumo menor de produtos pecuários. Para aquelas pessoas que vivem no nível alto da cadeia alimentícia, o deslocamento para um nível mais moderado melhoraria não apenas a sua


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saúde, mas também a saúde do planeta.60

Meio século atrás, ninguém se preocupava com a mudança climática. Mas se hoje não pudermos acelerar a eliminação gradativa dos combustíveis fósseis, eventos climáticos mais extremos poderão destruir a produção de alimentos, ameaçando a segurança alimentar. Uma das grandes preocupações é a elevação do nível do mar, que poderá inundar as planícies ribeirinhas da Ásia, que produzem a maior parte do arroz da região. A elevação do nível do mar durante o último século, de 20 centímetros ou mais, já está afetando algumas regiões costeiras baixas. Se o nível do mar se elevar em 1 metro durante este século, a projeção mais alta causará grandes perdas na produção de alimentos, especialmente na Ásia. Aqui o maior responsável são os Estados Unidos, um país cujas emissões de carbono são tão gigantescas que pode sozinho alterar o clima da Terra. Caso os Estados Unidos não assumam um papel de liderança na eliminação gradativa dos combustíveis fósseis, o esforço global para a estabilização do clima seguramente fracassará.61

Com o grande número de países enfrentando escassez aguda de terra e água e esperando importar quantidades cada vez maiores de grãos, os países exportadores terão que aumentar a produção para cobrir as necessidades da importação. Ao longo do último meio século, as fileiras crescentes de países importadores de grãos, que chegam hoje a 100, se tornaram perigosamente dependentes dos Estados Unidos.62

Essa concentração de dependência se aplica a cada um dos três principais grãos _ trigo, arroz e milho. Apenas cinco países _ Estados Unidos, Canadá, França, Austrália e Argentina _ são responsáveis por 88% das exportações mundiais de trigo. Tailândia, Vietnã, Estados Unidos e China representam 68% de todas as exportações de arroz. No milho, a concentração é ainda maior, com só os Estados Unidos responsáveis por 78% das exportações e a Argentina por 12%.63

Com a perspectiva de eventos climáticos mais extremos, essa dependência em poucos países exportadores deixam os importadores vulneráveis à mudança climática. Caso os Estados Unidos sofressem um verão de calor e seca intensos no coração de sua região agrícola, como aquele de 1988, quando a produção de grãos caiu abaixo do consumo interno pela primeira vez na história, reinaria o caos nos mercados mundiais de grãos, simplesmente porque as reservas recordes, que compensaram a gigantesca frustração de safra daquele ano não mais existem.64


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Uma das causas principais da fome é a indiferença de governos, uma atitude que se evidencia freqüentemente nas suas prioridades. A Índia hoje está pagando o preço por suas indiscrições anteriores quando, apesar do seu estado empobrecido, investiu num esforço dispendioso para produzir armas nucleares. Gastando três vezes mais para fins militares do que para a saúde e planejamento familiar, a Índia agora possui um arsenal nuclear capaz de proteger a maior concentração de pessoas famintas da Terra.65

A menos que os líderes políticos estejam dispostos a adotar as medidas complexas para criar uma eco-economia agrícola, palavras bonitas sobre a erradicação da fome não têm significado algum. Se os líderes mundiais não agirem com energia, a situação alimentar poderá deteriorar rapidamente em alguns países em desenvolvimento. O risco que correm os países importadores de grãos de baixa renda é o aumento dramático dos preços dos grãos, empobrecendo um maior número de pessoas num menor período de tempo do que qualquer outro evento na história. O alastramento da insegurança alimentar poderá levar à instabilidade política, numa escala que destruirá o avanço econômico global.


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8


Protegendo os Produtos

e Serviços Florestais

No verão de 1998, a bacia do Yangtzé, na China, sofreu a maior enchente da história. Cerca de 120 milhões de pessoas foram desabrigadas pelas águas. Comprovadamente, 3.656 pessoas morreram. A inundação recorde _ com prejuízos atingindo US$ 30 bilhões _ ocorreu num ano quando as chuvas, embora bem acima da média, nem chegaram perto de um recorde. A grande diferença em relação aos anos de igual precipitação foi a perda florestal. Em 1998, a bacia do Yangtzé já havia perdido 85% de sua cobertura original, restando pouco para absorver as chuvas de monção, acima do normal.1

Embora tenha sido tarde demais para evitar o desmatamento maciço, em agosto de 1998, as autoridades chinesas anunciaram a imposição de uma proibição total de derrubadas na região superior da bacia hidrográfica. Uma alta autoridade observou que árvores de pé valiam três vezes mais que árvores cortadas. As madeireiras estatais que derrubavam as matas foram transformadas em organizações reflorestadoras. Como assinalou um funcionário, "Chegou a hora de colocar o machado de lado e pegar na enxada."2

Uma vez que o desmatamento aumenta o risco de inundações, acelera a erosão do solo, inibe a recarga de aqüíferos e dizima a vida


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vegetal e animal, afeta diretamente várias outras tendências que estão determinando nosso futuro. Embora não dependamos tão universalmente das florestas para lenha como outrora, elas ainda fornecem material para construirmos nossas casas e fabricarmos o papel, que continua sendo o principal meio de comunicação. Além disso, 2 bilhões de pessoas dependem das florestas para seu combustível.3

Desde os primórdios da agricultura, o mundo já perdeu quase a metade de suas florestas. Grande parte da perda ocorreu durante o último século. Embora alguns países, individualmente, tenham revertido a maré de perda florestal, a área mundial continua a encolher. À medida que ela diminui, também se reduzem as perspectivas da humanidade.4

Combustível, Madeira e Papel

Em 2000, a área florestal da Terra cobria cerca de 3,9 bilhões de hectares, ou aproximadamente 30% da superfície do planeta, mas, a cada ano, a cobertura florestal mundial encolhe. Entre 1990 e 2000, a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimento e Agricultura) divulgou uma perda líquida de 94 milhões de hectares. Os países em desenvolvimento perderam 130 milhões de hectares, enquanto os países industrializados ganharam 36 milhões de hectares. Os ganhos deveram-se em grande parte à conversão de terras agrícolas abandonadas em florestas.5

Enquanto as terras agrícolas se transformavam em florestas nos países industrializados, as florestas dos países em desenvolvimento se convertiam em áreas de cultivo, pastos e agreste. Os 13 milhões de hectares de florestas perdidas nos países em desenvolvimento, anualmente, equivalem a 0,65% de sua área florestal. Em outras palavras, a cada três anos, os países em desenvolvimento perdem 2% de suas florestas.6

Essas estimativas de perda florestal da FAO são substanciais, todavia não dão uma idéia precisa da plena extensão do desmatamento. A definição de floresta, segundo a FAO, é uma cobertura de copa arbórea sobre mais de 10% de uma área _ uma margem que inclui como floresta o que é às vezes classificado como tundra, savana, capoeira ou até mesmo deserto. Outra falha dos dados da FAO é que as áreas de colheita contam como floresta até que sejam permanentemente convertidas para outro uso. Assim, pode parecer que o ritmo de desmatamento mundial esteja desacelerando, todavia imagens recen


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tes de satélite e relatórios nacionais revelam que a verdade é justamente o contrário.7

Historicamente, as florestas eram manejadas pelo corte seletivo, com a remoção apenas de árvores adultas e de alto valor. Sob esse sistema, a área florestal se mantinha extraordinariamente estável, encolhendo apenas quando a terra era convertida para a agricultura ou outro uso não-florestal. Nas últimas décadas, com novas tecnologias madeireiras e máquinas possantes que podem "moer" florestas como os agricultores moem feno, a derrubada se tornou muito mais econômica como técnica de cultivo particularmente, uma vez que os custos ambientais são desprezados.8

A colheita mundial de madeira em 1999 totalizou 3,28 bilhões de metros cúbicos, ou um pouco mais de 0,5 metro cúbico per capita. Cerca de 53% disso foi utilizado como combustível, suprindo as 2 bilhões de pessoas no mundo que dependem da madeira para cozinhar. Nos países em desenvolvimento, a madeira consumida como combustível representou 80% de toda a madeira colhida.9

Mundialmente, a madeira é responsável por 7% do suprimento de energia. Nos países em desenvolvimento, representa 15% do total, comparado com apenas 3% nos países industrializados. Dos cerca de 1,5 bilhão de metros cúbicos de madeira colhida e não utilizada como combustível, quase um terço é utilizado para fabricar papel e papelão. E mais de um quarto é serrado em tábuas. Painéis de madeira, freqüentemente fabricados com madeira reconstituída, representam cerca de um décimo do total não consumido como combustível.10

O segmento de papel da economia mundial de madeira é o de crescimento mais acelerado. Entre 1980 e 1999, o uso mundial de papel aumentou 86%, ou 3,3% ao ano. Com um total de quase 317 milhões de toneladas em 1999, isso representou 52 quilos por pessoa no mundo. (Vide Tabela 8 _ 1.)11

As pesquisadoras do Worldwatch, Janet Abramovitz e Ashley Mattoon, observam que quase metade desse papel foi utilizado para embalagem. Cerca de 30% foram utilizados para imprimir e escrever e 12% para papel de jornal. Toalhas e lenços de papel ficaram com o restante.12

Olhando para o futuro, as últimas projeções da FAO mostram o consumo de lenha aumentando para 2,35 bilhões de metros cúbicos em 2015, e então se estabilizando à medida que uma maior eficiência


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Tabela 8-1. Consumo Mundial de Papel, por País, 1999

País Consumo Consumo per Capita (mil toneladas) (quilos)


95,829

44,677

30,482

17,592

11,871

10,844

10,236

7,960

7,044

6,642

243,177

73,499

316,676

338

35

240

214

200

183

178

259

41

142

111

19

52

Estados Unidos

China

Japão

Alemanha

Reino Unido

França

Itália

Canadá

Brasil

Coréia do Sul

10 Maiores Consumidores

Outros

Total Mundial





Fonte: FAO, FAOSTAT Statistics Database, <apps.fao.org>, dados atualizados em 7/2/01.

na queima da madeira compensa o crescimento da demanda de lenha. Para outros usos, a FAO estima que o consumo atingirá 2 bilhões de metros cúbicos em 2015 e 2,4 bilhões em 2030.13

Nas décadas futuras, a demanda crescente por produtos de madeira e a demanda pela conversão de florestas, tanto para a agricultura quanto para pecuária, continuarão a intensificar as pressões nas florestas da Terra. Caso as tendências recentes de desmatamento continuem, tanto a perda de capacidade produtiva das florestas como (e talvez mais importante) a perda dos serviços-chave que as florestas prestam poderão conturbar as economias locais em alguns países.

Serviços Florestais

Estamos todos familiarizados com os bens que as florestas fornecem, como já descrito. Entretanto, sabemos pouco dos serviços que elas prestam. Os mais destacados dentre eles são a regulagem do clima, controle de enchentes, conservação do solo, ciclo hídrico, armazenamento de nutrientes e reciclagem, e recreação _ todos formando uma parcela fundamental dos sistemas de apoio de qualquer economia.


Protegendo os Produtos e Serviços Florestais

Tabela 8-2. Principais Serviços Prestados pelas Florestas

Serviço Valor Anual

por Hectare

(dólares)


Regulagem do Clima

Controle de Erosão

Armazenamento de nutrientes e reciclagem

Recreação

Outros

Total

141

96

361

66

305

969


Fonte: Vide nota final 14

Num artigo marcante na revista Nature, em maio de 1997, Robert Costanza e 12 colaboradores estimaram que os ecossistemas da Terra proporcionam US$ 33 trilhões de serviços por ano _ apenas ligeiramente abaixo dos US$ 43 trilhões de bens e serviços fornecidos pela economia global. Desse total, Costanza e seus co-autores estimaram que as florestas mundiais fornecem US$ 4,7 trilhões de serviços, ou US$ 969 por hectare por ano. (Vide Tabela 8 _ 2.) Isso se compara a, aproximadamente, US$ 800 de milho produzido por hectare ao ano no Cinturão do Milho dos Estados Unidos, uma das regiões agrícolas mais produtivas do mundo.14

Embora a análise da equipe de Costanza seja impressionante, ela omite um dos serviços mais valiosos prestados pelas florestas _ notadamente, seu papel na reciclagem das chuvas para o interior dos continentes, tornando-o produtivo e habitável. Se continuarmos a destruir as florestas costeiras, os desertos interioranos dos continentes continuarão a se expandir, empurrando a humanidade para áreas cada vez menores.

Freqüentemente descobrimos os serviços que as florestas prestam quando já é tarde demais, após as árvores terem sido derrubadas. Como no controle de enchentes, como a China, Tailândia e Moçambique tão tardiamente descobriram.15

As florestas também armazenam nutrientes. Isso é particularmente importante nos trópicos, onde quase todos os nutrientes dos ecossistemas florestais são armazenados na própria vegetação. Muitos


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solos tropicais contêm pouca matéria orgânica e quase nenhuma capacidade de armazenamento de nutrientes. Se uma floresta for queimada para pecuária ou agricultura, qualquer que seja o plantio se dará bem nos primeiros anos devido aos nutrientes contidos nas cinzas. Mas, logo que as cinzas se vão, como imediatamente acontece, os nutrientes desaparecem. É por isso que grande parte das terras queimadas para plantio nos trópicos em pouco tempo se transformam em áreas agrestes e são abandonadas.

As florestas tropicais úmidas são ecossistemas altamente produtivos, convertendo eficientemente a luz solar em matéria vegetal. Mas só podem fazê-lo enquanto continuam intactas. Assim que são destruídas, levam séculos para se regenerarem. E algumas nunca se recuperam _ simplesmente porque as condições existentes na época da sua formação original não existem mais.

As florestas ajudam a controlar a erosão adicionando matérias orgânicas ao solo e reduzindo o fluxo de escoamento da água. A folhagem no chão protege o solo da fragmentação pelos pingos da chuva, criando um elo firme entre vegetação e solo. A vegetação florestal permite que o solo se acumule e evite ser levado pela água. O solo acumulado, por sua vez, proporciona um meio sadio para a floresta se desenvolver. Nessa simbiose, a perda da floresta às vezes significa perda do solo, que poderá, por sua vez, impedir o retorno da floresta.

A capacidade das florestas de reduzir o escoamento da água da chuva, deixando-a infiltrar-se, também significa que as florestas desempenham um papel de destaque no ciclo hidrológico. Recarregam aqüíferos, os rios subterrâneos que fornecem água para os poços a jusante. Quanto mais água escorrer durante a chuva, menos restará para recarregar os aqüíferos. Assim, a perda da cobertura florestal leva a uma perda dupla _ maior dano de enchentes e menor recarga de aqüíferos.

As florestas também purificam a água. Walt Reid, da Millenium Ecosystem Assessment, observa que, "nos Estados Unidos, mais de 60 milhões de pessoas em 3.400 comunidades dependem das terras da Floresta Nacional para obterem água potável, um serviço que vale aproximadamente US$ 3,7 bilhões anuais". Diante disso, assinala que esse único serviço, dentre muitos prestados pelas florestas nacionais, vale mais do que a colheita anual de madeira dessas terras.16

Nova York, com uma população de quase 17 milhões, descobriu


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recentemente quão valiosos são os serviços da natureza. Diante de empreendimentos residenciais e industriais na região da floresta de Catskill, manancial que fornece sua água, a cidade constatou que necessitaria de instalações de tratamento no valor de US$ 8 bilhões _ para construir _ e US$ 300 milhões ao ano para operar. Essa conta atingiria US$ 11 bilhões ao longo de 10 anos. Após analisar a situação, as autoridades municipais concluíram que poderiam recuperar a bacia hidrográfica por apenas US$ 2 bilhões, evitando, assim, a necessidade de instalações de tratamento e poupando os contribuintes de um gasto de US$ 9 bilhões.17

Como mencionado no Capítulo 3, as florestas também ajudam a transportar água para as regiões interioranas dos continentes. A reciclagem reduzida da água da chuva para o interior já está evidente na China. Desmatamentos nas regiões sul e leste do país reduziram a umidade transportada da Baía de Bengala, do Sul e Leste do Mar da China e do Mar Amarelo para o interior, observa Wang Hongchang, Fellow da Academia de Ciências Sociais da China. O nível de precipitação na região interiorana do noroeste está caindo, contribuindo para as nuvens de poeira que já se desenvolvem lá. A região desértica da Ásia Central se estende do noroeste da China para o norte e oeste, através do Casaquistão. O deserto se expande do interior do continente para o noroeste no Casaquistão e para o sul e leste na China. Na realidade, de 1980 para cá, o Casaquistão perdeu a metade meridional de suas terras agrícolas.18

O mesmo fenômeno se observa na África, como observado anteriormente. Tanto as pastagens quanto as terras cultivadas estão se transformando em desertos na borda norte do Deserto do Saara. A Argélia hoje se empenha para converter os 20% da sua área de grãos no extremo sul em pomares e vinhedos, num esforço para conter a desertificação que se estende para o norte. E, na Nigéria, o deserto se espalha para o sul, invadindo pastagens e terras cultivadas.19

Um estudo da NASA, que faz parte do Sistema de Observação da Terra, revelou que o Lago Chad, na África, encolheu de 25.000 quilômetros quadrados em 1963 para 1.350 quilômetros quadrados hoje. Menores índices pluviométricos na região central do Sahel são a principal causa do encolhimento, embora temperaturas mais altas e desenvolvimento da irrigação, que desvia a água dos rios alimentadores do lago, também contribuam. À medida que o desmatamento aumenta


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nas regiões costeiras de alto índice pluviométrico e no próprio Sahel, a capacidade de a terra reciclar água para o interior do continente diminui.20

As florestas também têm um efeito estabilizador no clima local, modulando as flutuações de temperatura mais extremas do dia para a noite, como ocorre nos desertos. Armazenam imensas quantidades de carbono que de outra forma estariam na atmosfera sob a forma de dióxido de carbono, contribuindo para a mudança climática. Quando as florestas são derrubadas, perde-se essa capacidade de armazenamento não apenas na vegetação acima do solo, mas também na matéria orgânica contida nas raízes e folhas secas no solo.21

Outro serviço prestado pelas florestas é a proteção contra o assoreamento de córregos e rios. No Noroeste dos Estados Unidos, por exemplo, a derrubada de florestas destruiu pesqueiros de salmão devido ao aumento do escoamento de lama. O mau manejo de um bem natural está dizimando outro.22

O assoreamento também afeta a produtividade de barragens, sejam destinadas à geração de energia ou à irrigação. À medida que assoreiam, perdem sua capacidade de armazenamento e, conseqüentemente, sua capacidade de gerar eletricidade e fornecer água para irrigação. Em casos extremos, os reservatórios se enchem de sedimentos e perde-se o investimento na barragem.23

Silvicultura Sustentável

Há muitas definições de silvicultura sustentável, a maioria tendo a ver com a produção sustentável de madeira. Uma definição mais adequada, mais abrangente e relevante inclui a capacidade de a floresta suprir, sustentavelmente, tanto produtos quanto serviços. Em muitas situações, estes últimos são muito mais importantes que os primeiros.

Apesar do alto valor das florestas intactas, apenas cerca de 290 milhões de hectares da área global de florestas estão legalmente protegidos contra a extração de madeira (Vide Tabela 8 _ 3.) Outro 1,4 bilhão de hectare está indisponível para colheita devido a restrições econômicas. Da área explorável remanescente, 665 milhões de hectares continuam sem ter sido perturbados pela ação humana e quase 900 milhões de hectares estão em estado seminatural, e não em plantações.24

Um tipo de floresta marginal, em termos econômicos, é a que fornece apenas madeira de baixa qualidade, com pouca ou nenhuma espécie comercial. Protegidas da extração de madeira devido à sua má


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Tabela 8-3. Área Florestal Mundial Disponível e Indisponível

para Fornecimento de Madeira

Classificação Área

(milhões de hectares)


Disponível para fornecimento de madeira

Seminatural

Intacta

Indisponível para fornecimento de madeira

Restrições legais

Restrições econômicas

Razões físicas

Limitações de transporte ou infra-estrutura

Outras

Total da área florestal

1,563

898

665

1,657

290

256

365

746

3,221


Fonte: Vide nota final 24

qualidade, essas florestas continuam a prestar serviços. Em outras florestas, a extração é obstaculizada unicamente por limitações físicas ou infra-estruturais.

Infelizmente, essas áreas podem, muito rápido, se tornar acessíveis a moto-serras se o setor de produtos florestais ou um governo investirem em transportes ou outra infra-estrutura.25

Uma grande parcela das florestas protegidas por decretos federais estão salvaguardadas, não tanto para preservar a capacidade de fornecimento de madeira a longo prazo, mas para assegurar que continuem a prestar serviços. Países que tomam essas medidas têm sofrido grande desmatamento. As Filipinas, por exemplo, proibiram toda a extração em florestas virgens, principalmente pela vulnerabilidade do país a enchentes, erosão e deslizamentos. Outrora com vastas extensões de florestas tropicais ricas em madeira de lei, as Filipinas eram grandes exportadoras de produtos florestais. Porém, após anos de desmatamento contínuo, o país se tornou importador de produtos florestais. Perdeu tanto os bens quanto os serviços que elas prestavam.26


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Embora algumas organizações não-governamentais (ONGs) venham se empenhando, há anos, na proteção das florestas ou restrição de sua exploração, instituições públicas como o Banco Mundial só recentemente começaram a considerar a silvicultura sustentável sistematicamente. O objetivo atual do Banco é atingir 200 milhões de hectares de florestas sob manejo sustentável em seus países clientes até 2005. Pretende atingir 50 milhões de hectares de floresta natural com alta diversidade biológica, sob proteção, até 2005.27

Para muitos proprietários de terras nos trópicos sem acesso a mercados madeireiros, as árvores são vistas simplesmente como obstáculos à agricultura ou pecuária _ algo para ser queimado ou derrubado. Não têm interesse nos bens nem nos serviços fornecidos. Essas florestas são muito difíceis de serem protegidas.

Onde produtos florestais são exportados, o acesso a mercados madeireiros pode freqüentemente ser utilizado para assegurar um manejo sustentável para as florestas. ONGs e governos, em muitos países importadores, estão exigindo que toda a madeira comercializada, incluindo tanto a produzida internamente quanto a importada, seja certificada como oriunda de florestas com manejo sustentável. (Para maiores detalhes sobre certificação de florestas, vide Capítulo 11.)

Há vários programas de certificação de produtos florestais que obtiveram sucesso variado na promoção da silvicultura sustentada. Esses vinculam os consumidores ambientalmente conscientes ao manejo da floresta de origem do produto. Alguns programas de certificação são nacionais, enquanto outros são internacionais. Alguns dos internacionais se originam em países importadores e outros, em exportadores.

O programa internacional mais rigoroso, que é certificado por várias ONGs mundialmente, é o Forest Stewardship Council _ FSC (Conselho de Manejo Florestal). Cerca de 24 milhões de hectares de floresta, em 45 países, são certificados por organizações licenciadas pelo FSC como sob manejo sustentável. Entre os países líderes em áreas florestais certificadas estão a Suécia, com 10 milhões de hectares; Estados Unidos, com quase 3 milhões de hectares; Bolívia, com mais de 1 milhão de hectares; e África do Sul e Brasil, com pouco menos de 1 milhão de hectares cada.28

Na ponta exportadora do segmento de produtos de florestas sustentáveis, o Brasil também desenvolveu um Programa Nacional de Certificação Florestal _ CERFLOR, que emite certificados de origem


Protegendo os Produtos e Serviços Florestais

para matérias-primas florestais. Essa iniciativa teve motivação econômica, para que os produtos brasileiros de celulose tivessem um selo ecológico que garantisse acesso ao mercado da União Européia. O objetivo do selo foi distinguir os produtos florestais do Brasil daqueles de outros países que não estejam manejando suas florestas sustentavelmente. No caso do Brasil, foi um objetivo relativamente fácil de atingir, simplesmente porque a maioria do seu papel advém de plantações.29

Embora o mundo esteja longe de um manejo eficiente de suas florestas, o conceito de manejo florestal sustentável está se enraizando, de certa forma, em muitas regiões do planeta. Há, pelo menos, uma esperança que a perda florestal anual de 13 milhões de hectares nos países em desenvolvimento possa ser atenuada e, finalmente, eliminada, quando for restaurado um equilíbrio entre produção e extração de produtos florestais. Conter o desmatamento também ajudaria a proteger os serviços que as florestas prestam atualmente.30

Aliviando a Carga

Há um potencial gigantesco em todos os países para atenuar a pressão da demanda que está encolhendo a cobertura florestal da Terra. Nas nações industrializadas, a maior oportunidade reside na redução do volume da madeira utilizada pela indústria de papel. Nos países em desenvolvimento, também depende da redução da madeira utilizada como combustível.

Uma análise da reciclagem de papel nos 10 maiores produtores mundiais revela uma grande variação. (Vide Tabela 8 _ 4.) Entre os menores estão China, que recicla 27% e Itália, com 31%. No topo estão Alemanha, com 72% e Coréia do Sul, com 66%. A taxa da Alemanha é alta, devido ao governo ter enfatizado consistentemente a reciclagem do papel, a fim de reduzir o fluxo para os aterros. Se cada país reciclasse no mesmo nível que a Alemanha, quase um terço menos de madeira seria necessário em todo o mundo para produzir papel.

Os Estados Unidos, maiores produtores e consumidores de papel, estão muito atrás da Alemanha, mas avançando. Há vinte anos, aproximadamente um quarto do papel consumido nos Estados Unidos era reciclado. Em 1997, esse índice havia alcançado 46%. O que contribuiu para isso foi a introdução do programa de coleta seletiva de recicláveis, a proibição de papel em muitos aterros e legislação, tanto federal quanto estadual, estabelecendo teores de material reciclado no