Marcos Sá Corrêa  

versão para impressão para imprimir
envie esta página envie esta página


Terça-feira,
12 de de 2001


 


A resposta está no vento
08.Jun.2001 ]

 





Procurar no arquivo



Ancelmo Gois
Marcos Sá Corrêa
Tutty Vasques
Villas-Bôas Corrêa
Walter Fontoura
Zuenir Ventura

Quem somos
Equipe e contato


Último Segundo

 

Além de energia e água, o Brasil precisa aprender a não desperdiçar esta crise de energia. Esta semana, enquanto o governo federal e o mineiro mantinham sobre problema um debate mais raso do que as represas, longe das manchetes o presidente do Instituto Worldwatch, Christopher Flavin, contava ao auditório da Petrobras, no Rio de Janeiro, que o mundo já descobriu maneiras mais inteligentes de gerar eletricidade. Era informação de alta voltagem. O Worldwatch, que publica Sinais Vitais, o anuário da salvação do planeta, é um banco de dados ambientais de primeira grandeza. E Flavin, autor de Power Surge, seu especialista em energia e mudanças climáticas, os dois choques do Brasil em 2001. E ele garante que a resposta para a crise brasileira está no vento, como explica nesta entrevista a no.:


O que um ambientalista como o Sr. está fazendo na Petrobras?

Christopher Flavin - Bem, esta seria uma pergunta difícil de responder um ano atrás. Na época, provavelmente eu diria, como dizemos nos Estados Unidos, que não adianta negociar com os amigos. É preciso negociar com os inimigos se quiser um acordo de paz. Mas a Petrobras, como todas as grandes companhias de petróleo, está no meio de uma virada radical em outra direção. É claro que ainda é cedo para saber com certeza qual será o resultado desta mudança. Mas empresas petrolíferas sempre produziram muitos problemas ambientais, sobretudo mudanças climáticas. Mas exatamente por isso elas podem ter um papel fundamental na solução desses problemas. Acho que se a Petrobras for exposta às informações e idéias do Worldwatch, isso pode acontecer mais depressa.

O que pode haver de comum entre essas empresas e o ambientalismo?

Flavin - Mais cedo do que se pensa, muitas dessas empresas estarão explorando novas fontes alternativas de energia. Mais ou menos como aconteceu com a IBM, quando veio a era dos computadores pessoais e da internet. Ela teve que mudar inteiramente sua filosofia de negócios. É claro que seus executivos não gostaram, houve uma grande crise, sua participação no mercado caiu. Mas a reação da IBM foi espetacular. Acho que nos próximos anos veremos grandes companhias de petróleo desaparecer ou mudar radicalmente, para encontrar o caminho para explorar o hidrogênio e os novos mercados de energia que estão se desenvolvendo à nossa frente. Conversei com diretores da Petrobras esta semana e eles me disseram que estão pensando seriamente em transformar a Petrobras numa empresa de energia, não apenas de petróleo.

O que quer dizer isso?

Flavin - Significa investir em tecnologias de energia limpa e renovável, como células de hidrogênio, energia solar ou turbinas de vento.

Isso não é ficção científica?

Flavin - Estão todas muito adiantadas, mas delas a energia eólica é sem dúvida a que está mais pronta para a largada. O vento já é a fonte cuja exploração mais cresce no mundo. Na última década, seu uso aumentou em média 25% ao ano, enquanto o petróleo mal crescia 2%. A rigor, o consumo mundial de combustível fóssil nem se expande mais. Chegou a um patamar que parece ser o seu teto. A energia eólica já está aí. Sua tecnologia é mais barata que a dos combustíveis fósseis. Seus preços caem verticalmente. E está no topo da lista de opções da Petrobras. Nós calculamos que o mercado mundial de energia eólica esteja na faixa dos US$ 4 bilhões por ano. Imagine o que vai acontecer com um negócio de US$ 4 bilhões que se expande 25% ao ano. Nos próximos dez anos, estará no mínimo tão grande como o de turbinas a óleo. Será muito, muito grande.

São as pressões ambientalistas ou as novidades tecnológicas que o empurram para cima?

Flavin - Uma combinação das duas coisas, o desenvolvimento tecnológico e mudanças políticas que ocorreram em vários países de dez anos para cá. As grandes mudanças ocorreram na Alemanha e na Espanha. Este foi um mercado até agora dominado por quatro países. Graças a leis que estimularam sua adoção, a Dinamarca, a Alemanha, a Espanha e os Estados Unidos têm hoje de 80 a 90% dos geradores a vento. Mas neste momento ele está em plena decolagem para se tornar de fato internacional. Está uma tecnologia bastante nova. Quase nada tem a ver com os velhos moinhos de vento. Na prática, nasceu nos anos 1980, quando pela primeira vez começou a ser oferecida na Califórnia por grandes fornecedores. Antes, era uma coisa meio experimental. As máquinas eram pequenas e primitivas, produziam pouca energia e custavam relativamente caro.

E pegou?

Flavin - A Espanha é um exemplo muito interessante de como ela pode pegar depressa, mesmo onde não existe nenhuma indústria de base ou qualquer experiência no ramo. Lá, empresas espanholas se associaram três anos atrás às dinamarqueses. Com isso, puderam importar a tecnologia e fabricar domesticamente os equipamentos, o que foi decisivo menos por motivos econômicos do que políticos: o programa conquistou a simpatia dos espanhóis porque lhe deu empregos. Na Alemanha, os consumidores aderiram à energia eólica por razões ambientais. Na Espanha, onde a taxa de desemprego chega a 14%, porque além de tudo era uma chance de criar empregos. O resultado é que em menos três anos o país saiu de quase zero para o clube dos líderes mundiais em energia eólica.

O exemplo se aplicaria ao Brasil?

Flavin - Claro que sim. Tecnicamente, a Espanha é um país industrial e o Brasil um país em desenvolvimento, mas o Brasil um parque industrial muito forte que está perfeitamente equipado para fabricar turbinas. Tudo o que ele precisa é de licenças para produzi-las aqui. Isso feito, daria dar um salto igual ao da Espanha, mesmo porque no Brasil a energia eólica seria mais barata do que na Europa. E não há muito o que experimentar. Se o vento funciona na Europa, só pode funcionar aqui. Já existem fazendas de vento no Brasil. Mas nesse campo os recursos do Nordeste são invejáveis. São ventos constantes, que sopram praticamente o ano inteiro. Não é qualquer lugar do mundo que dispõe de um vento desses para explorar.

Por que?

Flavin - Por duas razões. Primeiro, porque seus ventos são melhores. Segundo, porque o custo da mão-de-obra é menor e no caso isso é muito importante. Ao contrário da produção de petróleo, por exemplo, a exploração da energia eólica exige linhas de montagem e serviços de manutenção que implicam muito mais pessoas trabalhando por cada megawatt produzido.

Mas os brasileiros em geral e o presidente Fernando Henrique em particular acham que energia limpa e renovável é a das hidrelétricas.

Flavin - Então, será preciso fazer uma campanha para mudar essa crença. As autoridades brasileiras precisarão aprender que hoje fonte de energia limpa é sinônimo de vento, sol ou hidrogênio. Evidentemente, as hidrelétricas que o país já tem são um patrimônio nacional importante e uma base nada desprezível para o sistema de geração. Ninguém está falando de abandoná-las. Mas não vale mais a pena ampliá-las quando já existem opções melhores. Fazer agora do gás boliviano o combustível de um programa energético me parece uma loucura. Gastará com a compra de gás na Bolívia um dinheiro que se poderia usar aqui na exploração de fontes próprias de energia renovável. O Brasil ainda importa grande parte do petróleo que consome. O vento, o sol, o hidrogênio ele tem de sobra. Pode até exportar a energia que tirar deles.

O Brasil tem muito o que aprender com essa crise energética?

Flavin - É por isso que considero importante discutir as alternativas. Pelo visto, ainda se fala muito pouco no Brasil dessas novidades tecnológicas. Conversei com muitos especialistas brasileiros que sabem disso muito bem. Mas não sei se eles estão nos lugares certos para tomar as decisões neste momento. Ignoro se o Governo e o Congresso lhes dão ouvidos. Ou mesmo se os meios de comunicação os escutam. Mas uma energia histórica como esta é uma oportunidade histórica. É uma pena perdê-la por falta de um debate nacional.

Senão, o que ele perde?

Flavin - Na minha opinião, a maior lição a se tirar da crise é que o Brasil precisa diversificar suas fontes de energia. Depender quase exclusivamente das hidrelétricas deu nisto que está aí. O país já tem uma tradição em usar energia renovável. Agora, precisa aprender a diversificá-las. E obviamente não está mais na hora de correr para os combustíveis fósseis, porque eles não têm tanto futuro quanto as fontes renováveis. Nós temos um slogan que diz: comparadas com as grandes usinas a gás, as renováveis são mais rápidas, que funcionam em instalações menos complicadas de construir, mais baratas, porque não dependem de combustíveis cada vez mais escassos, e mais limpas, porque não poluem o ar.

Mas há 500 anos os brasileiros aprendem que progredir é vencer a natureza?

Flavin - Se pensam assim, está em tempo de mudar. Acredito que a falta de eletricidade trará um grande impacto psicológico, o que ajuda a acelerar mudanças. Os Estados Unidos, como Brasil, também cresceram com esse espírito pioneiro de que o território era um espaço vazio a ocupar de qualquer maneira, ao contrário dos europeus que, desde sempre, tiveram de conviver com limites. E os americanos estão mudando.

Como, se lá está o presidente George Bush mandando a indústria do petróleo avançar sobre o Alasca?

Flavin - O governo Bush está de fato criando um problema, porque ele passa ao resto do mundo a falsa impressão de que os Estados Unidos estão mergulhando de volta nos combustíveis fósseis. Isso é completamente falso. O programa energético de Bush simplesmente perdeu o contato com a realidade. É chocante. Já correm até piadas nos Estados Unidos sobre isso. Uma que me agrada: o conceito de diversidade energética neste governo é que o presidente e o vice vêm de companhias petrolíferas diferentes. Esse é o problema. Eles foram criados na indústria do petróleo. E em empresas do Texas, que sempre ficaram muito para trás nesses assuntos. Na hora de fazer o programa, consultaram seus velhos amigos petroleiros. Mas o problema energético dos Estados Unidos não está nas mãos do governo. A maior parte das decisões é tomada no setor privado. E, quando a isso se soma o fato de que o Partido Republicano perdeu o controle do Senado - onde os democratas certamente bloquearão as iniciativas da Casa Branca que não lhes agradam, como perfurar o Alasca - fica evidente que as idéias de Bush não irão muito longe. Mesmo porque, a grande indústria já aponta para outra direção. Só no ano passado, a produção de energia eólica nos Estados Unidos cresceu quase dois mil megawatts. Pela primeira vez em 15 anos o país está na frente da Alemanha nessa corrida a favor do vento. Isso não acaba de repente, só porque o presidente quer.

O Brasil está atrasado nesta corrida?

Flavin - Depois de ver o que aconteceu na Espanha, eu não acredito mais que um país como o Brasil possa perder a corrida. Tenho vindo bastante ao Brasil nos últimos nove anos e nesse tempo vi os computadores e os telefones celulares saíram do nada para tomar conta do país. O Brasil tem uma certa tradição de começar depois mas fazer as coisas mais depressas do que os outros países. Com a fartura de recursos naturais de que dispõe, se ele quiser pode ser campeão mundial de energia renovável.

com
Tito Montenegro <tmontenegro@no.com.br>

correspondência para a coluna correspondência <mcorrea@no.com.br>

versão para impressão para imprimir
envie esta página envie esta página

 

Assinar/cancelar

 
Para anunciar
Contato com o
comercial de no.


 
Copyright © 2000 no.com.br

no.com.br
Av. Presidente Wilson 231, sala 603 · 20030-021 Rio de Janeiro RJ · tel +55 21 3804 7750
Av. Brigadeiro Faria Lima 2179, 7º andar · 01452-000 São Paulo SP · tel +55 11 3811 4107
SHN - Quadra 2 - Bloco E - sobreloja 60 · 70710-908 Brasília DF · tel +55 61 327 6091

no@no.com.br