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TENDÊNCIAS/DEBATES
A outra falta de energia
Mais do que de energia, a falta de estratégia é
dramática; sob a capa da modernização vê-se
um comportamento errático.
Marina Silva
A primeira
Semana do Meio Ambiente do século e do milênio também
foi a primeira semana do racionamento de energia. Mas é preciso
apontar outra falta de energia, a de energia política estratégica
no país para levar adiante um projeto de desenvolvimento que
mereça o nome. O governo vinha sendo alertado havia muito tempo,
inclusive por seus setores especializados, sobre a gravidade da crise
que se aproximava. Recebeu e desdenhou sugestões e propostas
de providências antecipadas. Culpar a falta de chuvas chegou a
ser patético. Foi como culpar o bilheteiro pelo fracasso do espetáculo.
Mais do que energia elétrica, a falta de estratégia é
dramática. Sob a capa falsa de um projeto de modernização,
vê-se um comportamento errático. Em lugar de políticas
públicas consistentes, vemos a criação de personagens
para absorver impactos. É o "ministro do apagão",
o "ministro da seca", a corregedora-geral. Mesmo as boas iniciativas
do governo acabam comprometidas por falta de coerência no conjunto.
É sabido que o uso do solo altera o regime hidrológico.
Desmatamentos e práticas agrícolas inadequadas têm
como consequência sedimentos que, carregados pelos rios, se depositam
principalmente nos reservatórios das hidrelétricas. Embora
essa previsão seja usual no cálculo de reservatórios,
o ritmo do assoreamento no Brasil tem sido muito mais intenso. Se ele
não é o elemento decisivo da situação atual,
poderá vir a ser, pois o país, com a conivência
das políticas governamentais, continua considerando desmatamentos
e práticas agrícolas predatórias como necessárias
para o crescimento econômico.
Um projeto de desenvolvimento consistente deveria necessariamente estar
baseado no uso inteligente de nosso incomparável patrimônio
de recursos naturais para garantir energia, comida, emprego e crescimento.
Mas, tendo como guia as imposições do FMI, o governo fez
o país desembocar nessa crise. E ainda produzirá outras,
agindo como o aprendiz de equilibrista que tenta segurar todos os pratos
no ar, até que deixa cair todos. A substituição
do pensamento estratégico pelo economicismo equilibrista e tarefeiro
está em quase todas as grandes decisões de governo.
Um exemplo: a usina de Sobradinho, na Bahia, integrante do sistema Chesf,
foi usada para mandar grande quantidade de energia para o Sudeste em
2000. Se a água de Sobradinho e de outras barragens da Chesf
tivesse ficado estocada, hoje o Nordeste não teria essa falta
excepcional de água em seus reservatórios. O Sudeste teria
sofrido alguma contenção, mas seguramente não o
racionamento drástico de hoje.
A gestão da energia não se coaduna com decisões
de curto prazo ou com conveniências econômicas conjunturais.
É, por natureza, abrangente. Diferentemente da visão perdulária,
individualista e consumista, energia é um tema que não
pode se dissociar da comunidade, dos conceitos de conservação
e de desenvolvimento, da proteção ambiental e da promoção
de fontes renováveis e de técnicas menos agressivas para
o ambiente e para a saúde humana.
Há providências primárias que se impõem ao
Brasil diante da atual crise, como promover o aumento emergencial dos
investimentos na pesquisa de fontes alternativas de energia e reforçar
a pesquisa aplicada. Temos de implantar _e reforçar os já
existentes_ experimentos em energia eólica, energia solar, de
biomassa e de biogás, entre outras. É com mais investimentos
na diversificação da matriz energética que aperfeiçoaremos
as respectivas tecnologias.
Nosso atraso é bem exemplificado no caso da energia eólica,
baseada na força dos ventos. Merecem elogios as iniciativas de
Ceará e Pernambuco, que há anos investem nessa alternativa.
Lester Brown, do Worldwatch Institute, critica o governo Bush por ter
um programa energético mais adequado ao início do século
20 do que ao início do século 21, com grande incentivo
ao uso do carvão. Mesmo assim os EUA de Bush deverão aumentar
em 60% a capacidade de geração de energia eólica
neste ano!
Com a queda nos custos de geração e a crescente preocupação
com as mudanças climáticas, mais países se voltam
para a energia eólica. Segundo Brown, a Dinamarca, líder
mundial nessa tecnologia, obtém 15% de toda a sua energia a partir
dessa fonte. A Associação Européia de Energia Eólica,
que em 1996 estabeleceu a meta de 40 mil MW para a Europa até
2010, elevou sua estimativa para 60 mil MW. E nós? Quase nada
além de esforços experimentais isolados e truques de última
hora com energia hidrelétrica, que responde por 86% da matriz
energética brasileira.
Uma das maneiras mais eficazes de investir menos nas formas convencionais
é investir em caminhos permanentes de redução do
consumo. O Procel, da Eletrobrás, tem de ser reforçado.
Outro caminho é aproveitar melhor os cerca de R$ 220 milhões
anuais que as concessionárias de energia são obrigadas
a investir, por lei, em ações de conservação.
Hoje, o governo permite que elas canalizem esses recursos para o melhoramento
de suas instalações, o que teriam de fazer com investimentos
de seus cofres.
Há previsões de que a demanda mundial de energia dobrará
até 2030. Não podemos nos render à fatalidade do
esgotamento das fontes não-renováveis e da destruição
do ambiente. Nossos governos, nas suas três esferas, e a sociedade
têm de iniciar um amplo movimento, que vá além de
cortes, sobretaxas e apagões. É preciso restaurar uma
relação inteligente e justa com a energia da natureza,
matéria simbólica e real da nossa própria condição
humana.
Marina Silva, 43, é senadora (PT-AC).
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