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Além de energia e água, o Brasil precisa aprender a
não desperdiçar esta crise de energia. Esta semana, enquanto o governo
federal e o mineiro mantinham sobre problema um debate mais raso do que as
represas, longe das manchetes o presidente do Instituto Worldwatch,
Christopher Flavin, contava ao auditório da Petrobras, no Rio de Janeiro,
que o mundo já descobriu maneiras mais inteligentes de gerar eletricidade.
Era informação de alta voltagem. O Worldwatch, que publica
Sinais
Vitais, o anuário da salvação do planeta, é um banco de dados
ambientais de primeira grandeza. E Flavin, autor de Power Surge, seu
especialista em energia e mudanças climáticas, os dois choques do Brasil
em 2001. E ele garante que a resposta para a crise brasileira está no
vento, como explica nesta entrevista a no.:
O que um ambientalista como o Sr. está fazendo na
Petrobras?
Christopher Flavin - Bem, esta seria uma
pergunta difícil de responder um ano atrás. Na época, provavelmente eu
diria, como dizemos nos Estados Unidos, que não adianta negociar com os
amigos. É preciso negociar com os inimigos se quiser um acordo de paz. Mas
a Petrobras, como todas as grandes companhias de petróleo, está no meio de
uma virada radical em outra direção. É claro que ainda é cedo para saber
com certeza qual será o resultado desta mudança. Mas empresas petrolíferas
sempre produziram muitos problemas ambientais, sobretudo mudanças
climáticas. Mas exatamente por isso elas podem ter um papel fundamental na
solução desses problemas. Acho que se a Petrobras for exposta às
informações e idéias do Worldwatch, isso pode acontecer mais depressa.
O que pode haver de comum entre essas empresas e o
ambientalismo?
Flavin - Mais cedo do que se pensa,
muitas dessas empresas estarão explorando novas fontes alternativas de
energia. Mais ou menos como aconteceu com a IBM, quando veio a era dos
computadores pessoais e da internet. Ela teve que mudar inteiramente sua
filosofia de negócios. É claro que seus executivos não gostaram, houve uma
grande crise, sua participação no mercado caiu. Mas a reação da IBM foi
espetacular. Acho que nos próximos anos veremos grandes companhias de
petróleo desaparecer ou mudar radicalmente, para encontrar o caminho para
explorar o hidrogênio e os novos mercados de energia que estão se
desenvolvendo à nossa frente. Conversei com diretores da Petrobras esta
semana e eles me disseram que estão pensando seriamente em transformar a
Petrobras numa empresa de energia, não apenas de petróleo.
O
que quer dizer isso?
Flavin - Significa investir em
tecnologias de energia limpa e renovável, como células de hidrogênio,
energia solar ou turbinas de vento.
Isso não é ficção
científica?
Flavin - Estão todas muito adiantadas, mas
delas a energia eólica é sem dúvida a que está mais pronta para a largada.
O vento já é a fonte cuja exploração mais cresce no mundo. Na última
década, seu uso aumentou em média 25% ao ano, enquanto o petróleo mal
crescia 2%. A rigor, o consumo mundial de combustível fóssil nem se
expande mais. Chegou a um patamar que parece ser o seu teto. A energia
eólica já está aí. Sua tecnologia é mais barata que a dos combustíveis
fósseis. Seus preços caem verticalmente. E está no topo da lista de opções
da Petrobras. Nós calculamos que o mercado mundial de energia eólica
esteja na faixa dos US$ 4 bilhões por ano. Imagine o que vai acontecer com
um negócio de US$ 4 bilhões que se expande 25% ao ano. Nos próximos dez
anos, estará no mínimo tão grande como o de turbinas a óleo. Será muito,
muito grande.
São as pressões ambientalistas ou as novidades
tecnológicas que o empurram para cima?
Flavin - Uma
combinação das duas coisas, o desenvolvimento tecnológico e mudanças
políticas que ocorreram em vários países de dez anos para cá. As grandes
mudanças ocorreram na Alemanha e na Espanha. Este foi um mercado até agora
dominado por quatro países. Graças a leis que estimularam sua adoção, a
Dinamarca, a Alemanha, a Espanha e os Estados Unidos têm hoje de 80 a 90%
dos geradores a vento. Mas neste momento ele está em plena decolagem para
se tornar de fato internacional. Está uma tecnologia bastante nova. Quase
nada tem a ver com os velhos moinhos de vento. Na prática, nasceu nos anos
1980, quando pela primeira vez começou a ser oferecida na Califórnia por
grandes fornecedores. Antes, era uma coisa meio experimental. As máquinas
eram pequenas e primitivas, produziam pouca energia e custavam
relativamente caro.
E pegou?
Flavin - A
Espanha é um exemplo muito interessante de como ela pode pegar depressa,
mesmo onde não existe nenhuma indústria de base ou qualquer experiência no
ramo. Lá, empresas espanholas se associaram três anos atrás às
dinamarqueses. Com isso, puderam importar a tecnologia e fabricar
domesticamente os equipamentos, o que foi decisivo menos por motivos
econômicos do que políticos: o programa conquistou a simpatia dos
espanhóis porque lhe deu empregos. Na Alemanha, os consumidores aderiram à
energia eólica por razões ambientais. Na Espanha, onde a taxa de
desemprego chega a 14%, porque além de tudo era uma chance de criar
empregos. O resultado é que em menos três anos o país saiu de quase zero
para o clube dos líderes mundiais em energia eólica.
O exemplo
se aplicaria ao Brasil?
Flavin - Claro que sim.
Tecnicamente, a Espanha é um país industrial e o Brasil um país em
desenvolvimento, mas o Brasil um parque industrial muito forte que está
perfeitamente equipado para fabricar turbinas. Tudo o que ele precisa é de
licenças para produzi-las aqui. Isso feito, daria dar um salto igual ao da
Espanha, mesmo porque no Brasil a energia eólica seria mais barata do que
na Europa. E não há muito o que experimentar. Se o vento funciona na
Europa, só pode funcionar aqui. Já existem fazendas de vento no Brasil.
Mas nesse campo os recursos do Nordeste são invejáveis. São ventos
constantes, que sopram praticamente o ano inteiro. Não é qualquer lugar do
mundo que dispõe de um vento desses para explorar.
Por que?
Flavin - Por duas razões. Primeiro, porque seus ventos são
melhores. Segundo, porque o custo da mão-de-obra é menor e no caso isso é
muito importante. Ao contrário da produção de petróleo, por exemplo, a
exploração da energia eólica exige linhas de montagem e serviços de
manutenção que implicam muito mais pessoas trabalhando por cada megawatt
produzido.
Mas os brasileiros em geral e o presidente Fernando
Henrique em particular acham que energia limpa e renovável é a das
hidrelétricas.
Flavin - Então, será preciso fazer uma
campanha para mudar essa crença. As autoridades brasileiras precisarão
aprender que hoje fonte de energia limpa é sinônimo de vento, sol ou
hidrogênio. Evidentemente, as hidrelétricas que o país já tem são um
patrimônio nacional importante e uma base nada desprezível para o sistema
de geração. Ninguém está falando de abandoná-las. Mas não vale mais a pena
ampliá-las quando já existem opções melhores. Fazer agora do gás boliviano
o combustível de um programa energético me parece uma loucura. Gastará com
a compra de gás na Bolívia um dinheiro que se poderia usar aqui na
exploração de fontes próprias de energia renovável. O Brasil ainda importa
grande parte do petróleo que consome. O vento, o sol, o hidrogênio ele tem
de sobra. Pode até exportar a energia que tirar deles.
O Brasil
tem muito o que aprender com essa crise energética?
Flavin - É por isso que considero importante discutir as
alternativas. Pelo visto, ainda se fala muito pouco no Brasil dessas
novidades tecnológicas. Conversei com muitos especialistas brasileiros que
sabem disso muito bem. Mas não sei se eles estão nos lugares certos para
tomar as decisões neste momento. Ignoro se o Governo e o Congresso lhes
dão ouvidos. Ou mesmo se os meios de comunicação os escutam. Mas uma
energia histórica como esta é uma oportunidade histórica. É uma pena
perdê-la por falta de um debate nacional.
Senão, o que ele
perde?
Flavin - Na minha opinião, a maior lição a se
tirar da crise é que o Brasil precisa diversificar suas fontes de energia.
Depender quase exclusivamente das hidrelétricas deu nisto que está aí. O
país já tem uma tradição em usar energia renovável. Agora, precisa
aprender a diversificá-las. E obviamente não está mais na hora de correr
para os combustíveis fósseis, porque eles não têm tanto futuro quanto as
fontes renováveis. Nós temos um slogan que diz: comparadas com as grandes
usinas a gás, as renováveis são mais rápidas, que funcionam em instalações
menos complicadas de construir, mais baratas, porque não dependem de
combustíveis cada vez mais escassos, e mais limpas, porque não poluem o
ar.
Mas há 500 anos os brasileiros aprendem que progredir é
vencer a natureza?
Flavin - Se pensam assim, está em
tempo de mudar. Acredito que a falta de eletricidade trará um grande
impacto psicológico, o que ajuda a acelerar mudanças. Os Estados Unidos,
como Brasil, também cresceram com esse espírito pioneiro de que o
território era um espaço vazio a ocupar de qualquer maneira, ao contrário
dos europeus que, desde sempre, tiveram de conviver com limites. E os
americanos estão mudando.
Como, se lá está o presidente George
Bush mandando a indústria do petróleo avançar sobre o Alasca?
Flavin - O governo Bush está de fato criando um problema,
porque ele passa ao resto do mundo a falsa impressão de que os Estados
Unidos estão mergulhando de volta nos combustíveis fósseis. Isso é
completamente falso. O programa energético de Bush simplesmente perdeu o
contato com a realidade. É chocante. Já correm até piadas nos Estados
Unidos sobre isso. Uma que me agrada: o conceito de diversidade energética
neste governo é que o presidente e o vice vêm de companhias petrolíferas
diferentes. Esse é o problema. Eles foram criados na indústria do
petróleo. E em empresas do Texas, que sempre ficaram muito para trás
nesses assuntos. Na hora de fazer o programa, consultaram seus velhos
amigos petroleiros. Mas o problema energético dos Estados Unidos não está
nas mãos do governo. A maior parte das decisões é tomada no setor privado.
E, quando a isso se soma o fato de que o Partido Republicano perdeu o
controle do Senado - onde os democratas certamente bloquearão as
iniciativas da Casa Branca que não lhes agradam, como perfurar o Alasca -
fica evidente que as idéias de Bush não irão muito longe. Mesmo porque, a
grande indústria já aponta para outra direção. Só no ano passado, a
produção de energia eólica nos Estados Unidos cresceu quase dois mil
megawatts. Pela primeira vez em 15 anos o país está na frente da Alemanha
nessa corrida a favor do vento. Isso não acaba de repente, só porque o
presidente quer.
O Brasil está atrasado nesta corrida?
Flavin - Depois de ver o que aconteceu na Espanha, eu não
acredito mais que um país como o Brasil possa perder a corrida. Tenho
vindo bastante ao Brasil nos últimos nove anos e nesse tempo vi os
computadores e os telefones celulares saíram do nada para tomar conta do
país. O Brasil tem uma certa tradição de começar depois mas fazer as
coisas mais depressas do que os outros países. Com a fartura de recursos
naturais de que dispõe, se ele quiser pode ser campeão mundial de energia
renovável.
com Tito
Montenegro <tmontenegro@no.com.br>
correspondência
<mcorrea@no.com.br>
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