|
Texto
Anterior | Próximo
Texto | Índice
TENDÊNCIAS/DEBATES
A "ecomusic"
e os ativos ambientais
EDUARDO ATHAYDE
O grupo Pink Floyd está plantando quatro
florestas em diferentes países com o objetivo de sequestrar o carbono
jogado na atmosfera pela produção do seu CD "Echoes". Gil, Caetano, Milton
Nascimento, Ivete Sangalo, Sandy e Júnior, Xuxa e Marlene Matos poderiam
usar ainda mais a força de suas imagens para ajudar na educação ambiental,
no reflorestamento da mata Atlântica e na preservação da Amazônia, do
Pantanal, da caatinga e do cerrado. Eles podem ser ativos
ambientais. Desde 1950, as emissões de carbono pela queima de
combustíveis fósseis quadruplicaram, chegando a 6,3 bilhões de toneladas
em 2000. Hoje, em um único dia, a humanidade joga na atmosfera mais gás
carbônico do que os seus antepassados jogaram em um século. A natureza,
na visão econológica (social, econômica e ecológica integradas), é
entendida também como capital. Os ativos ambientais são bens de valor
quantitativo, já aceitos pela nova contabilidade ambiental. As florestas
estão sendo destruídas porque são percebidas só pelo seu valor
qualitativo. As águas, as florestas, os ventos, a energia solar, a
biomassa, a reciclagem e o hidrogênio podem ter os seus valores
quantificados, são partes ativas da ecoeconomia. As cidades têm grande
influência sobre o consumo excessivo de recursos naturais. Segundo um
estudo do WWI (Worldwatch Institute), "as cidades ocupam cerca de 2% da
superfície terrestre, mas contribuem para o consumo de 76% da madeira
industrializada e de 60% da água doce". Londres, por exemplo, requer uma
área 58 vezes maior do que a que ocupa para obter alimentos e madeira para
sustento de seus habitantes. Se o padrão dos londrinos fosse estendido ao
resto das populações urbanas do mundo, seriam necessários três planetas
Terra para sustentar a todos. A humanidade gera anualmente cerca de 30
bilhões de toneladas de lixo -e, com esse lixo, potenciais negócios. O
setor mundial de reciclagem hoje processa mais de 600 milhões de toneladas
de materiais anualmente, fatura US$ 160 bilhões/ano e emprega mais de 1,5
milhão de pessoas. Nos EUA, a refabricação já representa US$ 53 bilhões
anuais, proporcionando cerca de 480 mil empregos diretos -o dobro do
número dos empregos da indústria do aço. O vapor de água quente das
termelétricas -antes despejados nos rios- aquece 70% dos edifícios de
Copenhagen, que reutiliza ainda as águas de pias e chuveiros para regar
jardins e pomares domésticos. Na maioria das cidades, a água tratada,
cara, ainda é usada nas descargas e na lavagem de veículos e pisos. A
escassez crescente de água para irrigação pode reduzir em até 10% o
suprimento mundial de alimentos. "Agricultores e pecuaristas nos EUA
estão descobrindo que possuem não apenas a terra, mas também os direitos
eólicos que acompanham a sua propriedade", afirma Lester Brown, fundador
do WWI. Um fazendeiro no Estado de Iowa que arrenda um quarto de acre de
milho à concessionária local para instalação de uma turbina eólica pode
ganhar US$ 2.000 por ano em royalties. Num ano bom, essa mesma área pode
produzir US$ 100 dólares de milho.
Os negócios ecorresponsáveis, como os do grupo Pink Floyd,
expandem-se em todo o mundo
| Segundo a American Wind Energy Association
(Associação Americana de Energia Eólica) o custo por quilowatt/ hora da
eletricidade eólica caiu de US$ 0,38, no início da década de 80, para de
US$ 0,03 a US$ 0,06, hoje. E a geração da energia eólica subiu
vertiginosamente. Mapeando o vento, um ativo ambiental, o Ceará começa
a usar a sua força natural para gerar energia com turbinas eólicas. Os
cearenses podem também contabilizar, entre os seus muitos ativos, Tom
Cavalcante, Chico Anysio e Renato Aragão. Como exemplos, eles podem ajudar
a educar para o desenvolvimento e o consumo sustentáveis. Os negócios
ecorresponsáveis, como os do Pink Floyd, expandem-se em todo o mundo.
Enquanto os "green funds" (fundos verdes) destacam-se em Wall Street, as
florestas encolhem com o comércio mundial dos produtos do extrativismo
florestal, movimentando um mercado que pulou de US$ 29 bilhões, em 61,
para US$ 139 bilhões, 1998. Em 500 anos, essa autofagia destruiu 93% da
Mata Atlântica; em quanto tempo poderemos reconstituí-la, contando com o
Protocolo de Kyoto e o apoio dos artistas, das empresas e da comunidade
internacional? Numa visão global, essa é a nova questão. Uma pesquisa
da Embratur mostra que 95% dos turistas buscam o Brasil por causa dos
recursos naturais. São hóspedes da natureza. As nossas florestas valem
muito mais em pé do que do que deitadas. A proposta de trocar parte da
dívida externa dos países em desenvolvimento por projetos de meio
ambiente, reconduzida pelo ministro Sarney Filho e aprovada pelos 36
ministros presentes ao Fórum de Ministros do Meio Ambiente da América
Latina e Caribe, realizado no Rio, ano passado, foi encaminhada para a
reunião da cúpula internacional sobre Desenvolvimento Sustentável, na
África do Sul, neste ano. "A idade da pedra não acabou porque o mundo
não tinha mais pedras. A idade do petróleo não acabará por não termos mais
petróleo", disse Don Huberts, da Shell Hidrogênio. A BP - Bristish
Petroleum lançou a idéia de BP - Beyond Petroleum (além do petróleo) e a
Royal Dutch Shell investe na Shell Hidrogênio. A Petrobrás, que já aprovou
o embrião de um programa de energias renováveis, pode promover CDs de
brasileiros comprometidos com programas de reflorestamento e preservação
ambiental. Somando as populações dos grandes centros urbanos costeiros,
verificamos que mais de um terço da humanidade vive em apenas 100 km de
costas, amontoada em cidades, e consome música entre os seus divertimentos
prediletos. A música axé, que ainda sacode o país, pode ser substituída
pela ecomúsica, lançada nos trios elétricos, do Carnaval da Bahia para o
mundo, em 2002, declarado pela ONU como Ano Internacional do Ecoturismo. A
noção dos ativos ambientais está nos novos e respeitados índices como o
Dow Jones Sustainability Indexes (índices de sustentabilidade da Dow
Jones) que destacam a performance da sustentabilidade num circulo que
beneficia corporações, investidores, o meio ambiente e a governança
global. Estão, assim, ajudando a tear os fios da trama da vida, conhecendo
e observando a natureza da natureza, da qual somos parte integrante e
indissociável.
Eduardo Athayde é administrador, pesquisador, diretor da UMA
(Universidade Livre da Mata Atlântica) e editor do Worldwatch Institute no
Brasil. http://www.wwiuma.org.br/
|