A Economia e a Terra

I

Um Relacionamento Estressado



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Sinais de Estresse: Clima e Água

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Sinais de Estresse:

Clima e Água

Em 19 de agosto de 2000, o New York Times divulgou que um navio quebra-gelo de cruzeiro havia chegado ao Pólo Norte e constatado que esse famoso ponto gelado da Terra era agora mar aberto. Para uma geração que cresceu lendo os relatos penosos de exploradores, como o americano Richard Byrd, tentando alcançar o Pólo Norte enfrentando frio intenso, gelo e neve, essa nova visão parecia inconcebível.1

Em suas muitas viagens anteriores ao Pólo Norte, o navio de cruzeiro permitia o desembarque de passageiros para serem fotografados, de pé, sobre o gelo. Nessa ocasião, o navio teve que seguir por vários quilômetros até encontrar gelo espesso o suficiente para a sessão de fotos. Caso os exploradores de um século atrás explorassem o Pólo Norte no verão de 2000, teriam que nadar os últimos quilômetros.

Reportagens da mídia sobre o degelo, caracteristicamente, enfocam geleiras específicas ou calotas, porém o gelo está se derretendo praticamente por toda parte. Considerando que os 14 anos mais quentes, desde que foram iniciados registros em 1866, ocorreram a partir de 1980, isso não deve causar surpresa.2

A escassez hídrica também é manchete. Alguns dos grandes rios


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mundiais estão secando, deixando de alcançar o mar. Entre eles está o Colorado, o rio principal do sudoeste dos Estados Unidos. Na China, o Rio Amarelo, o mais ao norte entre os dois maiores do país, não chega mais ao mar durante certa época do ano. Na Ásia central, o Amu Darya às vezes não consegue atingir o Mar de Aral devido à drenagem a montante para irrigação.3

Poços estão secando em todos os continentes. À medida que a população se expande e a renda aumenta, a demanda pela água simplesmente suplanta a oferta em muitos países. Os mais ricos perfuram poços cada vez mais profundos, buscando água solo adentro. Os que não dispõem de recursos para aprofundarem seus poços ficam em desvantagem.

A tendência é a situação se tornar bem mais precária, uma vez que as 3.2 bilhões de pessoas que serão acrescentadas à população mundial até 2050 nascerão em países que já estão enfrentando escassez hídrica. Com 40% dos alimentos mundiais produzidos em terras irrigadas, a escassez hídrica causa impacto diretamente à segurança alimentar. Se estivermos diante de um futuro de escassez hídrica, estamos também diante de um futuro de escassez alimentar.4

Aumento da Temperatura

Desde o início da agricultura, o clima da Terra tem se mantido extraordinariamente estável. Hoje, a temperatura está em elevação devido aparentemente ao efeito estufa _ o aquecimento resultante do aumento da concentração de gases retentores de calor, principalmente o dióxido de carbono (CO2), na atmosfera.

Esse aumento de concentração do CO2 tem duas origens: a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento. Anualmente, mais de 6 bilhões de toneladas de carbono são liberadas na atmosfera com a queima de combustíveis fósseis. As estimativas da liberação de carbono pelo desmatamento variam muito, mas se concentram em 1,5 bilhão de toneladas/ano.5

A liberação de CO2 dessas duas fontes está simplesmente suplantando a capacidade da natureza de fixar o dióxido de carbono. Quando a Revolução Industrial iniciou, em 1760, as emissões de carbono da queima de combustíveis fósseis eram insignificantes. Mas, já em 1950, haviam atingido 1,6 bilhões de toneladas anuais, um volume que já incrementava os níveis atmosféricos de CO2. Em 2000, totalizavam


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Figura 2-1. Emissões Mundiais de Carbono da Queima

de Combustíveis Fósseis, 1900-2000

6,3 bilhões de toneladas. (Vide Figura 2-1.) Esse aumento quádruplo, a partir de 1950, está no cerne do efeito estufa que está aquecendo a Terra.6

As emissões de carbono de combustíveis fósseis específicos variam. A queima de carvão libera mais carbono por unidade de energia produzida do que o petróleo, e o petróleo mais do que o gás natural. A frota global de 532 milhões de automóveis a gasolina juntamente com as milhares de usinas elétricas a carvão são literalmente as forças motrizes da mudança climática.7

Além disso, nos últimos anos, o mundo vem perdendo 9 milhões de hectares de floresta por ano. As florestas armazenam, com facilidade, 20 vezes mais carbono por hectare do que a terra agrícola. Se pararmos com a eliminação de florestas, essa fonte de emissões de carbono desaparecerá. No hemisfério norte, a área florestal está, na realidade, aumentando ao ritmo de 3,6 milhões de hectares anuais. O grande desafio é conter e reverter o desmatamento nos países em desenvolvimento.8

No início da Revolução Industrial em 1760, a concentração atmosférica de CO2 era estimada em 280 partes por milhão (ppm). Em 2000, havia atingido 370 ppm, um aumento de 32 % sobre os níveis pré-industriais. (Vide Figura 2-2.) O acúmulo de CO2 atmosférico, entre 1960 e 2000, de 54 ppm excedeu de longe o aumento de 36 ppm entre 1760 e 1960.9


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Figura 2-2. Concentrações Atmosféricas

de Dióxido de Carbono, 1760-2000

Os níveis atmosféricos de CO2 vêm aumentando a cada ano, desde que as medições anuais foram iniciadas em 1959, tornando esta uma das mais previsíveis tendências ambientais. Os livros didáticos de Física ensinam que, à medida que os níveis atmosféricos de CO2 aumentam, a temperatura da Terra também se eleva, exatamente o que está ocorrendo. Como observado anteriormente, os 14 anos mais quentes, desde que se iniciaram os registros, ocorreram a partir de 1980. Nas últimas três décadas, a temperatura média global aumentou de 13,99o C, no período 1969-71, para 14,43o,entre 1998-2000, um ganho de 0,44o C.10

A elevação dramática da temperatura da Terra desde 1980 está claramente demonstrada na Figura 2-3. Não está só aumentando celeremente, mas também projetada a se elevar mais rapidamente no próximo século. Caso as concentrações atmosféricas de CO2 dobrem os níveis pré-industriais até o final deste século, chegando a 560 ppm, a temperatura deverá aumentar 1,4 _ 5,8o C. Temperaturas em elevação levam a eventos climáticos mais extremos _ ondas recordes de calor, degelo, elevação do nível do mar e tempestades mais destrutivas.11

Aumentos projetados da temperatura não serão distribuídos eqüitativamente pela superfície da Terra, sendo maior sobre o solo do que sobre os oceanos, e também será maior em altas latitudes do que em regiões equatorianas. Regiões do interior nas latitudes norte deverão


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sofrer maiores saltos da temperatura. Uma amostra do que está por vir pôde ser sentida na onda de calor de 1995, em Chicago, quando as temperaturas atingiram 38-41o C durante cinco dias consecutivos. Embora Chicago seja uma cidade industrial moderna, com sistemas extensos de ar condicionado, essa onda de calor causou mais de 500 mortes. E, como Chicago está no centro do Cinturão do Milho nos Estados Unidos, o calor intenso também ajudou a reduzir a colheita de 1995 em cerca de 15 %, ou US$ 3 bilhões.12

Degelo

O degelo é uma das manifestações mais visíveis do aquecimento global. Às vezes, a comprovação do degelo de geleiras montanhosas se manifesta de forma extraordinária. No final de 1991, alpinistas no sudoeste dos Alpes, na fronteira Áustria/Itália, descobriram um corpo masculino humano, intacto, surgindo de uma geleira. Aparentemente preso numa tempestade há mais de 5.000 anos e logo coberto por neve e gelo, esse corpo estava extraordinariamente bem-preservado. Em 1999, outro corpo foi encontrado numa geleira que derretia no Território de Yukon, no oeste do Canadá. Como observei na ocasião, nossos ancestrais estão emergindo do gelo com uma mensagem para nós: a Terra está se aquecendo.13

Figura 2-3. Temperaturas Médias

na Superfície da Terra, 1866-2000


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No Mar Ártico, o gelo marinho está derretendo rapidamente. Em 1960, sua espessura era de quase 2 metros. Em 2001 tinha, em média, um metro. Ao longo das últimas quatro décadas, a manta de gelo perdeu 42 % em espessura e encolheu 6 % em área. Conjuntamente, afinamento e encolhimento reduziram a massa de gelo do Oceano Ártico quase pela metade. Esse degelo acelerado deverá continuar. Um estudo recente feito por dois cientistas noruegueses projeta que, dentro de 50 anos, o Oceano Ártico poderá estar totalmente livre de gelo no verão.14

Em 2000, quatro cientistas dos Estados Unidos publicaram um artigo em Science, informando que a imensa manta de gelo da Groelândia estava começando a derreter. Situando-se em grande parte dentro do Círculo Ártico, a Groelândia está acumulando algum gelo nas maiores elevações da sua região norte, mas está perdendo muito mais nas partes mais baixas, particularmente ao longo dos seus litorais sul e leste. Essa imensa ilha de 2,2 milhões de quilômetros quadrados (três vezes a área do Texas) está sofrendo uma perda líquida de 51 bilhões de metros cúbicos de água a cada ano, um volume quase dois terços da vazão anual do Nilo ao entrar no Egito.15

A península da Antártica também está perdendo gelo. Contrariamente ao Pólo Norte, que é coberto pelo Mar Ártico, o Pólo Sul está coberto pelo continente da Antártica, uma massa de terra aproximadamente do tamanho dos Estados Unidos. Sua manta continental de gelo, que tem em média 2,3 quilômetros de espessura, é relativamente estável. Mas, as plataformas de gelo, as porções da manta que se estendem para os mares circundantes, estão desaparecendo rapidamente.16

Uma equipe de cientistas norte-americanos e britânicos divulgou em 1999 que as plataformas em ambos os lados da península da Antártica estão recuando celeremente. A partir de meados do século até 1997, essas áreas perderam 7.000 quilômetros quadrados, à medida que a manta se desintegrava. Mas, em menos de um ano, perderam outros 3.000 quilômetros quadrados. Icebergs do tamanho do Estado de Delaware que se desprenderam ameaçam a navegação na região. Os cientistas atribuem o degelo acelerado a um aumento regional da temperatura de 2,5o centígrados, a partir de 1940.17

Esses não são os únicos exemplos do degelo. Lisa Mastny, do Worldwatch Institute, que analisou cerca de 30 estudos sobre este tema, informa que geleiras de montanhas estão derretendo em todo o mun


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do _ e em ritmo acelerado. (Vide Tabela 2-1.) A massa de neve e gelo está diminuindo nas principais cordilheiras mundiais: as Montanhas Rochosas, Andes, Alpes e Himalaia. No Glacier National Park, em Montana, a quantidade de geleiras reduziu-se de 150 em 1850 para menos de 50 hoje. A U.S. Geological Survey projeta o desaparecimento das geleiras remanescentes para os próximos 30 anos.18

Nos Alpes europeus, o recuo do volume glacial em mais da metade, desde 1850, deverá continuar com o desaparecimento de grande parte dessas geleiras antigas ao longo do próximo meio século. O recuo de massas de gelo no Himalaia acelerou-se de forma alarmante. No leste da Índia, a geleira Dokriani Banak, que regrediu 16,5 metros entre 1992 e 1997, recuou mais 20 metros só em 1998.19

Um relatório de pesquisa, por Lonnie Thompson, da Universidade Estadual de Ohio, indica que a calota de gelo do Kilimanjaro poderá desaparecer dentro de 15 anos. Isso desagradou o Ministro do Turismo de Tanzânia, Zokia Meghji, que declarou ao Parlamento que o degelo projetado era exagerado, tentando dissipar temores quanto aos impactos no lucrativo setor turístico do país. Em resposta, Thompson assinalou que seu relatório estava fundamentado numa extrapolação da recente tendência histórica. 20

Os pesquisadores estão descobrindo que um aumento modesto da temperatura, entre 1-2 graus centígrados, em regiões montanhosas pode alterar dramaticamente o mix de precipitações, aumentando a parcela que cai como chuva e diminuindo a parcela que cai como neve. O resultado são mais enchentes durante a estação chuvosa, encolhimento da massa neve/gelo e menos degelo para alimentar os rios durante a estiagem.21

Esses "reservatórios do céu," onde a natureza armazena água doce para uso no verão, quando a neve derrete, sempre estiveram lá, desde que a irrigação começou, fornecendo água para os agricultores durante milhares de anos. Agora, subitamente, em questão de anos, estão se reduzindo e alguns podem desaparecer totalmente, diminuindo de maneira drástica o suprimento de água para irrigação e para as cidades.

Se a maciça manta de gelo/neve do Himalaia _ a terceira maior do mundo, após a Antártica e Groelândia _ continuar a derreter, afetará o abastecimento de água de grande parte da Ásia. Todos os principais rios da região _ Indus, Ganges, Mekong, Yangtzé Amarelo _ nascem no Himalaia. O degelo nessa área pode alterar a hidrologia de vários


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Tabela 2-1. Exemplos Selecionados do Degelo, Mundialmente


Nome

Gelo Marinho

Ártico

Manta de Gelo

Groelândia

Geleira

National Park

Plataforma de Gelo Larsen B.

Geleira

Dokriani Bamak

Montanhas

Tien Shan

Montanhas do

Cáucaso

Alpes

Kilimanjaro

Geleira

Quelccaya

Localização

Oceano

Ártico

Groelândia

Montanhas Rochosas,

Estados

Unidos

Península

Antártica

Himalaia,

Índia

Ásia Central

Rússia

Europa

Ocidental

Tanzânia

Andes

Peru

Perda Medida

Encolheu 6% desde 1978, perdendo 14% da espessura do gelo perene. Afinou 40% em menos de 30 anos.

Afinou mais de um metro por ano em suas bordas sul e leste, desde 1993.

Desde 1850, a quantidade de geleiras caiu de 150 para menos de 50. As geleiras remanescentes poderão desaparecer totalmente dentro de 30 anos.

Deslocou um iceberg de 300 quilômetros quadrados no início de 1998. Perdeu 1.714 quilômetros quadrados durante o verão 1998-99 e 300 quilômetros quadrados durante o verão 1999-2000.

Recuou 20 metros em 1998, comparado com 16,5 metros ao longo dos cinco anos anteriores.

22% do volume do gelo glacial desapareceu nos últimos 40 anos.

O volume glacial caiu 50 % no último século.

O volume glacial encolheu mais de 50 % desde 1850. As geleiras poderão ficar reduzidas a apenas uma pequena fração da sua massa atual dentro de décadas.

O gelo perene encolheu 33% entre 1989 e 2000. Poderá desaparecer por completo até 2015.

A taxa de recuo aumentou 30 metros por ano na década de 90, contra uma média de apenas 3 metros anuais; provavelmente desaparecerá antes de 2020.


Fonte: Dados atualizados de Lisa Mastny, "Melting of Earth's Ice Cover Reaches New High," Worldwatch News Brief (Washington, DC: Worldwatch Institute: 6 de março de 2000).


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países asiáticos, incluindo Paquistão, Índia, Bangladesh, Tailândia, Vietnã e China. Um menor degelo de neve no verão para alimentar os rios poderá agravar a pobreza hidrológica que já aflige grande parte da região.22

Não precisamos ficar sentados, apreciando esse cenário se desenrolar. Ainda pode haver tempo para estabilizar os níveis atmosféricos de CO2, antes que as emissões de carbono causem mudanças incontroláveis do clima. Há uma abundância de energia eólica, solar e geotérmica a ser dominada para mover a economia mundial. (Vide Capítulo 5.) Se reduzíssemos o imposto de renda e o compensássemos pela incorporação de um imposto de carbono que refletisse o custo da perturbação climática no preço dos combustíveis fósseis, os investimentos rapidamente se deslocariam dos combustíveis fósseis para essas fontes de energia estabilizadoras do clima.

Elevação dos Oceanos

O nível do mar é um indicador sensível do aquecimento global uma vez que afeta tanto a expansão térmica, quanto o degelo de geleiras terrestres. As contribuições da expansão térmica e do degelo para o aumento do nível do mar são estimadas como aproximadamente idênticas.23

Durante o Século XX, o nível do mar se elevou 10 _20 centímetros, mais da metade do que havia subido durante os 2.000 anos anteriores. Caso a temperatura da Terra continue a aumentar, a perspectiva é de maior aceleração. O modelo utilizado na Avaliação de 2001 do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática projeta uma elevação possível do nível do mar em até 1 metro durante o Século XXI.24

A elevação dos oceanos tem inúmeras conseqüências. A mais óbvia é inundação, à medida que os oceanos se expandem às custas dos continentes. Outra é a intrusão de água salgada. Quando o nível do mar se eleva, a água salgada pode invadir aqüíferos costeiros de água doce. Essa intrusão é agravada pelo declínio dos lençóis freáticos que hoje aflige regiões costeiras em muitos países, incluindo Israel, Paquistão, Índia e China. Um terceiro impacto é erosão das praias: à medida que as ondas quebram mais para dentro dos litorais, erodem a praia, aumentando o impacto da elevação do mar.25

O efeito de mais fácil mensuração da elevação do nível do mar é a inundação de áreas costeiras. Donald F. Boesch, do Centro de Ciências


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Ambientais da Universidade de Maryland, calcula que, para cada milímetro de elevação do nível do mar, o litoral regride, em média, 1,5 metro. Assim, se o nível do mar aumentar 1 metro, o litoral recuará 1.500 metros.26

Com uma elevação de 1 metro, mais de um terço de Xangai ficaria submerso. Na China como um todo, 70 milhões de pessoas estariam vulneráveis a uma ressaca de 100 anos. Os arrozais das baixadas ribeirinhas e deltas da Ásia estariam particularmente ameaçados. Uma análise do Banco Mundial demonstra que Bangladesh seria mais gravemente afetada, perdendo metade da sua produção de arroz _ o alimento básico de sua população de 140 milhões de pessoas. (Vide Figura 2-4.) Ao preço atual do arroz, isso custaria a Bangladesh US$ 3,2 bilhões. Os moradores dos vales fluviais densamente habitados da Ásia seriam forçados a se deslocar para regiões interioranas, já com excesso populacional. A elevação do nível do mar poderá criar milhões de refugiados climáticos em Bangladesh, China, Índia, Indonésia, Filipinas e Vietnã.27

Dois terços das Ilhas Marshall e Kiribati estariam submersos. Os Estados Unidos perderiam 36.000 quilômetros quadrados de área, com os Estados do Atlântico e do Golfo do Mississipi perdendo uma área maior. E grandes áreas do centro de Manhattan e da Colina do Capitólio em Washington, D.C. ficariam inundadas durante uma ressaca de 50 anos. Uma elevação de 1 metro no Japão significaria que 2.340 quilômetros quadrados do país ficariam abaixo da preamar. Quatro milhões de japoneses seriam afetados, muitos deles desabrigados.28

Os valores imobiliários costeiros provavelmente serão um dos primeiros indicadores econômicos a refletir a elevação do nível do mar. Pessoas com altos investimentos em propriedades à beira-mar serão as mais afetadas. Um aumento de meio metro do nível do mar nos Estados Unidos causaria prejuízos de US$ 20 a US$ 150 bilhões. Propriedades frente ao mar, da mesma forma que usinas nucleares, não conseguem mais obter cobertura de seguro _ como muitos proprietários na Flórida, por exemplo, já descobriram.29

Muitos países em desenvolvimento, já enfrentando crescimento populacional e competição intensa por espaços para moradia e agricultura, estão hoje diante da perspectiva de elevação do nível do mar e perdas substanciais de terras. Alguns dos mais diretamente afetados foram os que menos contribuíram para o acúmulo de CO2 atmosférico


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Figura 2-4. Uma elevação de 1 metro no nível do mar reduziria a

produção de arroz de Bangladesh aproximadamente à metade

que está causando este problema.

A elevação dos oceanos apresenta opções difíceis e custosas. Consideremos, por exemplo, o custo e esforço envolvidos no reassentamento de milhões de chineses da área a ser inundada pela Barragem das Três Gargantas. Quando o oceano se elevar, caso continuemos com o status quo, isso será trivial, comparado com as dezenas de milhares e, posteriormente, centenas de milhões da Ásia que terão que ser reassentados. Refugiados climáticos poderão vir a dominar o fluxo internacional de migrantes uma vez que perderão não apenas suas terras, mas também seu alimento e meio de vida.30

Mais de 90% do gelo mundial está na manta da Antártica a qual, devido em parte ao seu tamanho, está relativamente estável. Os 10% restantes, entretanto, estão na manta de gelo e geleiras montanhosas da


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Groelândia, mais vulneráveis à mudança climática. Agora que a manta de gelo da Groelândia começou a derreter, cabe a pergunta: "E se essa tendência continuar?" A manta de gelo da Groelândia tem 2 quilômetros de espessura em algumas áreas. Num artigo em Science, cientistas da NASA calculam que, caso a manta de gelo da Groelândia desaparecesse por completo, a elevação do nível do mar atingiria 7 assustadores metros, encolhendo gravemente a área terrestre e submergindo muitas cidades litorâneas.31

Pela primeira vez, desde o início da civilização, o nível do mar começou a se elevar em taxas mensuráveis. Tornou-se um indicador a ser observado, uma tendência que poderá forçar uma migração humana de dimensões quase inimagináveis e que determinará a perspectiva humana. Também suscita perguntas sobre responsabilidades intergeracionais jamais enfrentadas pela humanidade.

Tempestades Mais Destrutivas

Temperaturas em elevação e a força das tempestades têm uma relação direta. À medida que a temperatura da superfície do mar se eleva, particularmente nas regiões tropicais e subtropicais, o calor adicional que se irradia para a atmosfera provoca tempestades mais destrutivas. Temperaturas mais altas significam maior evaporação. A água que sobe forçosamente terá que cair. O que não está claro é o local exato onde essa água adicional se precipitará.32

Eventos climáticos mais extremos são mais preocupantes para os países no cinturão de furacões e tufões. Entre os mais diretamente afetados pela maior intensidade das tempestades estão: China, Japão e Filipinas no oeste do Pacífico, Índia e Bangladesh na Baía de Bengala, os Estados Unidos, e os países da América Central e Caribe no oeste do Atlântico.

Munich Re, companhia de resseguros, possui dados mundiais detalhados sobre catástrofes naturais _ principalmente tempestades, enchentes e terremotos _ referentes ao último meio século. A empresa define uma grande catástrofe natural como uma que supere a capacidade de uma região de ajudar a si mesma, forçando-a a depender de assistência internacional. Durante os anos 60, os prejuízos econômicos causados por essas catástrofes em larga escala totalizaram US$ 69 bilhões; durante os anos 90, atingiram US$ 536 bilhões, quase oito vezes mais.33


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Nos anos recentes, ocorreram tempestades tropicais extraordinariamente destrutivas. Entre elas, o Furacão Andrew, que devastou uma grande faixa através da Flórida em 1992. Alertas de tempestades mantiveram a perda de vidas humanas em 65, porém Andrew destruiu 60.000 lares e outros prédios, causando danos de cerca de US$ 30 bilhões. Além dos prédios destruídos, também levou consigo sete companhias de seguros, que se tornaram insolventes com o acúmulo de indenizações.34

Seis anos depois, o Furacão Georges _ uma forte tempestade com ventos que chegaram próximos a 320 quilômetros por hora _ permaneceu ao largo do litoral da América Central devido a um sistema de alta pressão que bloqueou seu trajeto normal para o norte. Ceifou 4.000 vidas e causou um prejuízo gigantesco de US$ 10 bilhões a El Salvador e Nicarágua. Danos desse porte, chegando perto do Produto Interno Bruto desses dois países, atrasaram o desenvolvimento econômico em uma geração. Uma tempestade que atingiu a Venezuela, em meados de dezembro de 1999, causou grandes enchentes e deslizamentos, ceifou 20.000 vidas e registrou perdas econômicas de US$ 15 bilhões _ inferior apenas ao Furacão Andrew.35

No final de setembro de 1999, o Tufão Bart atingiu a ilha densamente habitada de Kyushu, no Japão. O custo em vidas humanas foi mantido em apenas 26, porém causou prejuízos de US$ 5 bilhões. Países como Japão, China e Filipinas estão situados em locais extremamente vulneráveis, totalmente expostos a todo o poder que as tormentas geradas ao longo do Pacífico tropical podem acumular.36

Tempestades de inverno também estão se tornando mais destrutivas no hemisfério norte. S.J. Lambert, escrevendo no Journal of Geophysical Research, analisou a freqüência de tempestades intensas de inverno neste hemisfério, durante o último século. Entre 1920 e 1970, ocorreram aproximadamente 40 tempestades por ano. Mas, quando as temperaturas começaram a se elevar, também aumentou a freqüência das tempestades. Desde 1985, o hemisfério norte sofreu quase 80 tempestades anuais _ o dobro em menos de uma geração. Ao longo da última década, a Europa Ocidental foi assolada por inúmeras tempestades altamente destrutivas. Em 1987, o Reino Unido e a França sofreram o peso de uma tempestade de inverno que ceifou 17 vidas e causou prejuízos de US$ 3,7 bilhões. Em 1999, a Europa Ocidental sofreu o impacto de três tempestades de inverno de rara potência: Anatole,


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Martim e Lothar. Mataram 150 pessoas e causaram danos de US$ 10,3 bilhões. Lothar, que assolou o continente durante os feriados de 26 de dezembro, deixou um rastro de danos, totalizando US$ 7,5 bilhões na França, Alemanha e Suíça.37

Os danos causados por tempestades estão se escalando, tanto devido à maior densidade populacional quanto pelo aumento inusitado de investimentos per capita em habitações ou outras estruturas vulneráveis a danos por tempestades. Há também um aumento desproporcional de construções em regiões costeiras, muito mais vulneráveis a tempestades e ressacas.

O fato é que as tempestades estão aumentando tanto em quantidade quanto em capacidade destrutiva. Tempestades mais poderosas significam maiores danos. Uma duplicação do número de tempestades de inverno no hemisfério norte, em menos de uma geração, aliada à maior intensidade, gera um aumento dramático em danos.

Nesta altura, ninguém sabe exatamente como essa tendência se desenvolverá no Século XXI, mas parece provável que, mantido o status quo e níveis de CO2 continuando a subir, a destruição futura terá uma magnitude jamais vista_ da mesma forma que a capacidade destrutiva atual é imensamente superior à do passado recente. O risco é que o custo do enfrentamento dessas catástrofes, induzidas pela atividade humana e cada vez mais destrutivas, poderá subjugar algumas sociedades, levando-as ao declínio econômico.

Exaustão dos Rios

Vivemos num mundo desafiado pela água, uma situação que é agravada anualmente quando 80 milhões de pessoas adicionais reclamam seus direitos aos recursos hídricos da Terra. Mesmo agora, muitas pessoas nos países em desenvolvimento não dispõem de água suficiente para satisfazer suas necessidades básicas de consumo, banho e produção de alimentos.

Até 2050, a Índia deverá ter um acréscimo populacional de 563 milhões de pessoas, e a China, 187 milhões. O Paquistão, um dos países mais áridos do mundo, deverá acrescer 200 milhões, aumentando dos 141 milhões atuais para 344 milhões. Egito, Irã e México têm um aumento populacional projetado em mais 50%, ou mais, até 2050. Nesses e em outros países com déficits hídricos, o crescimento populacional continuado está condenando centenas de milhões de pes


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soas à pobreza hidrológica _ uma forma local de empobrecimento difícil de se escapar.38

Uma manifestação da escassez hídrica emergente são rios secos. Vários dos principais rios mundiais hoje estão secos durante certo período do ano, deixando de alcançar o mar, ou têm pouca vazão quando o atingem.39

Como observado anteriormente, o Amu Darya, na Ásia Central, um dos dois rios que deságuam no Mar de Aral, está hoje praticamente seco pela ação de produtores de algodão da Turquia e Uzbequistão. Sem a alimentação constante desse rio e a vazão do Syr Darya reduzida a uma sombra do que foi no passado, o Mar de Aral encolhe sob o impiedoso sol dessa região semi-árida. Desde 1960, o mar recuou 12 metros; sua área encolheu 40 % e seu volume 66 %. Cidades outrora costeiras hoje distam 50 quilômetros da água. Se essas tendências continuarem, o mar secará por completo dentro de uma década ou duas _ existindo apenas em velhos mapas como uma memória geográfica.40

À medida que o mar encolheu, a concentração salina das suas águas aumentou a ponto de não permitir a sobrevivência dos peixes. Conseqüentemente, o pesqueiro _ que já produziu um total de 60.000 toneladas por ano nos anos 60 _ hoje está morto.41.

Em 1990, a Academia Soviética de Ciência realizou uma conferência chamada "O Mar de Aral: Uma Catástrofe Ambiental", em Nukus, uma cidade próxima ao Mar de Aral. Após a reunião, juntei-me a outros convidados numa excursão aérea sobre o mar e seu antigo leito. Posteriormente, escrevi na revista World Watch: Visto do ar, o leito do Mar de Aral parece uma paisagem lunar. Não se vê vida vegetal ou animal. A algumas centenas de metros acima do solo, num velho biplano monomotor, de asas de lona, os sinais de um ecossistema moribundo são evidentes. Vilas pesqueiras que outrora se mantinham à beira-mar estão abandonadas, a quilômetros de distância das águas em recuo. Como cidades-fantasmas mineiras do velho Oeste americano, reforçam a imagem de um ecossistema moribundo e uma economia agonizante.42

Quando os rios secam, seus ecossistemas marinhos são destruídos. Os estuários, às vezes, também são afetados. Por exemplo, quando o Rio Colorado fluía para o Golfo da Califórnia, proporcionava uma pesca volumosa, sustentando várias centenas de famílias de índios Cocopa. Hoje, é apenas um resquício do que já foi.43


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Desvios a montante do Rio Amarelo, da China, para as cidades, indústrias e irrigação se multiplicam. Após fluir ininterruptamente durante milhares de anos, esse berço da civilização chinesa secou em 1972, deixando de alcançar o mar durante cerca de 15 dias.. Nos anos seguintes, secou intermitentemente até 1985. Desde então, seca durante um período do ano. Em 1997, ano de seca, o Rio Amarelo não chegou ao mar durante 226 dias.44

Na realidade, durante a maior parte do ano de 1997, o rio não conseguiu alcançar nem a Província de Shandog, a última das oito províncias que atravessa a caminho do mar. Shandong, que produz um quinto do milho e um sétimo do trigo da China, é mais importante em termos agrícolas para a China do que Iowa e Kansas juntos são para os Estados Unidos. Metade da água de irrigação da província vinha do Rio Amarelo, mas essa fonte está se exaurindo. A outra metade vem de um aqüífero cujo lençol d'água se reduz à taxa de 1,5 metro por ano.45

À medida que mais e mais água é desviada para indústrias e cidades a montante, há menor disponibilidade a jusante. Beijing está permitindo que as províncias pobres a montante desviem a água para seu desenvolvimento, às custas da agricultura nas baixadas da bacia.

Um entre centenas de projetos de desvio de água do Rio Amarelo nas cabeceiras é um canal que levará água para Hohhot, a capital da Mongólia Central, a partir de 2003. Isso ajudará a atender às crescentes necessidades residenciais, como também àquelas das indústrias em expansão, inclusive a importante indústria têxtil de algodão, suprida pelos imenso rebanho ovino da região. Outro canal desviará água para Taiyuan, capital da Província de Shanxi, uma cidade de 4 milhões de habitantes que hoje raciona a água.46

As demandas crescentes a montante do Rio Amarelo significam que, um dia, talvez nem chegue à Província de Shandong, eliminando cerca da metade de sua água de irrigação. A perspectiva então de importações maciças de grãos e a dependência crescente, particularmente dos grãos dos Estados Unidos, deixam os líderes políticos de Beijing insones.47

Outro rio que está deixando políticos insones é o Nilo, já que suas águas devem ser alocadas não entre províncias, como na China, mas entre países. Dez nações compartilham a bacia do Nilo, mas apenas três _ Egito, Sudão e Etiópia _ predominam. 85% da vazão do Nilo se origina na Etiópia, mas a parte do leão é utilizada pelo Egito. Grande


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parte do restante é consumida no Sudão. Quando esses países se saciam, chega muito pouca água no Mediterrâneo.48

O Egito, onde as chuvas são muito escassas, é totalmente dependente do Nilo. Sem esse recurso vital, o Egito não existiria. Mesmo que toda a água do Nilo estivesse disponível para o Egito, ainda assim teria que importar grãos para alimentar sua população atual. Mas, já importa 40% do seu consumo e sua população, hoje de 68 milhões, está estimada a dobrar para 114 milhões até 2050. A população do Sudão, com crescimento ainda maior, deverá aumentar de 31 milhões hoje para 64 milhões até 2050, mais do que duplicando suas necessidades hídricas.49

Na Etiópia, com o maior índice de precipitação que alimenta o Nilo, o crescimento populacional é ainda mais acelerado. Com cada família tendo, em média, 6 filhos, sua população triplicará de 63 milhões no final de 2000 para 186 milhões até 2050. Até agora, a Etiópia construiu apenas 200 barragens muito pequenas, possibilitando o uso de 500 milhões de metros cúbicos dos 84 bilhões de metros cúbicos da vazão do Nilo, ou menos de 1 %. Porém o Governo planeja explorar muito mais seus recursos hídricos, a fim de ampliar a produção de alimentos e fornecer eletricidade, no esforço de retirar sua população da pobreza.50

O Nilo, como o Rio Amarelo, sofre grande disparidade de renda entre a nascente e a foz. É difícil conceber que a Etiópia, com uma renda per capita que mal atinge US$ 100, não utiliza as águas superiores para seu próprio desenvolvimento, mesmo que seja às custas do Egito, que tem uma renda per capita superior a US$ 1.000. Se as nações da bacia não estabilizarem rapidamente suas populações, correm o risco de se ver condenadas à pobreza hidrológica.51

Outras bacias fluviais onde a competição pela água está se intensificando incluem as do Jordão, Ganges e Mekong. A competição pelo Jordão, entre Israel , Jordânia e os Palestinos, é conhecida. O Jordão, que flui do Líbano para Israel, onde se junta ao Mar da Galiléia e posteriormente desemboca no Mar Morto, está sendo pressionado. Conseqüentemente, o nível de água do Mar da Galiléia está caindo gradativamente, e o Mar Morto está encolhendo.52

Caso a Índia, que divide o Ganges com Bangladesh, utilizasse toda a água que desejasse, talvez o Ganges não atingisse Bangladesh durante a época de estiagem. Felizmente, porém, foi assinado um tratado


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que aloca um volume pré-estabelecido de água para Bangladesh. A competição na bacia do Mekong também está se intensificando. À medida que a China constrói barragens no Alto Mekong, diminui a disponibilidade de água para o Camboja, Laos e Vietnã _ países cujas culturas de arroz depende da água do Mekong.53

Queda dos Lençóis Freáticos

Concomitante com o esgotamento dos rios, os lençóis freáticos estão em queda em todos os continentes, à medida que a demanda pela água supera a produção sustentável dos aqüíferos. A extração excessiva é um fenômeno novo, restrito, em grande parte, ao último meio século. Só após o desenvolvimento de poderosas bombas elétricas e a diesel foi que adquirimos a capacidade de extrair água dos aqüíferos com maior rapidez do que é substituída pela chuva.

A extração excessiva é hoje generalizada na China, Índia e Estados Unidos _ três países que, em conjunto, colhem quase metade dos grãos mundiais. Os lençóis freáticos estão em queda sob a planície do norte da China, produtora de 25% dos grãos do país; do Punjab indiano, o celeiro da Índia; e sob as grandes planícies, no sul dos Estados Unidos.54

Hidrologicamente, existem duas Chinas _ o sul, úmido, que inclui a bacia do Yangtzé e tudo mais ao sul dela, e o norte árido, que inclui a bacia to Rio Amarelo, e tudo o mais ao norte. O sul, com 700 milhões de habitantes, possui um terço das terras agrícolas do país e quatro quintos de seus mananciais. O norte, com 550 milhões de habitantes, tem dois terços das terras agrícolas e um quinto da água. A água por hectare de terra agrícola no norte representa um oitavo daquela do sul.55

O norte da China está secando à medida que a demanda pela água supera a oferta, exaurindo os aqüíferos. Em 1999, o lençol freático sob Beijing caiu 1,5 metro. Desde 1965, o lençol raso sob a cidade já diminuiu cerca de 59 metros. O aqüífero profundo de onde alguns poços extraem água podem ter caído ainda mais. Um relatório do Banco Mundial, de 2001, declara que "Indícios empíricos sugerem que os poços profundos em torno de Beijing hoje têm que penetrar 1.000 metros até encontrar água doce, encarecendo dramaticamente o custo de abastecimento." A queda dos lençóis freáticos sob a capital alerta os líderes chineses para a escassez futura, quando os aqüíferos estiverem exauridos.56


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A planície norte da China, uma região que abrange desde o norte de Xangai até muito ao norte de Beijing, cobre cinco províncias: Hebei, Henan e Shandong, e as províncias urbanas de Beijing e Tianjin. No final de 1997, dados oficiais mostram que estas cinco províncias possuíam 2,6 milhões de poços, a maioria para irrigação. Durante aquele ano, 99.900 poços foram abandonados, aparentemente por terem secado, quando o lençol freático caiu. Cerca de 221.900 poços novos foram perfurados. Em duas grandes cidades, Beijing e Tianjin, a quantidade de poços abandonados excedeu o número de poços perfurados. Esse abandono em massa não tem precedente. A perfuração de tantos poços novos reflete a busca desesperada pela água quando os lençóis caem.57

Embora dados anteriores tenham mostrado uma queda média do lençol de 1,5 metro por ano sob a planície norte da China, esses dados recentes sobre o abandono de poços e novas perfurações indicam que podem estar caindo mais rapidamente em alguns locais. A exaustão é maior na bacia do Rio Hai, logo ao norte da bacia do Rio Amarelo. Essa área, que inclui Beijing e Tianjin, ambas grandes cidades industriais, abriga mais de 100 milhões de pessoas.58

O consumo de água na bacia, atualmente, é de 55 bilhões de metros cúbicos anuais, enquanto o abastecimento sustentável totaliza apenas 34 bilhões de metros cúbicos, deixando um déficit anual de 21 bilhões de metros cúbicos a ser atendido pela extração de água subterrânea. Quando esse aqüífero estiver exaurido, o bombeamento necessariamente cairá até a produção sustentável, reduzindo o suprimento de água da bacia em quase 40 %. Considerando o rápido crescimento urbano e industrial da região, e a agricultura estar relegada ao terceiro lugar na preferência pela água, a agricultura irrigada da bacia poderá desaparecer, em grande parte, até 2010 _ forçando uma mudança para uma agricultura menos produtiva, alimentada pela chuva. O relatório do Banco Mundial de 2001 concluiu que a situação hídrica do norte da China, em rápida deterioração, poderá ter "conseqüências catastróficas para as gerações futuras, caso o consumo e abastecimento não possam ser rapidamente equacionados."59

Além das perdas de água de irrigação devido à exaustão dos aqüíferos, os agricultores enfrentam um desvio de água de irrigação para as cidades e indústrias. Entre hoje e 2010, quando a população chinesa deverá crescer em cerca de 126 milhões, o Banco Mundial


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projeta que a demanda de água urbana da nação aumentará de 50 bilhões de metros cúbicos, para 80 bilhões, um aumento de 60 %. Enquanto isso, a demanda por água industrial está estimada a crescer de 127 bilhões de metros cúbicos para 206 bilhões, um aumento de 62 %. Em grande parte do norte da China, essa demanda crescente pela água está sendo atendida por investimentos em eficiência hídrica ou pela retirada da água de irrigação da agricultura.60

Sob o Punjab indiano, onde o cultivo duplo de alta produtividade de trigo no inverno e arroz no verão gera um superávit de grãos para embarque para outros estados, o lençol freático está caindo. Reduzindo-se cerca de 0,6 metro por ano, está forçando os agricultores com poços rasos a perfurarem mais profundamente.61

Ao sul das Great Plains, nos Estados Unidos, a agricultura irrigada se baseia principalmente na água extraída do aqüífero Ogallala, que é essencialmente um aqüífero fóssil com pouca recarga. À medida que o volume de água se reduz e o aqüífero é exaurido, os agricultores são forçados a abandonar a agricultura irrigada, retornando ao cultivo a seco. Em vários estados que dominam a produção de alimentos dos Estados Unidos, inclusive Colorado, Kansas, Oklahoma e Texas, a área irrigada está encolhendo lentamente, à medida que o Ogallala é exaurido.62

Uma análise econômica da situação hídrica nos planaltos texanos, onde se localiza a maior parte das terras agrícolas irrigadas do estado, concluiu que a produção da região cairá constantemente, à medida que o abastecimento se reduz. Os grandes perdedores, entre 2000 e 2025, serão os grãos de ração irrigados, incluindo milho e sorgo. A área cultivada com trigo, uma lavoura seca, aumentará ligeiramente. No todo, a produção de grãos deverá cair 17 %. Uma análise detalhada semelhante para os estados vizinhos, como Oklahoma e Kansas, provavelmente revelará declínios de produção para as lavouras mais dependentes de água.63

No sul do Texas, El Paso e sua cidade irmã além da fronteira mexicana, Juarez, extraem sua água do mesmo aqüífero. Com o aumento populacional nas duas cidades em crescimento acelerado, a demanda ultrapassou a produção sustentável do aqüífero. David Hurlbut, analista da Comissão dos Serviços Públicos do Texas, acredita que, devido ao seu fracasso em lidar eficazmente com a questão de abastecimento de água, as duas cidades se encaminham para a falência hidrológica.64


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Com o crescimento populacional contínuo, a situação hídrica mundial só poderá se agravar. Já com a população atual, de 6,1 bilhões, o mundo tem um imenso déficit hídrico. Por meio de dados sobre a extração excessiva na China, Índia, Arábia Saudita, África do Norte e Estados Unidos, Sandra Postel, autora de Pillar of Sand, calcula a exaustão anual dos aqüíferos em 160 bilhões de metros cúbicos, ou 160 bilhões de toneladas. Tomando-se uma base empírica de 1.000 toneladas de água para produzir 1 tonelada de grãos, esses 160 bilhões de toneladas de déficit hídrico equivalem a 160 milhões de toneladas de grãos _ ou metade da colheita dos Estados Unidos.65

Na média per capita mundial do consumo de grãos, de pouco mais de 300 quilos anuais, ou um terço de uma tonelada, 160 milhões de toneladas de grãos alimentariam 480 milhões de pessoas. Em outras palavras, 480 milhões das 6,1 bilhões de pessoas do mundo estão sendo alimentadas com grãos produzidos com o uso insustentável da água. Estamos nos alimentando com a água que pertence aos nossos filhos.66

Enfrentamento à Escassez Hídrica

Cerca de 70% da água consumida mundialmente, incluindo a que é desviada dos rios e a bombeada do subsolo, são utilizados para irrigação. Aproximadamente 20% vão para a indústria e 10% para as residências. Na competição cada vez mais intensa pela água entre esses setores, a agricultura quase sempre sai perdendo. Na China, 1.000 toneladas de água podem ser utilizadas para produzir 1 tonelada de trigo, valendo talvez US$ 200, ou para ampliar a produção industrial em US$ 14.000 _ 70 vezes mais. Num país buscando desesperadamente o crescimento econômico e os empregos que gera, o ganho no desvio da água da agricultura para a indústria é óbvio. A ciência econômica da água ajuda a explicar por que, no Oeste americano, a venda pelos agricultores de direitos de água de irrigação para os centros urbanos é cada vez mais comum.67

A urbanização, industrialização e manutenção dos ecossistemas também ampliam a demanda pela água. À medida que a população rural nos países em desenvolvimento, tradicionalmente dependente do poço da aldeia, muda para prédios residenciais urbanos com água encanada, o consumo pode facilmente triplicar. A industrialização consome ainda mais água que a urbanização.

A afluência gera demanda adicional. Por exemplo, à medida que as


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pessoas ascendem na cadeia alimentícia e passam a comer mais carne bovina, suína, aves, ovos e laticínios, consomem mais grãos. Uma dieta americana, rica em produtos pecuários, requer quatro vezes mais grãos por pessoa que uma dieta baseada no arroz num país como a Índia. O consumo quatro vezes maior de grãos por pessoa significa igual crescimento no consumo de água.68

Outrora um fenômeno localizado, hoje a escassez de água rompe fronteiras, por meio do comércio internacional de grãos. O mercado importador de grãos com maior crescimento no mundo é o da África do Norte e Oriente Médio, área que inclui Marrocos, Argélia, Tunísia Líbia, Egito e países a leste, até o Irã. Praticamente cada país nessa região está sofrendo simultaneamente escassez de água e crescimento populacional acelerado.69

À medida que aumenta a demanda de água pelas cidades e indústrias da região, ela é atendida pelo desvio da água de irrigação. A perda da capacidade de produção de alimentos é então compensada pela importação de grãos do exterior. É a forma mais eficiente para países com déficit hídrico importarem água, uma vez que 1 tonelada de grãos representa mil toneladas do líquido.

Em 2000, o Irã importou 7 milhões de toneladas de trigo, ultrapassando o Japão _ durante décadas, o maior importador mundial de trigo. Em 2001, projeta-se que o Egito também ultrapasse o Japão. Irã e Egito têm uma população de quase 70 milhões cada. Em ambos os países, a população está aumentando em mais de 1 milhão de pessoas por ano, e ambos enfrentam escassez hídrica aguda.70

A água necessária para produzir o grão e outros alimentos importados pela África do Norte e Oriente Médio, em 2000, foi aproximadamente igual à vazão anual do Nilo. Em outros palavras, o déficit hídrico acelerado dessa região é igual a outro Nilo fluindo na região, sob a forma de grãos importados.71

É muito comum ouvir hoje em dia que as guerras futuras na região provavelmente envolverão a disputa pela água e não pelo petróleo. Talvez. Mas, considerando a dificuldade de se vencer uma guerra da água, a competição pelo precioso líquido provavelmente deverá ocorrer nos mercados mundiais de grãos. Os países que "ganharão" essa competição serão aqueles com maior força financeira e não militar.72

O déficit hídrico mundial, medido pela extração excessiva de aqüíferos, aumenta a cada ano, tornando-o cada vez mais difícil de ser


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administrado. Se todos os países decidissem hoje acabar com a extração excessiva e estabilizar os lençóis freáticos, a colheita mundial de grãos sofreria uma redução de aproximadamente 160 milhões de toneladas, ou 8%, e os preços disparariam. Quanto mais os países demorarem a enfrentar essa questão, mais elevado será o déficit hídrico e maior o ajuste final.

Se os governos dos países carentes de água não adotarem medidas urgentes para estabilizar a população e elevar a produtividade hídrica, a escassez de água em pouco tempo se transformará em falta de alimentos. No número crescente de países com déficit hídrico, incluindo os gigantes China e Índia, o risco é que a necessidade de importar grãos suplante a oferta exportável dos países com excedentes de alimentos, como os Estados Unidos, França, Canadá e Austrália. E isso, por sua vez, desestabilizará os mercados mundiais de grãos.

A situação da água está deteriorando rapidamente em muitos países, mas é o déficit hídrico acelerado da China que provavelmente afetará todo o mundo. Uma combinação de 12 milhões de pessoas a mais anualmente, a urbanização, a taxa projetada de crescimento econômico de 7 % e o movimento contínuo dos consumidores chineses ascendendo na cadeia alimentícia praticamente asseguram que a demanda pela água continuará a suplantar a oferta no futuro. Essas tendências também indicam que a necessidade de a China importar grãos poderá vir logo a crescer, da mesma forma que ocorreu, recentemente, com grande parte de sua importação de soja. Entre 1995 e 2000, a China passou da auto-suficiência em soja para o maior comprador mundial, importando mais de 40 % das suas necessidades.73

A escassez de água poderá ser amenizada pela elevação das tarifas para reduzir desperdícios, aumentando assim a eficiência no seu uso. Na China, porém, é difícil. Um anúncio, no início de 2001, dizendo que o governo planejava elevar as tarifas de água gradativamente, ao longo dos próximos cinco anos, foi um passo certo na direção certa. Mas, para Beijing, essa opção está cheia de riscos políticos, uma vez que a resposta da população para o aumento do preço da água, que no passado era quase sempre grátis, assemelha-se àquela dos Estados Unidos, quando os preços da gasolina sobem.74

Outros anúncios recentes em Beijing indicam que o governo abandonou oficialmente sua velha política de auto-suficiência em grãos. A China também anunciou que, diante da intensa competição pela água,


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os centros urbanos e a indústria terão prioridade _ deixando a agricultura como reclamante residual.75

Como observado, a China não está só no enfrentamento à escassez hídrica. Outros países onde a escassez está elevando as importações de grãos, ou ameaçando fazê-lo, incluem Índia, Paquistão, México e dezenas de nações menores. Porém, apenas a China _ com quase 1,3 bilhões de pessoas e um superávit comercial com os Estados Unidos de US$ 80 bilhões anuais _ tem, no curto prazo, o potencial de desequilibrar os mercados mundiais de grãos. Em suma, lençóis freáticos em queda na China poderão em breve significar aumento de preços de alimentos em todo o mundo.76


Sinais de Estresse: A Base Biológica

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Sinais de Estresse:

A Base Biológica

Em abril de 2001, os cientistas do laboratório da Associação Oceânica e Atmosférica Nacional, em Boulder, Colorado, divulgaram que uma imensa tempestade de pó, vinda do norte da China, havia atingido os Estados Unidos, "cobrindo com uma camada de poeira uma extensa área do Canadá ao Arizona." Os habitantes do sopé das Montanhas Rochosas nem podiam vê-las. Poucos americanos sabiam que o pó nos seus carros e a névoa sobre o oeste dos Estados Unidos era, na realidade, solo chinês.1

Essa tempestade de poeira da China, a mais severa entre uma dúzia delas durante a primavera de 2001, assinala uma deterioração generalizada dos pastos e lavouras no vasto noroeste daquele país. Essas gigantescas plumas de pó rotineiramente atravessam centenas de quilômetros em direção a cidades populosas do nordeste da China, inclusive Beijing _ obscurecendo o sol, reduzindo a visibilidade, congestionando o trânsito e fechando aeroportos. Notícias dos habitantes das cidades do leste calafetando janelas com trapos para se protegerem da poeira lembram a Dust Bowl NT americana dos anos 30.2


NT "Dust Bowl", no sudoeste dos EUA, uma região que, durante a grande Depressão da década de 1930, sofreu secas prolongadas com tempestades de poeira.


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Notícias da China caracteristicamente atribuíram as tempestades de poeira à seca dos últimos três anos, mas o que isto fez foi simplesmente trazer à baila uma conjuntura de deterioração acelerada. Excessos no cultivo e pastagem são práticas generalizadas. Os Estados Unidos, por exemplo, com área territorial e capacidade de pastos comparáveis à China, têm 98 milhões de cabeças de gado bovino e 9 milhões de ovinos e caprinos, enquanto a China hoje tem 127 milhões de cabeças de gado bovino e 279 milhões de ovinos e caprinos. Alimentar 1,3 bilhões de pessoas, uma população quase cinco vezes a dos Estados Unidos, não é uma tarefa fácil. Milhões de hectares de terra altamente vulneráveis à erosão e que deveriam ter sido mantidas com capim foram lavradas.3

A comprovação da intensificação do conflito entre a economia e o ecossistema do qual é parte é facilmente visível não apenas não regiões poeirentas que surgem na China, mas também nas florestas trópicais queimando na Indonésia, pesqueiros de bacalhau em colapso no Mar do Norte, queda de produtividade agrícola na África, ampliação da zona morta no Golfo do México e a diminuição dos lençóis freáticos na Índia.

A crescente e mal-estruturada demanda da economia global sobre os ecossistemas está diminuindo a produtividade biológica da Terra. A produção dos sítios pesqueiros oceânicos está sendo minada pela pesca predatória, poluentes marinhos e perturbação do ciclo reprodutivo dos peixes que desovam em rios, quando alguns são represados e outros secam. A pastagem excessiva também está deixando sua marca. Inicialmente, ela reduz a produtividade dos pastos, vindo posteriormente a destruí-los _ transformando-os em deserto.

A capacidade produtiva das florestas mundiais declina à medida que encolhem em mais de 9 milhões de hectares por ano. Extração de madeira, desmatamento para agricultura ou pecuária e colheita de lenha são os responsáveis. Florestas tropicais sadias não queimam, mas florestas fragmentadas podem ser enfraquecidas a ponto de incendiarem-se facilmente pela ação de raios.4

A erosão do solo está reduzindo a produtividade intrínseca de cerca de 36% das terras agrícolas mundiais. Se isso continuar, acabarão se transformando em desertos. Na África, a não-substituição dos nutrientes removidos pelas lavouras está reduzindo a produção em vários países. Quando os ecossistemas locais se deterioram, reduz-se a capacidade de sustentação da terra, disparando um ciclo auto-alimentador de degradação ecológica e aprofundamento da pobreza humana. Com


Sinais de Estresse: A Base Biológica

metade da força de trabalho mundial dependente de terras cultivadas, águas piscosas, pastos e florestas para seus empregos e subsistência, qualquer deterioração desses ecossistemas pode significar o declínio dos seus meios de vida.5

Colapso Pesqueiro

Nos três ecossistemas que fornecem nossos alimentos _ terras cultivadas, pastos e pesqueiros _ talvez o que mais se evidencia seja a pressão excessiva sobre os pesqueiros. Após a II Guerra Mundial, o crescimento populacional acelerado e a renda em ascensão constante dispararam a demanda por frutos do mar. Ao mesmo tempo, os avanços na tecnologia pesqueira, incluindo embarcações processadoras refrigeradas, que possibilitaram às traineiras explorarem oceanos distantes, incrementaram dramaticamente a capacidade da pesca.

Conseqüentemente, o pescado oceânico deu um salto de 19 milhões de toneladas em 1950 para seu pico histórico de 93 milhões de toneladas em 1997. Esse crescimento quíntuplo _ mais do que o dobro do crescimento populacional durante o período _ aumentou o consumo mundial per capita de frutos do mar de 8 quilos em 1950 para um pico de 17 quilos em 1988. Desde então, recuou para 15 quilos, com uma queda de um oitavo.6

A pesca oceânica sempre foi a fonte principal de proteína animal para a dieta de ilhas-nações e países com extensas faixas litorâneas como a Noruega e Itália, mas só na segunda metade do Século XX foi que as frotas pesqueiras começaram a explorar sistematicamente o potencial alimentício dos oceanos. Isso, juntamente com melhores transportes internos e refrigeração, tornou os frutos do mar componentes básicos da dieta da maioria da humanidade.

No início dos anos 90, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), que monitora a pesca oceânica, divulgou que todos os 17 principais sítios pesqueiros do mundo estavam sendo explorados além da capacidade sustentável e 9 estavam em declínio. Muitos países tentavam proteger seus pesqueiros contra a pesca predatória e colapso futuro. Em 1992, o Canadá, que esperou demais para restringir a pesca em seu pesqueiro de bacalhau de mais de 500 anos, ao largo do litoral de Terra Nova, foi forçado a proibir totalmente a pesca, desempregando cerca de 40.000 pescadores e processadores. Além disso, em 1993 o Canadá bloqueou faixas adicionais do mar para


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