Artigo publicado na Revista

World Watch
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OBSERVANDO x CAÇANDO

 

Nota-se uma mudança nas relações humanas com a vida silvestre, quando milhões deixam de caçar outras espécies pela pele, alimento ou por esporte, para apenas observar. De uma certa forma, é uma nova espécie de caça.

 

por Howard Youth*

 

"Venha cá ... ela voltou," sussurra um homem circunspecto, da Filadélfia, no seu walkie-talkie. Ele está agachado num camping no Parque Estadual Bentsen-Vale do Rio Grande, no extremo sul do Texas. Perto dali, dois homens de cerca de 40 anos de idade se aproximam a passo acelerado. O local, cheio de alimentadores de pássaros, limita-se com uma cortina densa de granjeno, catclaw e outras vegetações nativas que abrigam algumas das aves mais raras da América do Norte. Oito observadores de aves (ou birders, como se autodenominam) já cercam o local, perscrutando através de seus binóculos uma ave marrom, do tamanho de uma andorinha – uma fêmea de "azulejito." Sem seu companheiro, a ave mexicana é a única de sua espécie, segundo se sabe, nos Estados Unidos.

 

"Cadê o azul? pergunta uma mulher, uma texana que está acampando perto do local. "Não irá achar nenhum. Aquela é fêmea," diz um birder de Maryland que, informado por um alerta local de pássaros raros, havia estacionado seu carro alugado alguns minutos antes. "Sim," sussurra um dos corredores recém-chegados, seus dentes e punhos cerrados.

 

"É um grande achado para você" diz seu amigo – checando o "achado" numa lista de toda uma vida de observação de pássaros. "Veja o brilho do marrom em todo o corpo" diz um outro observador, talvez se compensando de qualquer desapontamento em não ter visto o azul brilhante do macho ausente. "Ela é mesmo uma verdadeira beleza."

 

O encontro que tive com a "azulejita" em dezembro de 1999, durante uma viagem ao sul do Texas, poderia ter acontecido em qualquer dos milhares de lugares por toda a América do Norte. As espécies de pássaros podem variar – pode ser um maçarico pipilante ou um surucuá elegante ou uma coruja-gavião do norte – mas a intensidade do fascínio seria a mesma. A observação de pássaros tornou-se um dos passatempos ao ar livre de crescimento mais rápido do continente, e está liderando todos os passatempos emergentes populares de observação da vida silvestre: existem pessoas (e organizações) dedicadas a observar borboletas, flores silvestres, lobos, leões da montanha e baleias. Essa fascinação crescente pela vida silvestre não se limita a América do Norte: ela parece ser um fenômeno global, com grandes implicações econômicas e ecológicas. Cresceu rápido. Hoje algumas espécies valem tanto – se não mais – no seu habitat natural, vivas e livres, do que como caça. Em regiões da África, por exemplo, onde os turistas pagam bem para ver leões, um leão vivo foi calculado em $575.000.  Em muitos casos, onde o turismo de observação da vida silvestre cresceu, a caça diminuiu. Em Belize, à medida que os passeios para observar o peixe-boi geraram lucros crescentes a caça ilegal dos grandes mamíferos tornou-se um problema menor. E existe agora esperança no Sul do Texas de que os habitats restantes do "azulejitos," dos pequenos gatos selvagens chamados ocelotes e de outras espécies raras não serão destruídos por escavadeiras.

 

O interesse crescente na observação da vida silvestre chama atenção para um crescente hiato contínuo, ou a diferença entre valores fundamentais e sensibilidades, entre aqueles que vêem a vida silvestre como um recurso a ser explorado e aqueles que compartilham da retomada de consciência de ter os animais selvagens como co-habitantes num planeta frágil O interesse na observação pode também refletir uma nova área de exploração para a curiosidade humana. Neste milênio, os objetivos exploratórios foram geográficos – e as feras ou árvores estranhas encontradas pelo caminho eram consideradas mais como curiosidades. Hoje, as metas de exploração estão cada vez mais dirigidas ao conhecimento da natureza do mundo que conquistamos. Os mistérios geográficos cederam lugar a outros, ecológicos e biológicos. A observação apurada da vida silvestre levou à percepção que muitos animais possuem níveis surpreendentes de inteligência e organização social, e que muitas plantas também desempenham importantes papéis ecológicos. Numa era de dominação humana perigosamente insustentável, é de grande interesse verificar que muitos dos animais que consideramos como inferiores a nós, na realidade prosperaram por milhões de anos antes de nós e comprovaram suas aptidões de adaptabilidade e sobrevivência. Sejam quais forem nossas razões para observar, estamos hoje menos propensos a ignorar a vida silvestre.

 

"Quanto mais aprendermos sobre outras formas de vida, mais nos divertiremos e nos respeitaremos"

 

Rio Grande Abaixo

 

Conhecidas anteriormente pelas frutas cítricas, algodão, repolho e como um refugio para os "retirantes do inverno" frio do norte (povos Winnebagos ou Airstreams), as cidades na extremidade sul do Texas agora se vangloriam como paraíso de observação de pássaros. Birders, observadores de borboletas e outros amantes da natureza chegam para se apossar de vistas subtropicais que não podem ser vistas em nenhum outro lugar ao norte da fronteira Estados Unidos/México.  O novo turismo pode ter aparecido no momento exato. Em torno de 1999, mais de 95 % do meio-ambiente natural da região tinha desaparecido, após décadas de conversão em pastos, fazendas e subdivisões residenciais. Hoje o Parque Estadual Bentsen-Vale do Rio Grande e outras áreas protegidas compreendem a maioria dos habitat naturais restantes no Vale do Baixo Rio Grande.

 

Embora os Birders estejam vindo para o sul do Texas há mais de 30 anos, somente recentemente o número crescente chamou a atenção de muitos negociantes locais.  Agora os visitantes do Best Western Inn em Harlingen não são mais saudados por pinturas de vaqueiros, rodeios e chapéus de dez galões, mas sim por retratos do papagaio de crista vermelha e do martim-pescador. A brochura da Câmara de Comércio da Área de Harlingen intitulada "Corujas, Gaviões e Beija-flores," apresenta fotos atraentes do green jay, chachala, kiskadee papa-mosca, beija-flor de papo marrom, anum do bico raiado e outros pássaros locais. Três cidades do sul do Texas – Harlingen, McAllen e Raymondville – promovem agora festivais que atraem amantes de pássaros de fora do estado para caminhadas, seminários e vendas de artigos especiais, onde eles compram binóculos, livros e aparelhos ópticos esportivos modernos. Estes foram os primeiros de tais eventos no continente, e agora mais de 200 festivais anuais voltados para a natureza são programados através dos Estados Unidos e Canadá. "Muitas coisas se juntaram nesses cinco anos" declara Frank Judd, residente e professor de Biologia da University of Texas-Pan American em Edinburg. "O Ecoturismo está sendo alardeado na imprensa local e em outros meio de comunicação, o que chamou a atenção do pessoal local que eles podem lucrar com isto. E não faz mal nenhum – só traz dinheiro".

 

E quanto dinheiro?  Uma medida é o valor do único casal de juruviaras, que habitaram o Refúgio Nacional de Vida Silvestre Laguna Atascosa, no sul do México por vários anos no início da década de 1990. Essas aves canoras geraram cerca de US$ 150.000 por ano para os negociantes locais, vizinhos ao refúgio. A cerca de três horas de carro ao norte, 200 grús americanos atraem anualmente US$ 1,2 milhões em turismo para a pequena cidade de Rockport. Os grús chegam à costa central do Texas todo outono, após o acasalamento no Parque Nacional Wood Buffalo, do Canadá. A maioria dos grús passam o inverno no vizinho Refúgio Nacional Aransas. Os visitantes de Rockport podem comprar entradas para passeios de barco que os levam pelos locais onde os pássaros podem ser vistos pescando caranguejos, peixes e rãs na água rasa. Rio Grande abaixo, o Refúgio de Vida Silvestre Santa Ana atrai 100.000 birders por ano que contribuem com cerca de $14 milhões para a economia local.

 

Embora o impacto econômico total das atividades relacionadas com a vida silvestre não possa sempre ser facilmente quantificado, um estudo do Departamento do Interior e Comércio dos Estados Unidos "National Survey of Fishing, Hunting, and Wildlife-associated Recreation" [Levantamento Nacional da Pesca, Caça e Lazer Associado à Vida Silvestre] sugere que observar animais tornou-se mais do que uma indústria informal. Em 1996, de acordo com o estudo, 77 milhões de adultos, cerca de 40 % da população adulta dos Estados Unidos – participaram em alguma forma de lazer relacionado com a vida silvestre. Suas atividades geraram  US$ 100 bilhões em vendas de equipamento, transporte, licenças, hospedagem, alimentação e outras despesas relacionadas com seus interesses ao ar livre.

 

Naturalmente, esses valores incluem aqueles para os quais o lazer relacionado à vida silvestre significa caçar ou pescar, e uma boa parte desses US$ 100 bilhões foram gastos em armas, balas e atrações. Mas mesmo que aqueles que observam a vida silvestre estejam dispersos, ainda assim os valores chegam a 63 milhões de pessoas que geram US$ 29 bilhões.

 

Entre 1991 e 1996 as despesas com excursões de observação da vida silvestre aumentaram em 21 %. Homens e mulheres participaram igualmente nessas atividades.

 

JURUVIARA livre, valia US$ 150.000 anuais para as empresas do sul do Texas

 

A observação da vida silvestre tornou-se também popular em outras regiões do mundo. Em 1994, um relatório do governo australiano demonstrou que 53 % de australianos adultos planejaram realizar excursões centradas na natureza no ano seguinte. E de acordo com uma pesquisa conduzida pela Real Sociedade para a Proteção das Aves (RSPB), mais de 1 milhão de pessoas na Grã Bretanha, num total de cerca de 59 milhões, são birders regulares. "A observação de pássaros neste país é o terceiro lazer mais adotado, perdendo somente para a pesca e o golfe", diz Graham Madge, porta-voz da RSPB. Madge acrescenta que um interesse em pássaros muitos vezes evolui para interesses mais amplos em borboletas, pequenos mamíferos e flores silvestres que compartilhem o mesmo habitat.

 

Porquê Observar?

 

Indubitavelmente, pelo menos algumas das milhares de pessoas que observam pássaros ou baleias o fazem por motivos que pouco se relacionam com a formação de uma consciência ecológica. Ter uma lista de espécies raras pode ser semelhante a marcação dos pontos num jogo e os passeios de fins de semana podem se tornar interessantes mais pela experiência social do que por qualquer relação com a natureza

que eles possam induzir. Mesmo assim, seria difícil imaginar uma atividade qualquer que tenha maior potencial de aumentar o interesses das pessoas – e sua vontade de proteger seriamente – as outras vidas do planeta, do que aquela de observar de perto parte dessas vidas.

 

Pode ser extremamente interessante saber o que motiva realmente a maioria dos observadores da vida silvestre, e em que grau esta motivação poderia ser direcionada para fins mais amplos.

 

Com certeza, um fator nessa tendência tem sido a crescente cobertura dos assuntos ambientais pela mídia nas três últimas décadas – particularmente a intensa documentação da perda da biodiversidade global. Por exemplo, artigos do WWI-Worldwatch Institute.

 

 

Preocupações Antigas

 

Os desenhos de antigas pinturas de cavernas e outros artefatos sugerem que os seres humanos sempre foram fascinados pelas outras espécies - e não simplesmente porque eram perigosas ou comestíveis. nos últimos anos, documentaram diminuição aguda em milhões de espécies de pássaros, peixes, reptis, anfíbios, mamíferos marinhos e primatas. À medida que uma espécie se torna escassa ela adquire um maior valor como curiosidade. Quando somente poucas centenas de membros de uma espécie resistem, estes membros restantes podem ironicamente atrair milhares de seres humanos que lhes prestaram pouca atenção quando a espécie era comum: observe-se o número de pessoas que se juntam para observar pandas, gorilas ou condores da Califórnia, aprisionados.

 

As listas das espécies ameaçadas – e o movimento de resgate que induzem - também geraram um excesso de documentários para televisão e livros ilustrados alardeando as maravilhas que essas criaturas representam. Essas tendências receberam ajuda dos avanços da tecnologia, que permitiu a fotógrafos e operadores registrarem aspectos da vida privadas dos animais que nunca tinham sido vistos antes da década passada. E para as pessoas que querem ver o original, o advento de guias de campo compactos tornou tudo mais fácil. A partir de 1934 Roger Tory Peterson, usando pinturas marcadas por setas e simplificadas, revolucionou a identificação com seus guias de campo de aves dos Estados Unidos e da Europa. Desde então, o mercado floresceu e se diversificou; pode-se encontrar em qualquer grande livraria o Field Guide das Palmeiras das Américas ou um Field Guide das Orquídeas da Costa Rica e Panamá.

 

Além da preocupação crescente com as espécies ameaçadas e perda da biodiversidade, alguns cientistas acreditam que os humanos abrigam uma afinidade inata com outras espécies – o que o biólogo evolucionista E.E Wilson chama de "a necessidade de adotar outras formas de vida" ou "biofilia". Ao longo do tempo, o que era uma ligação física com suas origens na caça e na coleta tornou-se também cultural, religiosa e espiritual. "Nós somos uma espécie biológica que encontrará pouco significado fundamental além do que resta da vida", escreve Wilson.

 

Essa ligação tem sido sempre aparente – como mostra a presença de animais nos mitos, religiões e arte das culturas humanas desde os tempos pré-históricos. Os pintores de caverna Cro-Magnon, por exemplo, representavam as criaturas que eles caçavam e observavam há mais de 30.000 anos atrás. Muitos dos mesmos animais, ou animais semelhantes, dominam os livros infantis de histórias hoje. (Em 1983, Stephen Kellert, acadêmico ambientalista de Yale, descobriu que mais do 90 % dos personagens nos livros de leitura e de aritmética da pré-escola eram animais). Existe o mito de Rômulo e Remo, criados por lobos e fundadores de Roma. A águia marrom tornando-se o símbolo dos Estados Unidos. Ou a tartaruga reaparecendo como um símbolo nativo americano do próprio mundo. Os animais têm sempre participado da cultura humana, mas o que pode ter ocorrido nos poucas décadas passadas é que as culturas dominantes do mundo – cada vez mais dominadas pelo desenvolvimento tecnológico e industrial – separaram-se de forma traumática do que foi outrora sua base.

 

GRÚ AMERICANA Uma revoada rende $1,2 milhões anuais de observadores

 

De qualquer modo, sabemos que em níveis econômicos, étnicos e regionais, as pessoas parecem ser universalmente atraídas pela natureza – seja na forma de um pássaro voando, uma  grande onda ou o esplendor da folhagem de outono. Para muitos, basta só um pouco de inspiração, talvez um passeio pela natureza organizado por um professor ou naturalista, para atraí-los. Uma vez fisgados, alguns observadores entusiastas de pássaros e borboletas pesquisam e rastream sua presa quase como se realizassem caçadas rituais, não letais. Qualquer que seja a inspiração inicial, a maioria dos observadores da vida silvestre sentem necessidade de saber mais sobre os animais ou plantas que amam.

 

Ciência Cidadã

 

Esse interesse crescente em observar representa mais do que um aumento em reservas de hotéis e vendas de binóculos. Notícias sobre extinções iminentes, por exemplo, não desperta apenas curiosidade, mas – freqüentemente – preocupação profunda. A preocupação pode levar à participação em atividades para salvar habitats e espécies, e para um tipo de observação mais bem-informada e organizada – criando um ciclo de realimentação que proporciona ainda mais intensidade à observação. Um dos resultados foi o aumento de um tipo de ciência cidadã, na qual milhares de observadores colecionam espécies avistadas não apenas como um passatempo, mas sim como uma coleta de dados para um ramo  muito importante da ciência.

 

A ciência cidadã hoje desempenha um papel crítico na coleta de dados de longo prazo sobre a vida silvestre e habitats vulneráveis. Por exemplo, a North American Butterfly Association [Associação da Borboleta Norte Americana], uma organização conservacionista sem fins lucrativos, com 3.500 membros, mantém uma contagem anual, no dia da Independência dos Estados Unidos – 4 de julho, um esforço continental onde voluntários identificam e conferem as borboletas que vivem próximas às suas casas. O banco de dados resultante proporciona informações importantes sobre a distribuição e abundância das borboletas. Entre outras constatações, nos últimos sete anos de observação os pesquisadores puderam mapear as principais áreas de concentração do verão da "monarca", uma borboleta migratória comum que preocupa os observadores, pois passa o inverno em apenas algumas florestas restritas e em declínio no interior do México.

 

Desde 1996, o U.S. Geological Survey (GCC) vem fazendo o mesmo para rãs e sapos através do Programa de Monitoramento de Anfíbios Americanos, ou NAAMP [sigla em inglês do American Amphibian Monitoring Program] – uma atividade motivada pela crescente preocupação global com o declínio generalizado de anfíbios. Voluntários rastream as chamadas das rãs e sapos durante as épocas de procriação na primavera e no verão. "É o mais próximo que se pode chegar para se ter uma idéia do que está ocorrendo por toda a paisagem retalhada nos Estados Unidos e Canadá," declara a coordenadora do NAAMP, Linda Weir, que trabalha com estados e províncias na organização de ações conjuntas de monitoramento. Até agora, reuniram-se grupos em 29 estados, utilizando mais de mil voluntários cobrindo cerca de 1.000 rotas ao longo de rodovias. Um programa semelhante está em andamento na Grã-Bretanha e em alguns  outros países europeus. Na Grã-Bretanha, por exemplo, o Censo de Aves Comuns [Common Birds Census], criado em 1970 e realizado principalmente por voluntários, ajudou à criação de um registro de populações de aves. O censo constatou quedas dramáticas nas  populações de aves, antes abundantes em áreas rurais, cujo declínio está sendo atribuído à destruição de cercas vivas e aumento do uso de agrotóxicos, como também práticas de colheita que destruem ninhos e habitats durante a época de procriação.

 

Entre 1970 e 1998, por exemplo, o Censo de Aves Comuns constatou declínios de 82 % nos números de perdizes cinza, de 55 % nas populações de tordos canoros (sabiá) e 52 % nas cotovias. Um dos mais antigos programas da ciência cidadã é o Christmas Bird Count [Contagem de Aves no Natal], patrocinado pela National Audubon Society e já no seu centésimo ano. Mais de 50.000 birders voluntários participaram em dezembro de 1999 e janeiro de 2000, pesquisando as regiões de inverno de várias aves norte-americanas.Outro projeto já bem estabelecido é a Pesquisa de Aves Procriadoras [Breeding Bird Survey] da U.S. Geological Survey, que teve início em 1966. Voluntários percorrem 3.000 rotas rodoviárias anualmente, realizando a contagem de aves canoras e procriadoras nos Estados Unidos e Canadá. Levantamentos semelhantes são realizados localmente em vários estados americanos e na Espanha, Grã-Bretanha e Austrália.

 

Toda essa contagem de outras espécies poderá vir a ajudar outras mudanças em direção à sustentabilidade da própria vida humana, contribuindo para as políticas básicas que regem o uso do solo, proteção de habitats, etc. O Censo de Aves Comuns influenciou o governo britânico, por exemplo, para a alteração de práticas agrícolas nacionais como o estabelecimento de épocas de colheita que não coincidam com os períodos de reprodução.

 

O Éden no Quintal

 

A maior parte da atenção da mídia sobre a observação da vida silvestre, enfocou o ecoturismo, principalmente por ser onde se concentra a maior parte do dinheiro. Com o turismo em expansão em todo o mundo, repórteres e investidores estão ansiosos para saber o que, exatamente, as pessoas procuram em suas viagens. Se eles preferirem uma passagem de barco para observar o grú americano em lugar de um passeio num parque temático, este é um tipo de informação significativa. Porém, na realidade, a maior parte da atividade dos amantes da natureza é feita em casa. Dos 63 milhões de observadores da vida silvestre consultados na Pesquisa Nacional do Lazer Relacionado à Pesca, Caça e Vida Silvestre, em 1996, 44 milhões responderam que observavam a vida silvestre, principalmente aves e mamíferos, em torno do seus próprios quintais. "Quase um terço da população adulta da América do Norte distribui cerca de bilhões de libras de alpiste a cada ano, juntamente com toneladas de sebo e bolos de semente," escreve Stephen W. Kress na revista Audubon.

 

Os entusiastas da vida silvestre de quintal gastam bilhões de dólares anualmente em alimentos, alimentadores e binóculos. Na Grã-Bretanha, a Real Sociedade para a Preservação de Aves calcula que duas em cada três pessoas colocam alimento nos jardins para os pássaros durante os meses de inverno. Muitos observadores de quintal de vida silvestre também decoram seus quintais com plantas que fornecem alimentos de forma mais natural, como bagas de azevim.

 

A ciência cidadã também chegou aos quintais, nos parques públicos e refúgios. O Projeto FeederWatch, um esforço comum entre o Laboratório de Ornitologia de Cornell, a National Audubon Society, Bird Studies Canada e a Canadian Nature Federation, recrutou 14.000 observadores de quintal para fornecerem dados sobre os visitantes alados de suas residências. O projeto rastrea padrões de longo prazo de distribuição, como o alcance crescente da pomba de colar eurasiana; irrupções de curto prazo de espécies distantes de suas regiões normais; e a disseminação de algumas doenças facilmente identificáveis, como conjuntivite em tentilhões.

 

Os quintais também podem criar um maior senso de responsabilidade, pois são pequenos e o cuidado de uma área reduzida pode conscientizar mais as pessoas quanto às ameaças à área do que num grande parque ou região silvestre. Na Grã-Bretanha, por exemplo, muitos jardins são bem pequenos, e os birders não precisam ir além de sua propriedade. Um produto natural de suas observações de quintal foi o incentivo a projetos comunitários, como o da Real Sociedade para a Proteção de Aves em defesa da "escrevedeira-de-garganta preta, (de cor castanho-avermelhada, amarela e preta), cuja última base britânica se encontra no sul do Condado de Devon. As vilas de Bishopsteington e Stokeinfeignhead, após terem sabido que estavam entre os últimos refúgios da "escrevedeira", a adotaram separadamente como a ave-símbolo da vila. No final, os fazendeiros locais se conscientizaram das adversidades e alteraram algumas das suas práticas antigas para salvá-las. "Não há mais áreas realmente silvestres na Grã-Bretanha e não existe qualquer pedaço de terra que não esteja sendo utilizado para alguma finalidade," declara Sue Ellis, porta-voz da English Nature, uma organização que promove a preservação da vida silvestre e habitats na Inglaterra. "A vida silvestre está em nossas portas, portanto quando algo acontece todos estão muito, muito conscientes."

 

Isto é Bom ou Não?

 

Enquanto os observadores da vida silvestre de quintal recebem menos atenção da mídia do que os ecoturistas, muitos deles – além de expandirem suas atenções para projetos comunitários – acabarão se tornando ecoturistas. Em 1998, o turismo mundial como um todo gerou cerca de US$ 441 bilhões, de acordo com a World Tourism Organization, sediada na Espanha. Em seu livro Ecotourism and Sustainable Development: Who Owns Paradise?, Martha Honey chama ecoturismo "... o setor mais dinâmico e de maior crescimento do mercado turístico."

 

É grande o bastante para influenciar decisões críticas em países biologicamente ricos mas escasso em recursos financeiros. Um exemplo de destaque é a Costa Rica, pouco conhecida como destino turístico há duas ou três décadas. Porém, à medida que o mundo tomou conhecimento das verdejantes florestas tropicais, rios transparentes e esplendorosas aves tropicais, o número de visitantes que chegam a cada ano da Europa, Japão e da América do Norte saltou de 200.000 para 1 milhão. Muitos deles vieram visitar os extraordinários parques nacionais e reservas que compõem cerca de um quarto de sua área total. O ecoturismo tornou-se uma das maiores fontes de divisas da Costa Rica.

 

No Quênia e na Tanzânia, também, o ecoturismo no estilo de safári tornou-se uma fonte principal de receita. Em 1995, o Serviço  de Vida Silvestre do Quênia [Kenya Wildlife Service] calculou que o turismo, 80 % do qual se concentrava na observação da vida silvestre, representava um terço das divisas do país. Outros países para os quais o turismo da natureza proporciona receita em divisas de que muito necessitam, incluem a África do Sul, Botswana, Belize, Zâmbia, Equador e Indonésia. Nos Estados Unidos, um grupo denominado Conselho de Obras Turísticas para a América [TourismWorks for América Council] estimou que, em 1996, as áreas do Serviço de Parques Nacionais atraiu US$ 14,2 bilhões para as comunidades locais e gerou cerca de 300.000 empregos relacionados ao turismo.

 

Entretanto, isto nem sempre representa boas notícias para as comunidades e ecossistemas locais. Os benefícios do ecoturismo – econômicos, ecológicos e educacionais – podem ser neutralizados por todo o tipo de malefícios. Pessoas ávidas para ver espécies carismáticas podem atropelar as menos conspícuas; a construção de hotéis para turistas destrói grandes fatias dos próprios ecossistemas que vêm visitar; e as trilhas naturais e estradas abertas para jipes que as utilizam causam a fragmentação cada vez maior do que resta.

 

Aviões a jato e jipes emitem gases de estufa cujo efeitos podem enfraquecer os ecossistemas ainda mais. O que os ecoturistas presumem ser uma observação inofensiva pode se transformar numa intrusão dolorosa. Inadvertidamente, contribuí para uma dessas intrusões na Reserva Masai Mara no Quênia, quando me uni a um safári em 1995. Ao atravessar a reserva, nosso motorista repentinamente saiu da estrada e rompeu pelo capim, despejando aves dos ninhos antes de parar a poucos pés de distância de um leão que estava deitado junto a uma jovem girafa, recém abatida. O leão, claramente perturbado pela nossa presença, arrastou sua refeição para um abrigo, enquanto outros veículos do safári surgiam através do capim alto, vindo em nossa direção. Alguns de nós se sentiu muito mal, porém outros – apontando suas teleobjetivas – claramente se deliciavam por estarem próximos à cena.

 

Por ocasião da minha visita, os operadores turísticos do  Quênia não estavam proibidos de saír das estradas nas reservas nacionais. Durante os  ltimos anos, em parte como conseqüência de reclamações, essa prática foi proibida. Porém outros problemas, inclusive a poluição da água causada pelo esgoto despejado em brejos vizinhos dos sanitários dos hotéis, e a coleta generalizada de lenha para as fogueiras dos "safáris" dos hotéis e dos fornos a lenha, continuam.  À medida que os sítios turísticos se popularizam, outros administradores de parques e reservas estão começando a controlar com mais cuidado a movimentação de turistas. Por exemplo, muitos parques, incluindo o Refúgio Nacional de Vida Silvestre de Santa Ana, hoje proíbem tráfego de veículos na maior parte do tempo, com o resultado que a interação entre pedestres, bicicletas e a vida silvestre não está mais tão perturbadora. Visitantes do Parque Nacional Denali, no Alasca, são obrigados a deixar seus carros do lado de fora, e só podem entrar na área do parque em ônibus programados. O mesmo ocorre em outros parques, como o Santuário de Vida Silvestre Mudumalai, na Índia, onde os visitantes viajam em jipes, ônibus ou em elefantes, para observarem os animais silvestres asiáticos, como elefantes, tigres "gaur"(um tipo de boi selvagem), e outros grandes animais, sensíveis e potencialmente perigosos.

 

Infelizmente, quase sempre é difícil para um grupo de viajantes saber se seus operadores turísticos são "verdes" ou estão  simplesmente indo atrás do verde. "Precisamos [ter] alguma espécie de padrão ético passível de revisão "declara Megan Epler Wood, presidente da Ecotourim Society, com base em Vermont. A Ecotourism Society define o ecoturismo como "excursão responsável para áreas naturais que preservam o ambiente e sustentam o bem-estar dos habitantes locais". Porém, não existe atualmente padrão global ou processo de certificação para a operação do turismo, embora a Costa Rica e a Austrália tenham agora padrões de qualificação específicos para o ecoturismo e estão sendo envidados esforços para sua implementação no Quênia.

 

LEÃO Vivo e livre, vale aproximadamente US$ 575.000.

 

"Nós vemos o ecoturismo como parte de uma estratégia de preservação integrada" diz Greta Ryan, gerente da Conservation International (CI), baseada em Washington D.C. voltada ao desenvolvimento e apoio à indústria do ecoturismo. A CI, sem fins lucrativos, opera em 23 países, com o ecoturismo agora se constituindo um componente importante dos seus trabalhos em 17 deles. O segredo, diz Ryan, é assegurar que os benefícios fiquem na comunidade. Quanto isto acontece, o ecoturismo tende a reforçar o programa geral da CI de três modos. Pela geração da renda local, ele encoraja as comunidades a acolherem outros projetos de preservação.

 

Diminuindo a pobreza, reduz a caça ilegal e o desflorestamento. E ao transformar os bens naturais em peças chave da economia, ajuda a enfatizar a consciência ambiental entre os habitantes e os turistas.

 

Muitas vezes os turistas da natureza adoram o que vêem, sem saber que seu dinheiro é retirado das comunidades locais pelos operadores das cidades grandes ou de fora do país, que na realidade têm pouco interesse na conservação da vida silvestre. "No Quênia, as comunidades que não usufruem os benefícios são menos prováveis de considerarem a vida silvestre positivamente e mais prováveis de desejar removê-las de suas terras," diz Neel Inamdar, diretor da Eco- Resorts, uma agência de viagem voltada ao ecoturismo, e membro da diretoria do African Center for Conservation, baseado no Quênia. "Basicamente, muitos dos parque não se mantêm por eles  mesmos – temos que considerar as pessoas na periferia dos parques. Afinal, a vida silvestre se desloca de um lugar para outro."

 

Iniciativas recentes em áreas vizinhas aos parques africanos incluem programas-piloto nos quais os aldeões e fazendeiros operam reservas de vida silvestre, sob a forma de cooperativas, em suas terras cobrando o trabalho de guia e hospedagem dos visitantes, ao invés de convertê-las em plantação ou pastagens. Algumas áreas frágeis, ou aquelas dentro de reservas, podem simplesmente não ser adequadas para qualquer turismo da natureza. Por exemplo, existem as lagoas de florestas tropicais, outrora habitats da rã dourada, na Reserva Biológica Bosque Nuboso de Monteverde, na Costa Rica. Na edição do WORLD WATCH de setembro/outubro de 1990, eu citei a declaração de Ray Ashton, diretor de uma firma de consultoria internacional chamada Water and Air Research : "As pessoas estão tropeçando nas rãs douradas para ver quetzais." Hoje, estas aves exóticas de longas caudas vermelhas e verdes ainda acasalam na reserva, mas a rã dourada pode estar extinta. Na realidade, ninguém viu uma rã dourada desde logo antes do meu artigo ser publicado, em 1990. Enquanto algumas aceitam abertamente a hipótese sugerida que a mudança climática foi responsável pela dizimação, outros sugerem que os turistas podem ter contribuído inadvertidamente para o desaparecimento, introduzindo patogenias nas solas dos sapatos.

 

Resumindo, se cuidadosamente gerido o turismo da natureza proporciona grandes benefícios para o meio-ambiente. Os observadores da vida silvestre, uma clientela em geral afluente e com bom nível de instrução, estão dispostos a pagar pela observação – e seu poderio econômico favorece a proteção dos lugares onde gostam de fazê-la. Uma pesquisa de 1995 pela Travel Industry Association of América constatou que 83 % dos turistas americanos estão dispostos a darem apoio às agências de viagens "verdes" e a gastar, em media, 6,2 % mais por serviços e produtos de viagem fornecidos pelas agências ambientalmente responsáveis.

 

Nos Estados Unidos, os parques nacionais e os refúgios de vida silvestre agora cobram entrada e os preços de admissão aos  parques em outros países estão sendo elevados. Proprietários de terras privados, também, descobriram que podem cobrar dos visitantes. Os ranchos do sul do Texas, inacessíveis uma ou duas décadas passadas, agora acolhem os birders como um negócio paralelo. Em Cabo May, Nova Jersey, os fazendeiros Les e Diana Rea conseguiram complementar a renda de sua fazenda de feijão-de-lima de 80 acres - que estavam ameaçados de perder há uns anos atrás devido aos custos crescentes e a pressão das imobiliárias – com a manutenção de um habitat em uma das áreas mais atraentes para os pássaros na Costa Leste. Em 1999, o Observatório de Aves do Cabo May firmou um acordo com os Reas para arrendar direitos de observação para a propriedade, pagando o arrendamento com os recursos advindo da venda de licenças para os visitantes. Atualmente, cada primavera e outono eles acolhem inúmeros turistas. A fazenda atrai fascinantes pássaros migrantes, inclusive o quase nunca visto warbler de Connecticut e três dúzias de outras espécies de pássaros canoros.

 

"Certamente, o precedente existiu" declara Pete Dunne, Vice-Presidente da New Jersey Audubon Society, que ajudou os Reas a organizar e gerir o programa. "Os caçadores estão fazendo isto há anos. Não vimos porque não ampliá-lo para a observação de pássaros como um meio de mostrar que os birders estão certamente  prontos para pagar pelo seu passatempo – e como um meio de aliviar as pressões imobiliárias. "A maioria dos fazendeiros querem conservar suas propriedades," diz Dunne. "Neste caso, os birders são simplesmente uma outra "lavoura" comercial. Você não tem de molhá-los, fertilizá- los, ou ará-los, e além de tudo, eles vêm para suas fazendas e compram seus produtos."

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*Howard Yourth é um birder, escritor, economista e ex-editor associado da revista WORLD WATCH.

 

 

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