Por Kofi Annan
Secretário Geral da ONU e Prêmio Nobel da Paz
Quinze
anos se passaram, desde que a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento apresentou à Assembléia Geral das Nações Unidas seu relatório
histórico, Nosso Futuro Comum. As recomendações da Comissão – unânimes,
sem ressalvas ou notas de rodapé – foram corajosas, visionárias e desafiadoras.
Demandaram um re-ordenamento fundamental das prioridades globais. Ilustraram os
elos inescapáveis entre os interesses ambientais econômicos e sociais. E
estabeleceram o desenvolvimento sustentável como o princípio organizador
central das sociedades em todo o mundo. Na Conferência do Rio de Janeiro, em
1992, os governos reconheceram a grande sabedoria destas constatações; e mais
importante, se comprometeram num esforço global, sem precedentes, para libertar
nossos filhos e netos do perigo de viverem num planeta cujos ecossistemas e
recursos não podem mais prover as suas necessidades.
O marco político e conceitual estabelecido no
Rio, entretanto, não se mostrou decisivo o suficiente para romper o status-quo.
Enquanto a comunidade global se prepara para a Cúpula Mundial sobre
Desenvolvimento Sustentável em Johanesburgo, em setembro de 2002, as abordagens
insustentáveis ao progresso econômico continuam a se difundir. Realmente, já é
tarde para a Cúpula negar a existência do grande vazio entre os objetivos e
promessas estabelecidos no Rio, e a realidade cotidiana tanto dos países ricos
quanto dos pobres. Mas, ainda não é tarde demais para que se dê início à
transformação, de uma maneira mais convincente.
A Cúpula de Johanesburgo pode, e deve, conduzir a
um reconhecimento global mais forte da importância de se conquistar um
equilíbrio sustentável entre a natureza e a economia humana. As
responsabilidades que fluem deste reconhecimento não são idênticas, uma vez que
as nações mundiais se encontram em níveis diferentes de desenvolvimento.
Independentemente destas diferenças, todos devemos entender não apenas que
enfrentamos ameaças comuns, mas também que existem oportunidades comuns para
serem agarradas, se respondermos a este desafio como uma comunidade humana
única.
Para
que a Cúpula Mundial em Johanesburgo nos leve a estratégias eficazes de
desenvolvimento sustentável, também teremos que revigorar a luta contra a
pobreza abjeta e desumanizadora. Teremos que avaliar os riscos associados à
globalização e os imperativos dos mercados globais. Precisaremos dar vida aos
compromissos dos tratados e de outros acordos alcançados pela comunidade
internacional, a fim de salvar a biodiversidade, proteger as florestas,
resguardar contra a mudança climática e parar a marcha da desertificação.
Teremos que reinventar a governança nacional e global.
Precisaremos
de recursos financeiros novos e adicionais. Precisaremos de parcerias fortes
entre nações, organizações não-governamentais, setor privado e outros em
posição de contribuírem, como as comunidades acadêmicas e científicas. E
teremos que realizar tudo isto aderindo aos princípios de equidade e
solidariedade que constam da Carta das Nações Unidas e de outros documentos
orientadores de questões internacionais.
Esta
é, sem dúvida, uma agenda ambiciosa, não menos porque o registro de
desapontamentos já é extenso e o ‘status-quo’ permanece profundamente
arraigado. Estado do Mundo 2002 enfatiza tanto os obstáculos quanto as oportunidades
à frente. Os leitores poderão aprovar ou rejeitar as diversas avaliações e
propostas, mas, poderemos concordar que o estado perigoso do nosso mundo é
objeto de preocupação genuína e urgente. Dispomos dos recursos humanos e
materiais para conquistar um desenvolvimento sustentável. Com liderança,
criatividade e boa vontade em Johanesburgo, e além, um futuro comum próspero e
pacífico poderá ser nosso.
Apresentação por Fernando
Henrique Cardoso
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