Prefácio Christopher Flavin
Presidente do Worldwatch Institute

Os últimos cinco anos testemunharam uma
mobilização sem precedentes em termos de
esforços no combate ao avanço da crise ecológica
mundial. Desde 2005, milhares de
novas políticas governamentais foram implementadas,
centenas de bilhões de dólares
foram investidos em negócios e infraestrutura
ecológicos, cientistas e engenheiros aceleraram
enormemente o desenvolvimento de
uma nova geração de tecnologias “verdes” e
os meios de comunicação de massa converteram
problemas ambientais em uma preocupação
preponderante.
Nesse alvoroço de atividades, uma dimensão
de nosso dilema ambiental continua, em
boa parte, negligenciado: suas raízes culturais.
À medida que o consumismo foi se enraizando
em uma cultura depois da outra nos últimos
cinquenta anos, tornou-se um vigoroso
propulsor do aumento inexorável da demanda
por recursos e da produção de lixo que
marca nossa era. Naturalmente, impactos
ambientais dessa magnitude não seriam possíveis
sem uma explosão demográfica inédita,
aumento de riqueza e as descobertas científicas
e tecnológicas. Mas as culturas de consumo
sustentam, e exacerbam, as demais forças
que têm permitido às sociedades humanas
crescer mais do que seus sistemas de sustentação
ambiental.
As culturas humanas são diversas e diversificadas
e, em muitos casos, têm raízes profundas
e antigas. Elas permitem que as pessoas
extraiam sentido de suas vidas e lidem com
relacionamentos com outros e com a natureza.
Os antropólogos relatam de forma notável
que no cerne de muitas culturas tradicionais
existe respeito e proteção aos sistemas naturais
que sustentam as sociedades humanas.
Infelizmente, muitas dessas culturas já se perderam,
juntamente com as línguas e práticas
que cultivaram, e foram colocadas de escanteio
por uma cultura de consumo global que,
em um primeiro momento, se apoderou da
Europa e América do Norte, mas que hoje
está arremetendo para os recônditos mais distantes
do mundo.
Essa nova orientação cultural
é não somente sedutora, mas também
poderosa. Os economistas acreditam que ela
vem desempenhando um papel importante
no estímulo ao crescimento e redução da
pobreza nas últimas décadas.
Mesmo que esses argumentos sejam aceitos,
não pode haver dúvida de que as culturas
de consumo estão por trás daquilo que Gus
Speth denominou a “Grande Colisão” entre
um planeta finito e as demandas aparentemente
infinitas da sociedade humana. Mais de 6,8
bilhões de seres humanos estão hoje exigindo
quantidades cada vez maiores de recursos
materiais, dizimando os ecossistemas mais
ricos do mundo e despejando bilhões de toneladas
de gases que bloqueiam o calor na
atmosfera ano a ano. Apesar de um aumento
de 30% na eficiência de recursos, o uso de
recursos globais aumentou 50% nos últimos
30 anos.
E esses números poderiam continuar
a aumentar rapidamente por décadas à frente,
considerando-se que mais de 5 bilhões de pessoas,
que atualmente consomem um décimo
dos recursos per capita do europeu médio,
tentam seguir o caminho aberto pelos ricos.
O Estado do Mundo abordou anteriormente
as dimensões culturais da sustentabilidade,
particularmente no Estado do Mundo 2004,
cujo foco foi o consumo. Mas essas discussões
foram breves e superficiais. No começo do
ano passado, meu colega Erik Assadourian
convenceu-me que o elefante na sala não
poderia continuar a ser ignorado. No
Worldwatch, nenhuma ideia boa fica sem
punição, e Erik tornou-se o Diretor de
Projeto do livro deste ano.
Embora mudar uma cultura, particularmente
uma que seja de âmbito global, pareça
desanimador, para não dizer impossível, os
capítulos a seguir irão convencê-lo do contrário.
Eles contêm diversos exemplos de pioneiros
culturais – de líderes empresariais e autoridades
governamentais a professores do ensino
infantil e monges budistas. Esses pioneiros
estão convencendo seus clientes, eleitores e
colegas das vantagens de uma cultura que se
respalde na natureza e assegure que as gerações
futuras vivam tão bem, ou melhor, do
que a atual.
Valores religiosos podem ser revitalizados,
modelos de negócios podem ser transformados
e paradigmas educacionais podem ser
ampliados.
Até mesmo publicitários, advogados
e músicos podem provocar mudanças culturais
que lhes permitam contribuir com a
sustentabilidade, e não arruiná-la.
Embora o poder destrutivo das culturas
modernas seja uma realidade que muitos
governos e empresários continuam a ignorar
propositadamente, ele é sentido de forma
aguda por uma nova geração de ambientalistas
que está crescendo em uma era de limites globais.
Os jovens sempre são uma força cultural
potente e, em geral, um indicador expressivo
dos rumos da cultura.
Dos chineses modernos
que se inspiram na antiga filosofia taoista aos
indianos que citam a obra de Mahatma
Gandhi, dos americanos que seguem os ensinamentos
da nova Bíblia Verde aos europeus
que se apoiam nos princípios científicos da
ecologia, o Estado do Mundo 2010 documenta
que o renascimento de culturas de sustentabilidade
já está em curso.
Para assegurar que esse renascimento
tenha êxito, precisaremos fazer com que um
modo de vida sustentável seja tão natural
amanhã como o consumismo é hoje. Esta
publicação mostra que isso está começando a
acontecer.
Na Itália, os cardápios escolares
estão sendo reformulados, empregando alimentos
locais saudáveis e ambientalmente
benéficos, transformando, no processo, as
normas de dieta infantil. Em subúrbios como
Vauban, na Alemanha, faixas para ciclistas,
turbinas eólicas e feiras de produtos agrícolas
vendidos diretamente pelos produtores estão
não apenas facilitando um modo de vida sustentável,
mas também dificultando não fazêlo.
Na Interface Corporation, nos Estados
Unidos, o CEO Ray Anderson radicalizou
uma cultura de negócios ao estabelecer a
meta de não tirar nada da Terra que não possa
ser por ela substituído. E no Equador, os
direitos do planeta até mesmo entraram na
constituição, oferecendo assim um forte
impulso para proteger os sistemas ecológicos
do país e assegurar a prosperidade de seu
povo a longo prazo.
Embora os pioneiros em sustentabilidade
ainda sejam poucos numericamente, suas
vozes soam cada vez mais alto, e, num
momento de profunda crise econômica e
política, essas vozes estão sendo ouvidas.
Enquanto o mundo luta para se recuperar da
mais séria crise econômica global desde a
Grande Depressão, temos uma oportunidade
inédita para rejeitar o consumismo.
A privação forçada está fazendo com que
muitos repensem os benefícios de níveis de
consumo cada vez maiores, e o consequente
endividamento, estresse e problemas crônicos
de saúde. No início de 2009, a Time
Magazine proclamou o “fim do excesso” e
convocou os americanos a apertar o botão de
“reinicialização” em seus valores culturais. De
fato, muita gente já está questionando a cultura
de caubói, comprando carros menores, mudando-se para casas menos grandiosas e
revendo a ocupação desordenada em áreas
suburbanas que caracterizou a era pós-guerra.
E nos países pobres do mundo todo, as desvantagens
do “modelo americano” estão
sendo discutidas abertamente. Em Blessed
Unrest [Bendita Inquietação], Paul Hawken
documentou a recente proliferação de diversos
movimentos não-governamentais que hoje
trabalham para redefinir o relacionamento dos
seres humanos entre si e com o planeta.
Embora o consumismo permaneça pujante
e entranhado, de modo algum poderá ser tão
durável como a maioria supõe. Nossas culturas
estão, de fato, plantando as sementes de sua
própria destruição. No final, o instinto humano
de sobrevivência deverá triunfar sobre a
compulsão para consumir a qualquer custo. |