por Brian Halweil*
Desde
1992, o Corpo de Engenharia do Exército dos Estados Unidos vem desenvolvendo
planos para ampliar o sistema de diques e comportas ao longo do Rio Mississipi.
O Mississipi é a principal via de escoamento da soja americana para os mercados
mundiais – cerca de 35.000 toneladas por dia. Estes planos significam despejar
cerca de 1,2 milhões de toneladas de concreto para ampliar dez das comportas,
de 180 para 360 metros cada, como também reforçar vários espigões que estreitam
o rio, mantendo as barcaças de soja em movimento e evitando a sedimentação.
Esta construção complementaria as dragas já existentes que retiram 85 milhões
de metros cúbicos de areia e lama do fundo e das margens do rio a cada ano.
Vários níveis diferentes de “aperfeiçoamento” do rio foram considerados, porém
o mais ambicioso supostamente reduziria o custo do transporte de soja de 4 a 8
centavos de dólar por bushel [35,24 litros]. Alguns analistas independentes
consideram este plano impraticável.
Aproximadamente
na mesma época em que o projeto para o Mississipi foi anunciado, os cinco
países da Bacia do Prata, na América do Sul – Bolívia, Brasil, Paraguai,
Argentina e Uruguai – anunciaram planos para a dragagem de 13 milhões de metros
cúbicos de areia, lama e pedra, em 233 locais ao longo do Rio Paraguai -
Paraná.. Esta quantidade daria para encher um comboio de caminhões basculantes
de 16.000 quilômetros de extensão. Aqui, o projeto é alinhar a sinuosidade
natural do rio em pelo menos sete locais, construir dezenas de comportas e um
grande porto no coração do Pantanal – a maior região alagada do mundo. O
Paraguai - Paraná flui pelo centro da emergente região de soja do Brasil –
atrás apenas dos Estados Unidos em produção e exportação. De acordo com
declarações do Governo do Estado do Mato Grosso, esta hidrovia dará um maior
incremento à capacidade de exportação de soja da região.
Lobistas
para ambos os projetos argumentam que a expansão da capacidade de
navegabilidade das barcaças nesses rios é necessária, a fim de proporcionar
maior competitividade, conquistar fatias de mercado e retirar os fazendeiros
(americanos ou brasileiros, dependendo a quem os lobistas estejam se dirigindo)
de sua pior crise financeira desde a Grande Depressão. Chris Brescia,
Presidente da Midwest River Coalition
2000, uma aliança de transportadoras
de produtos primários que compõe a principal força lobista do projeto do
Mississipi, diz, “Quanto mais cedo fornecermos uma estrutura hidroviária, mais
cedo nossos fazendeiros se beneficiarão.” Alguns dos seus colegas lobistas chegam
a argumentar que esses projetos são essenciais para a alimentação mundial (uma
vez que as barcaças poderão acelerar o envio da soja para as massas famintas
globais) e para a salvação do meio-ambiente (uma vez que as massas famintas não
terão que desmatar as florestas para extrair sua própria subsistência).
Provavelmente,
pouquíssimas pessoas tiveram oportunidade de ouvir ambos os argumentos e
compará-los. Todavia, quem o fez poderá achar que algo não soa bem no argumento
que os fazendeiros americanos se tornarão mais competitivos em comparação aos
brasileiros, ao mesmo tempo que os fazendeiros brasileiros, pelas mesmas
razões, se tornarão mais competitivos em comparação aos americanos. Um
resultado mais provável é que os fazendeiros destas duas nações estarão se
confrontando numa corrida onerosa para maximizar a produção, provocando
práticas que irão essencialmente degradar seus solos e lançar às favas os
investimentos de longo prazo. Os fazendeiros em Iowa se sentirão mais
incentivados a arar as terras ao longo dos rios, acelerando a erosão da camada
superior do solo. Seus irmãos no Brasil se virão forçados a penetrar mais no
cerrado, também acelerando a erosão. Realmente, o fluxo da soja irá aumentar –
tanto no norte como no sul. Mas também irá deprimir ainda mais os preços e
assim, mesmo quando os fazendeiros embarcam mais quantidade, recebem menos
receita por tonelada transportada. De qualquer maneira, volumes crescentes não
ajudarão à sobrevivência dos fazendeiros a longo prazo, pois mais cedo ou mais
tarde serão engolidos pelas grandes fazendas corporativas que podem compensar
as margens menores, por tonelada, produzindo volumes maiores.
Então,
como podem os que apoiam esses projetos fluviais, que se proclamam defensores
dos melhores interesses dos fazendeiros, não perceber a ilogicidade dessa forma
de competição? Uma explicação é que, do ponto de vista dos defensores
(contrariamente ao dos fazendeiros), essa competição não é, de forma alguma,
ilógica – já que os lobistas, na realidade, não representam os fazendeiros.
Trabalham para empresas processadoras, transportadoras e comercializadoras de
commodities que desejam a queda do preço da soja, pois são elas que adquirem os
produtos dos lavradores. Na realidade, são os mesmos três conglomerados do agronegócio
– Archer Daniels Midland (ADM), Cargill e Bunge – os maiores processadores e
comercializadores de soja ao longo de ambos os rios.
Bem-vindos
sejam à economia global! Quanto mais violentamente os fazendeiros americanos e
brasileiros abaterem seus preços (e padrões de vida), maior a margem de lucro
desses três gigantes. Enquanto isso, outro punhado de empresas controla os
mercados de sementes geneticamente modificadas, fertilizantes e herbicidas
utilizados pelos fazendeiros – cobrando preços oligopolisticamente altos, tanto
ao norte quanto ao sul do Equador.
Ao
avaliar o que essa escavação e reconfiguração de duas das maiores bacias
hidrográficas do mundo realmente significa, mantenha em mente que esses
projetos não serão atividades de negócios privados, operando em suas
propriedades privadas. São obras públicas sendo propostas, a serem realizadas a
um custo público imenso. O motivo não é a má situação do pequeno lavrador nem
qualquer obrigação moral para alimentar o mundo, mas sim a oportunidade de explorar
os sentimentos de um público mal informado sobre as dificuldades dos
fazendeiros ou as massas famintas, como um meio de usurpar políticas públicas
em benefício próprio. O que realmente fica enlameado em todo esse processo é
que, além de conduzir os fazendeiros para um combate de gladiadores, esses
projetos provavelmente trarão uma sucessão de impactos econômicos, sociais e
ecológicos adversos às próprias bacias hidrográficas tão dispendiosamente
remodeladas.
O que
acontecerá se o sistema de diques e comportas do Mississipi for ampliado,
conforme o projeto? O resultado mais óbvio será um tráfego mais intenso de
barcaças, que desencadeará uma sucessão menos óbvia de ocorrências já em
andamento há algum tempo, de acordo com Mike Davis, do Departamento de Recursos
Naturais de Minnesota. A maior parte do ecossistema do Rio Mississipi contém
plantas aquáticas, como junco, seta e aipo silvestre. Um aumento do tráfego de
barcaças levantará mais sedimento, obscurecendo a luz solar e reduzindo a
profundidade onde as plantas sobrevivem. Já desde a década de 70, o número de
espécies aquáticas encontradas em partes do rio foi reduzido de 23 para cerca
da metade, com apenas um punhado conseguindo viver sob as condições mais
turvas. “Algumas áreas do rio chegaram a um ponto ecológico decisivo,” alerta
Davis. “Este declínio na diversidade vegetal provocou uma queda nas comunidades
de invertebrados que vivem nessas plantas, como também uma queda em peixes,
moluscos e aves que dependem da diversidade de insetos e plantas.” Em 18 de
maio de 2000, o U.S. Fish and Wildlife Service [Serviço
de Fauna e Pesca dos Estados Unidos] publicou um estudo declarando que o
projeto do Corpo de Engenharia ameaçaria as 300 espécies de aves migratórias e
127 espécies de peixe na bacia hidrográfica do Mississipi, causando
possivelmente a extinção de algumas. “A pequena andorinha-do-mar, o esturjão
pálido e outras espécies que evoluíram no fluxo e refluxo, nos bancos de areia
e no fundo do rio estão sendo gradativamente eliminadas ou expulsas à medida
que a diversidade dos habitats naturais do rio é removida para maximizar os
habitats das barcaças,” diz Davis.
A
perspectiva para a projeto da hidrovia brasileira é semelhante. Mark Robbins,
um ornitólogo do Museu de História Natural da Universidade de Kansas, o
descreve como “um passo importante para criar um cenário de destruição no
Pantanal semelhante ao Everglades da Flórida e um cenário semelhante às Great Plains americanas no cerrado do
sul do Brasil.” O Paraguai - Paraná abastece o Pantanal, um dos habitas mais
diversificados do planeta, com suas populações de maguaris,
gaviões-caramujeiros, carões, jabirus e mais de 650 outras espécies de aves,
como também mais de 400 espécies de peixes e centenas de outros vegetais menos
pesquisados, mexilhões e organismos de brejo. À medida que o rio é dragado e as
margens elevadas para canalizar a água para a via de navegação, os habitas para
os ninhos de aves e as áreas de desova de peixes serão eliminados, prejudicando
as sociedades indígenas e tradicionais que dependem destes recursos. O tráfego
mais intenso das barcaças suprimirá as espécies fluviais, aqui, da mesma forma
que no Mississipi. Enquanto isso, as monoculturas da soja, intensivas no uso de
herbicidas – em fazendas tão gigantescas que fazem as grandes propriedades do
Centro-Oeste americano parecerem pequenas – estão substituindo rapidamente as
pradarias diversificadas do frágil Cerrado. A lavragem intensa e ausência
periódica de cobertura do solo associados com este cultivo, erode 100 milhões
de toneladas de solo por ano. Robbins observa que “em comparação ao Mississipi,
este sistema fluvial e sua pradaria circundante, é mais diversificado em várias
ordens de grandeza e, tendo sido muito menos afetado, corre um risco bem
maior.”
Os
defensores desta perturbação maciça argumentam que ela se justifica por ser a
forma mais “eficiente” de se fazer negócio. A eficiência desse cultivo pode ser
comparada à eficiência de um sistema energético com base no carvão. A queima do
carvão parece muito eficiente se ignorarmos os impactos de longo prazo na
qualidade do ar e estabilidade do clima. Igualmente, grandes lavouras parecem
mais eficiente do que as pequenas se não considerarmos alguns dos seus custos
maiores – a perda da diversidade genética que embasa a agricultura, a poluição
causada por agrotóxicos e o deslocamento de culturas rurais. A simultaneidade
do desaparecimento do pequeno lavrador independente com o crescimento dos
gigantes multinacionais dos alimentos é preocupante, não apenas para aqueles que
se identificam com os lavradores deslocados, mas também para qualquer um que se
alimenta.
Uma Espécie
Ameaçada
Hoje em
dia, a maioria de nós nos países industrializados não se dedica à lavoura,
portanto não conhecemos realmente este modo de vida. Nasci na região macieira e
leiteira do Condado de Dutchess, Nova Iorque, mas desde os cinco anos de idade
vivi a maior parte da minha vida na Cidade de Nova Iorque – enquanto a maioria
das fazendas do Condado de Dutchess se subdividiam. Também é difícil para nós.
que obtemos nossos alimentos das prateleiras dos supermercados, ou janelas
“drive-thru,” perceber o nosso grau de dependência da viabilidade das
comunidades rurais.
Seja no
mundo industrializado, onde as comunidades agrícolas estão envelhecendo e se
esvaziando, ou nos países em desenvolvimento, onde o crescimento populacional
está elevando cada vez mais o número de lavradores e cada geração herdando
lotes menores, é cada vez mais difícil tirar o sustento da agricultura. Uma
combinação de declínio de renda, elevação de dívida e agravamento da pobreza
rural, está forçando mais pessoas a abandonarem a lavoura como atividade
principal, ou o próprio campo – uma encruzilhada desnorteante, considerando que
os fazendeiros produzem o único bem do qual a raça humana não pode se privar.
Desde
1950, o número de pessoas empregadas na agricultura despencou em todos os
países industrializados, chegando a quase 80 porcento em algumas regiões.
Analisando os números pode-se pensar que os fazendeiros estão sendo selecionados
por algum tipo de vírus:
¨ No Japão, mais da metade dos
fazendeiros tem mais de 65 anos de idade; nos Estados Unidos, a relação dos
fazendeiros com mais de 65 anos para os que estão abaixo de 35 é de três por
um. (Na aposentadoria ou morte, muitos passarão a fazenda para filhos que vivem
na cidade e não têm interesse na agricultura.)
¨ Na Nova Zelândia, as
autoridades calculam que 6.000 fazendas de gado leiteiro desaparecerão nos
próximos 10 a 15 anos – reduzindo o número total em quase 40 porcento.
¨ Na Polônia, 1,8 milhões de
fazendas podem desaparecer à medida que a nação é absorvida pela União Européia
– reduzindo o número total em 90 porcento.
¨ Na Suécia, o número de
fazendas que se extinguirão na próxima década deverá alcançar cerca de 50
porcento.
¨ Nas Filipinas, a Oxfam
calcula que nos próximos anos o número de famílias agrícolas na região
produtora de milho, em Mindanao, poderá sofrer um declínio de aproximadamente
500.000 – uma perda de 50 porcento.
¨ Nos Estados Unidos, onde a
maior parte da população era agrícola na ocasião da Revolução Americana, há
menos pessoas hoje se dedicando integralmente à agricultura (menos de 1
porcento da população) do que existem de presidiários em tempo integral.
¨ Nos estados norte-americanos
de Nebraska e Iowa, entre um quinto e um terço dos fazendeiros estarão falidos
dentro de dois anos.
Naturalmente, os números declinantes de fazendeiros
nas nações industrializadas não significam uma redução da importância do setor
agrícola. O mundo ainda precisa comer (e 80 milhões mais de bocas para
alimentar a cada ano), portanto número menor de fazendeiros significa maiores
fazendas e maior concentração de posse. Apesar de uma queda vertiginosa no
número de pessoas empregadas na agricultura na América do Norte, Europa e Ásia
Oriental, metade da população mundial ainda retira seu sustento da terra. Na
África sub-saariana e no Sul da Ásia, mais de 70 porcento o fazem. Nestas
regiões, a agricultura representa, em média, metade da atividade econômica
total.
Alguns podem argumentar que o
declínio dos fazendeiros não tem importância maior, e seja até mesmo uma
bênção, particularmente nos países em desenvolvimento que não passaram pela
modernização que transfere camponeses de regiões rurais atrasadas para as
economias mais avançadas das cidades. Durante a maior parte dos dois últimos
séculos, a mudança que causa a redução do número de fazendeiros foi geralmente
considerada como um tipo de progresso. A substituição de mulheres lentas e
homens com enxada por tratores a diesel, de alta potência, ou grupos de
pequenas lavouras “antiquadas” por grandes fazendas industriais mecanizadas, é
vista caracteristicamente como o caminho para uma maior abundância e
disponibilidade de alimentos. Nossa sociedade urbana já chega a considerar a
vida rural, especialmente sob a forma de pequenos negócios familiares, como
atrasada ou entediante, adequada apenas para pessoas que vestem macacões e
dormem cedo – longe da sofisticação e dinamismo da cidade.
A vida urbana realmente proporciona
uma gama de oportunidades, atrações e esperanças – algumas criadas
artificialmente pela mídia comercial urbana – que muitas famílias rurais
decidem buscar voluntariamente. Porém, a vida urbana é freqüentemente
desapontadora quando fazendeiros deslocados se vêem alojados em cortiços, onde
o desemprego e doença são a norma e onde vivem pior do que de onde vieram. Há
evidências que sugerem que o que traz os fazendeiros à cidade não é tanto a
atração urbana e sim terem sido expulsos de suas terras por uma variedade de
mudanças estruturais nas operações da cadeia alimentícia global. Bob Long, um
rancheiro no Condado de McPherson, Nebraska, declarou num artigo recente do New York Times que transferir a fazendo
para seu filho seria nada mais que “abuso infantil.”
Enquanto as cidades permanecerem sob
a pressão do crescimento populacional (uma situação que deverá continuar pelo
menos pelas próximas três a quatro décadas), sempre haverá pressão para uma
parcela maior da humanidade subsistir no campo. Mesmo na América do Norte e
Europa, altamente urbanizadas, cerca de 25 porcento da população – 275 milhões
de pessoas – ainda reside em áreas rurais. Enquanto isso, para os 3 bilhões de
africanos, asiáticos e latino-americanos que continuam no campo – e que lá
permanecerão no futuro previsível – a marginalização dos fazendeiros
estabeleceu um círculo vicioso de baixa conquista educacional, alta mortalidade
infantil e aprofundamento de angústia mental.
Servos em Suas Próprias
Glebas
Nos
séculos XVIII e XIX, os fazendeiros não estavam tão enredados. A maioria não
era rica, mas em geral gozava de um renda estável e fortes laços comunitários.
Fazendas diversificadas produziam uma variedade de produtos primários e
processados que o fazendeiro podia vender nos mercados locais. Os custos de
produção eram inferiores aos de hoje, pois a maioria dos insumos necessários
eram produzidos na própria fazenda: os fazendeiros plantavam as sementes que
armazenavam no ano anterior, as vacas e porcos proporcionavam o adubo e a
diversidade de lavouras – geralmente uma grande variedade de grãos, tubérculos,
legumes e verduras, ervas, flores e frutas para uso doméstico e para venda –
funcionava efetivamente como um controle de pragas.
As coisas mudaram, especialmente no
último meio século, de acordo com o economista agrícola do Estado de Iowa, Mike
Duffy. “O fim da II Guerra Mundial foi um divisor de águas,” diz ele. “A
introdução generalizada de fertilizantes químicos e pesticidas sintéticos,
produzidos como parte do esforço de guerra, desencadeou mudanças dramáticas no estilo
da agricultura – e um declínio dramático no número de fazendeiros.” No período
pós-guerra, juntamente com a mecanização crescente, surgiu uma tendência cada
vez maior de “terceirizar” tarefas que os fazendeiros anteriormente realizavam
– desde a produção do próprio adubo até a limpeza e embalagem da sua colheita.
Esta terceirização, que pode ter sido uma conveniência bem-vinda na época,
acabou revertendo em prejuízo: inicialmente, permitiu que os fazendeiros
aumentassem a produção e, assim, seus lucros, porém quando todos os fazendeiros
acompanharam esta prática, os preços começaram a cair.
Logo a atividade de processamento e
embalagem estava agregando mais “valor” ao produto adquirido do que o
fazendeiro e foram estas atividades que se tornaram os atores dominantes na
indústria alimentícia. Ao invés de fazendeiros terceirizando empreitadas, os
grandes processadores de alimentos, nas suas próprias condições, adquiriam a
matéria prima dos fazendeiros. Hoje, o maior valor está no trabalho que o
fazendeiro não realiza mais – ou até mesmo controla. Nos Estados Unidos, a
parcela do dólar do consumidor que pinga de volta ao produtor caiu de quase 40
centavos em 1910 para pouco mais de 7 centavos em 1997, enquanto as parcelas
que vão para as empresas de insumos (maquinário, agrotóxico e sementes) e
comercialização (processamento, embarque, corretagem, publicidade e varejo),
continuam a expandir. O típico produtor de trigo nos Estados Unidos, por
exemplo, recebe apenas 6 centavos do dólar pago por uma bisnaga de pão –
portanto, quando você compra o pão, está pagando quase o mesmo pela embalagem
que para o trigo.
Ironicamente, à medida que as
fazendas americanas se tornaram mais mecanizadas e mais “produtivas,” um ‘ciclo
de retorno’ auto-destrutivo foi colocado em movimento: o excesso de oferta e
preços declinantes corroeram os lucros dos fazendeiros, alimentando uma demanda
por mais tecnologia destinada a compensar margens de lucro reduzidas,
aumentando os volumes ainda mais. A produção aumentou dramaticamente, porém as
despesas (com tratores, colheitadeiras/trilhadeiras combinadas, fertilizantes e
sementes) também dispararam – enquanto os preços das commodities estagnaram ou
caíram. Mesmo enquanto buscavam mais e mais modernização, os fazendeiros se
tornavam menos e menos senhores de seus próprios domínios.
Numa fazenda típica de Iowa, a
margem de lucro do fazendeiro caiu de 35 porcento em 1950 para 9 porcento hoje.
A fim de gerar a mesma receita, esta fazenda teria que ser aproximadamente
quatro vezes maior hoje do que em 1950 – ou então o fazendeiro precisaria pegar
um trabalho noturno. E isto é exatamente o que vemos na maioria dos países
industrializados: menos fazendeiros em maiores extensões de terra produzindo
uma parcela maior do suprimento total de alimentos. O fazendeiro com margens
declinantes compra a terra do vizinho e amplia, ou arrisca-se a ser, ele mesmo,
canibalizado.
Há uma alternativa para essa
expansão gigantesca, que é reverter a tendência e trazer parte do suprimento de
insumos e processamento pós-colheita – e seus lucros correspondentes – de volta
à fazenda. Porém, mais lavouras auto-suficientes seriam altamente impopulares
para as indústrias que hoje obtêm altos lucros com insumos e processamento. E
uma vez que estas indústrias têm muito mais força política do que os
fazendeiros, há pouco apoio para tirar os fazendeiros das suas condições cada
vez mais servis – e essa idéia praticamente já caiu no esquecimento. Os
fazendeiros continuam a perceber que o único caminho para o sucesso é se tornar
grande.
A explicação tradicional para essa
pressão constante de “crescer ou dar o fora” foi que torna a rede alimentícia
mais eficiente – maiores fazendas substituem as menores, uma vez que as maiores
operam a custos mais baixos. Sob certos aspectos, isto é verdade. A expansão
permite que o fazendeiro dilua o custo de um trator por uma área maior, por
exemplo. Um porte maior também significa maior alavancagem na compra de insumos
ou na negociação de crédito – cada vez mais importante quando colheitadeiras
combinadas e outros equipamentos orientados por satélite tornam a agricultura
mais intensiva em capital. Porém, essas economias de escala caracteristicamente
se estabilizam. Dados para uma variedade de produtos cultivados nos Estados
Unidos mostram que os custos de produção mais baixos são geralmente alcançados
em fazendas bem menores do que a fazenda típica de hoje. Mas as grandes
fazendas podem suportar margens menores e assim, embora não produzam a custo menor têm condições de vender a um preço menor, se a isto forem
forçadas – como realmente o são pelos processadores de alimentos que adquirem
seus produtos. Em suma, na medida em que uma fazenda gigante tem benefício
financeiro sobre uma pequena, é um benefício que só favorece o processador – e
não o fazendeiro, a comunidade agrícola ou o meio-ambiente.
Esta saída do dólar alimentício dos
fazendeiros é agravada pelas concentrações intensas em cada elo da cadeia
alimentícia – desde as sementes e herbicidas até o crédito agrícola e o varejo.
No Canadá, por exemplo, apenas três empresas controlam mais de 70 porcento das
vendas de fertilizantes, cinco bancos oferecem a grande maioria do crédito
agrícola, duas empresas controlam mais de 70 porcento dos frigoríficos de carne
e cinco empresas dominam o varejo de produtos alimentícios. A fusão da Philip
Morris e Nabisco criará um império que recolherá quase 10 centavos de cada
dólar que um consumidor gasta em alimentos, de acordo com um porta-voz de uma
empresa. Tal concentração pode ser mortal para as bases, permitindo que as
empresas de agronegócios obtenham preços mais altos pelos produtos que os
fazendeiros adquirem delas, enquanto ofertam preços menores pelos produtos que
adquirem dos fazendeiros.
Uma forma de concentração ainda mais
preocupante, de acordo com Bill Heffernan, um sociólogo rural da Universidade
de Missouri, é o surgimento de vários grupos de empresas que, através de
fusões, aquisições e alianças com outros elos da cadeia alimentícia, possuem
hoje um “controle inconsútil e totalmente verticalizado da rede alimentícia,
desde o gene até a prateleira do supermercado.” Consideremos a parceria recente
entre Monsanto e Cargill que controla sementes, fertilizantes, pesticidas,
crédito agrícola, colheita e processamento de grãos, processamento de ração animal,
pecuária e abate, como também algumas marcas famosas de alimentos processados.
Do ponto de vista de uma empresa como a Cargill, tais alianças geram um controle tremendo sobre os custos e assim
são extremamente lucrativas.
Mas, imaginemos que você é o
fazendeiro. Quer comprar sementes para cultivar milho? Se a Cargill for o único
comprador de milho num raio de 160 quilômetros, e só compra uma variedade
específica de milho Monsanto para suas fábricas, silos ou forragem, então se
você não plantar a semente Monsanto não terá mercado para seu milho. Precisa de
um empréstimo para comprar a semente? Vá ao Banco de Ellsworth (que pertence à
Cargill) mas não deixe de informar que semente estará comprando. Mencione
também que irá comprar o fertilizante da marca Saskferco, da Cargill. Tudo bem,
mas se quando o milho é cultivado você não estiver propenso a vender ao preço
ditado pela Cargill? Bem, aí talvez você alimente os porcos com o milho,
vendendo-os a quem pagar mais. Sem problema – a Excel Corporation, da Cargill,
também compra porcos. OK, você vai mudar para a cidade e abandonar a
agricultura. Não mais aqueles grãos grossos no café da manhã, você agora compra
flocos de milho. Boa notícia: a Cargill Foods fornece a farinha de milho para
os fabricantes das principais marcas de cereais. Você notará, entretanto, que
todas as grandes marcas têm o mesmo alto preço, por onça. Afinal, são todas
fabricadas pelo oligopólio agrícola.
À medida que esses conglomerados
alimentícios verticais se consolidam, alerta Heffernan, “sobra pouco espaço na
rede alimentícia global para os fazendeiros independentes” – para quem cada vez
mais sobram os contratos “pegue ou largue” dos conglomerados. Nas duas últimas
décadas, por exemplo, a parcela do produto agrícola norte-americano produzida
sob contrato mais que triplicou, de 10 para 35 porcento – e isto não inclui os
contratos que os fazendeiros são obrigados a assinar para o plantio de sementes
geneticamente modificadas. Este controle centralizado da rede alimentícia, na
qual os fazendeiros na realidade são reduzidos a servos em suas próprias
glebas, traz à mente de Heffernan as fazendas estatais russas, mas com o papel
do Grande Irmão sendo hoje desempenhado pelos executivos do agronegócio. É
também reminiscente do “armazém da companhia” que outrora predominava nas
pequenas cidades industriais ou mineiras americanas, com a exceção que, se hoje
você mudar de cidade, o armazém continua com você. O armazém da companhia
globalizou-se. Com os conglomerados, donos do dólar alimentício e também
possuidores da força política, não é surpresa que a política agrícola –
incluindo subsídios, incentivos fiscais e legislação ambiental tanto em nível
nacional quanto internacional –não favoreça em geral às fazendas. Por exemplo,
os conglomerados detêm uma influência crescente sobre as prioridades de
pesquisa agrícola, tanto privada quanto pública, o que pode explicar porque o
Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), um órgão aparentemente
compromissado com os fazendeiros, ajudou a desenvolver a tecnologia
“Terminator” de esterilização de sementes – uma biotecnologia que apenas
proporciona aos fazendeiros maior dependência dos fornecedores de sementes. Em
alguns casos, a influência é indireta, como demonstrado nas decisões de
financiamento governamental, enquanto em outros é mais óbvia. Quando a Novartis
forneceu US$ 25 milhões para financiar uma parceria de pesquisa com o
departamento de biologia vegetal da Universidade da Califórnia, em Berkeley,
uma das condições foi que a Novartis teria o primeiro direito de recusa para
qualquer invenção patenteável. Nestas condições, naturalmente, as autoridades
da UC – conscientes de onde vêm seus recursos – têm grande motivação para
dedicar mais atenção a tecnologias como a da semente “Terminator,” que retira o
lucro do fazendeiro, do que para tecnologias que beneficiem diretamente o
fazendeiro ou o público em geral.
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ConAgra: Integração vertical, Concentração Horizontal, Onipresença Global Três conglomerados (ConAgra/DuPont, Cargill/Monsanto e Novartis/ADM dominam praticamente cada elo da cadeia alimentícia norte-americana (e cada vez mais a global). Segue abaixo um diagrama simplificado de um conglomerado: LEGENDA: ê Integração
vertical dos elos de produção, da semente ao supermercado « Concentração
dentro de um elo |
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INSUMOS Distribuição de produtos químicos agrícolas,
maquinário, adubo e sementes ê |
« |
3 empresas dominam o
setor de mecanização agrícola norte-americano 6 empresas detêm 63% do
mercado global de pesticidas 4 empresas detêm 69% do
mercado de semente de milho nos EUA 3 empresas detêm 71% da
capacidade de adubo nitrogenado canadense ConAgra
distribui todos estes insumos e têm uma ‘joint-venture’ com a DuPont para a
distribuição da semente transgênica de milho com alto teor de óleo, da DuPont |
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FAZENDAS ê |
« |
O setor agrícola está se
consolidando rapidamente no mundo industrializado, à medida que as fazendas
“ou crescem ou dão o fora.” Muitas firmam contrato com o ConAgra e outros conglomerados; outras sucumbem. Nos últimos 50
anos, o número de fazendeiros caiu em 86% na Alemanha, 85% na França, 85% no
Japão, 64% nos EUA, 59% na Coréia do Sul e 59% no Reino Unido. |
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COLHEITA DE GRÃOS ê |
« |
Uma fusão planejada da
Cargil e Continental Grain irá controlar metade do comércio mundial de grãos;
ConAgra detêm cerca de um quarto. |
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MOAGEM DE GRÃOS |
« |
ConAgra e
3 outras empresas representam 62% do mercado norte-americano. |
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ê PRODUÇÃO DE CARNE DE BOI, PORCO, PERU, FRANGO E
FRUTOS DO MAR |
« « |
ConAgra
ocupa o 3o lugar em ração animal e 5o em produtos para
assar ConAgra
Poultry, Tyson Foods, Perdue e 3 outras empresas controlam 60% de toda a
produção de frangos nos Estados Unidos |
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ê PROCESSAMENTO DE CARNE DE BOI, PORCO, PERU, FRANGO E
FRUTOS DO MAR |
« « |
IBP, ConAgra, Cargill e Farmland controlam 80% do processamento de
carne bovina nos Estados Unidos Smithfield, ConAgra e 3 outras empresas controlam
75% do processamento de carne suína nos Estados Unidos |
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ê SUPERMERCADOS |
« |
As divisões do ConAgra detêm o controle do óleo
Wesson, peru Butterball, carnes Swift Premium, manteiga de amendoim Peter
Pan, alimentos dietéticos Healthy Choice, molho de tomate Hunt e cerca de 75
outras grandes marcas. |
Mesmo
as políticas que são alardeadas como de maior interesse para os fazendeiros,
como a liberação do comércio em produtos agrícolas, são cada vez mais
desenvolvidas por não-fazendeiros. Comerciantes, processadores e distribuidores
agrícolas, por exemplo, foram alguns dos principais arquitetos das revisões
recentes do Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT) – o precursor da
Organização Mundial do Comércio – que abriu caminho para um maior fluxo
comercial das commodities agrícolas. Antes dessas revisões, muitos países
tinham mecanismos que asseguravam que os fazendeiros não seriam retirados de
seus próprios mercados locais por comerciantes globais predatórios. Os
comerciantes, entretanto, conseguiram acabar com estas proteções.
A capacidade do agronegócio de
deslizar em torno do planeta, comprando ao preço mais baixo possível e vendendo
ao mais alto, ajudou a aumentar o aperto já estabelecido pela marginalização
econômica, lançando todos os fazendeiros do planeta numa concorrência direta
entre si. Uma avaliação recente da Organização de Alimentos e Agricultura das
Nações Unidas (FAO) sobre a experiência de 16 nações em desenvolvimento na
implementação da última fase do GATT, concluiu que “uma preocupação comum foi a
tendência geral em direção à concentração de fazendas,” um processo que tende a
marginalizar ainda mais os pequenos produtores e agravar a pobreza e o
desemprego rural. A triste ironia, de acordo com Thomas Reardon, da
Universidade do Estado de Michigan, é que enquanto os pequenos produtores em
todas as partes do mundo estão sendo cada vez mais afetados pela importação de
alimentos baratos, altamente subsidiados, de fora de seus mercados rurais
tradicionais, são também excluídos da oportunidade deles mesmos participarem
das exportações de alimentos. A fim de manter os custos comerciais baixos e a
uniformidade do processamento, os exportadores e outros atores secundários
preferem comprar de poucos grandes produtores, ao invés de muitos pequenos
produtores.
Á medida que a rede alimentícia
global se torna cada vez mais dominada por um punhado de corporações
internacionais, verticalmente integradas, a servidão do fazendeiro aponta para
uma servidão social mais ampla, que os cartéis dos alimentos, à semelhança da
OPEP, podem impor, através do seu controle sobre os preços e qualidade dos
alimentos. Economistas agrícolas já observaram que o distanciamento crescente
entre os preços dos alimentos no varejo e na fazenda durante a década de 90,
foi quase que exclusivamente devido à exploração do poder de mercado, e não aos
serviços extras fornecidos pelos processadores e varejistas. É questionável se
deveremos pagar tanto para uma embalagem do pão quanto para os nutrientes que
contém. Além disto, há uma questão mais fundamental. Os fazendeiros são
profissionais, com extenso conhecimento de seus solos, clima, vegetação nativa,
fontes de fertilizante ou compostos orgânicos, polinizadores nativos, ecologia
e comunidade. Se é que teremos um mundo onde a terra não é mais manejada por
estes profissionais e sim gerida por burocracias corporativas distantes,
interessadas em extrair o máximo de produção a um mínimo de custo, que tipo de
alimentos teremos, e a que preço?
Serviços Agrários
Sem
dúvida, grandes fazendas industriais podem produzir grandes quantidades de
alimentos, São, de fato, projetadas para maximizar quantidade. Porém, quando o
fazendeiro se torna pouco mais que um produtor da matéria prima de mais baixo
custo, mais do que seu bem-estar sofrerá. Embora o setor agrícola tenha perdido
poder e lucro, ainda é o elo da cadeia dos alimentos agrícolas que representa a
maior parcela de bens públicos da agricultura – incluindo metade dos empregos
mundiais, muitas das suas comunidades mais vitais e muitas das suas paisagens
mais diversificadas. E ao prover muitos desses bens, as pequenas fazendas
claramente levam vantagem.
Estabilidade
econômica e social local: Há mais de um século atrás, William Goldschmidt,
um antropólogo trabalhando no USDA, tentou avaliar como a estrutura e porte de
uma fazenda afetam a saúde das comunidades rurais. No San Joaquin Valley, na
Califórnia, uma região então considerada como de ponta para a industrialização
agrícola, ele identificou duas pequenas cidades, idênticas em todas as
dimensões econômicas e geográficas básicas, inclusive no valor da produção
agrícola, mas excetuando o tamanho das fazendas. Comparando as duas, constatou
uma correlação inversa entre os tamanhos das fazendas e o bem-estar das
comunidades das quais faziam parte.
A comunidade de pequenas fazendas,
Dinuba, sustentava cerca de 20 porcento a mais de pessoas, num padrão de vida
consideravelmente mais elevado – incluindo taxas de pobreza mais baixas, menor
distinção de classe econômica e social, menor índice de criminalidade – do que
a comunidade de fazendas maiores de Arvin. A maioria dos habitantes de Dinuba
eram empresários independentes, contra menos de 20 porcento dos residentes de
Arvin – muitos dos outros sendo trabalhadores agrícolas. Dinuba tinha duas
vezes mais estabelecimentos comerciais do que Arvin, e realizava 61 porcento
mais de negócios no varejo. Tinha mais escolas, parques, jornais, organizações
civis e igrejas, como também melhor infra-estrutura física – ruas pavimentadas,
calçadas, coleta de lixo, esgoto e outros serviços públicos. Dinuba também
tinha maior número de instituições para tomada de decisões democráticas e uma
participação mais ampla de seus cidadãos. Cientistas políticos há muito
reconhecem que uma base ampla de empresários independentes e proprietários de
imóveis é um ponto chave para uma democracia sadia.
A distinção entre Dinuba e Arvin
indica que a agricultura industrial pode estar limitada naquilo que pode
representar para uma comunidade. Menos empregos (e menos importantes), menos
gastos públicos e um fluxo hemorrágico de lucros para proprietários ausentes e
fornecedores distantes significa que as fazendas industriais podem, na
realidade, ser um dreno na economia local. Esta hipótese é corroborada por Dick
Levins, um economista agrícola da Universidade de Minnesota. Levins estudou a
receita econômica do Condado Swift, em Iowa, uma comunidade típica de milho e
soja no Centro-Oeste, e constatou que embora as vendas agrícolas totais estejam
no ponto mais alto da história, a receita agrícola está desalentadoramente
baixa – e que muitos daqueles que eram outrora os sustentáculos financeiros da
comunidade, estão hoje altamente endividados. “A maior parte do Cinturão do
Milho nos Estados Unidos, como o Condado Swift, é uma colônia, dominada e
operada por pessoas que não residem lá,” diz Levins. Na realidade, a maioria
das terras do Condado Swift é arrendada, a maior parte de proprietários
ausentes.
Esse novo raciocínio na agricultura
pode estar eliminando o papel tradicional das pequenas fazendas no ancoramento
das economias rurais – o tipo de tradição, por exemplo, que vimos na ênfase
dada ao apoio das pequenas fazendas no Japão, Coréia do Sul e Taiwan, após a II
Guerra Mundial. Esta ênfase, que trouxe uma reforma agrária radical e centrou
investimentos em áreas rurais, é largamente citada como tendo sido um grande
estímulo à prosperidade econômica que esses países desfrutaram.
Conseqüentemente, quando as
perspectivas econômicas das pequenas fazendas declinam, o tecido social das
comunidades rurais começa a romper. Nos Estados Unidos, as famílias agrícolas
tem mais do dobro de possibilidades, em comparação aos outros, de viverem na
pobreza. Têm menos instrução e menores taxas de proteção médica, juntamente com
maiores índices de mortalidade infantil, alcoolismo, abuso infantil, abuso
matrimonial e tensão mental. Por toda a Europa, evidencia-se um padrão
semelhante. E na África sub-saariana, a socióloga Deborah Bryceson, do Centro
de Estudos Africanos da Holanda, analisou os deslocamentos de pequenos
produtores e constatou que “à medida que se desfaz o agrarianismo, os sinais de
disfunção social associados às áreas urbanas (incluindo pequenos crimes e colapso
de laços familiares) emergem nos vilarejos.”
As pessoas sem um emprego
significativo freqüentemente se tornam frustradas, porém os fazendeiros podem
ser um caso especial. “Mais do que outras ocupações, a agricultura representa
um meio de vida e define sua personalidade, “diz Mike Rosemann, um psicólogo
que dirige uma rede de consultoria para agricultores em Iowa. “A perda da
fazenda familiar, ou a perspectiva de perdê-la, pode gerar um sentimento
profundo de culpa e ansiedade, como se tivesse falhado na proteção do
patrimônio que seus ancestrais se esforçaram para conquistar.” Uma medida do
desespero é o aumento mundial no número de suicídios entre agricultores. Em
1998, mais de 300 produtores de algodão em Andhra Pradesh, na Índia,
suicidaram-se ingerindo os pesticidas que se endividaram para adquirir, mas que
não serviram para salvar suas lavouras. Na Grã-Bretanha, trabalhadores
agrícolas têm duas vezes e meia maior probabilidade de cometerem suicídio do
que o resto da população. Nos Estados Unidos, estatísticas oficiais mostram que
os fazendeiros hoje estão cinco vezes mais propensos a cometerem suicídio do
que de morrerem por acidentes na fazenda, tradicionalmente a causa mais
freqüente de mortes não naturais. O número real pode até ser maior, pois os
serviços de apoio à vida informam que freqüentemente recebem chamadas de
fazendeiros que desejam saber que tipos de acidentes (Cair nas lâminas da
colheitadeira? Ser alvejado numa caçada?) são menos prováveis de serem
investigados pelas companhias de seguro que não pagam indenizações por
suicídios.
Seja por desespero ou por ira, os
fazendeiros parecem cada vez mais dispostos a enfrentarem, às vezes
violentamente, o governo, ricos latifundiários ou gigantes do agronegócio. Nos
anos recentes testemunhamos a revolução Zapatista em Chiapas, a ocupação de
fazendas de brancos pelos negros sem terra de Zimbábue e os ataques dos
fazendeiros europeus aos armazéns que estocavam sementes geneticamente
modificadas. No livro Harvest of Rage
[tradução livre: Colheita da Fúria] o jornalista Joel Dyer liga a explosão na
Cidade de Oklahoma que matou quase 200 pessoas – como também o aumento das
milícias da direita radical e anti-governamental na região central dos Estados
Unidos – a um desespero e ira crescentes, decorrentes da crise agrícola
contínua. Thomas Homer-Dixon, diretor do Projeto sobre Meio-Ambiente, População
e Segurança, da Universidade de Toronto, considera o deslocamento de
fazendeiros e o conseqüente desemprego e pobreza rural, como uma das ameaças
mais sérias à segurança nas décadas futuras. Este deslocamento é responsável
por cerca da metade do crescimento das populações urbanas por todo o Terceiro
Mundo, que ocorre em favelas voláteis já pressionadas para atender às
necessidades básicas de seus habitantes. “O que foi uma transição extremamente
traumática para a Europa e América do Norte, de uma sociedade rural para uma
urbana, hoje se processa duas a três vezes mais rapidamente nos países em
desenvolvimento,” diz Homer-Dixon. Mas, estas nações estão consideravelmente
menos industrializadas para absorver a mão-de-obra. Esta transição acelerada
lança desafios gigantescos de ajuste para a Índia e a China, onde talvez um
bilhão e meio de pessoas ainda retiram seu sustento da terra.
Estabilidade
ecológica: Nos planaltos andinos, uma única fazenda pode ter de 30 a 40
variedades distintas de batatas (juntamente com inúmeras outras plantas
nativas), cada uma possuindo solos ótimos ligeiramente diferenciados, como
também água, luz e regimes de temperatura que o fazendeiro – com tempo
suficiente – pode administrar. (Em comparação, nos Estados Unidos, apenas
quatro variedades intimamente relacionadas, representam cerca de 99 porcento de
todas as batatas produzidas.) Porém, de acordo com Karl Zimmerer, um sociólogo
da Universidade de Wisconsin, as rendas agrícolas declinantes nos Andes forçam
mais e mais produtores a se transformarem em mão-de-obra migrante, durante
parte do ano, com graves impactos na ecologia agrícola. À medida que o tempo
encurta, o agricultor maneja o sistema mais homogeneamente – reduzindo o número
de variedades tradicionais (uma pequena horta de variedades culinárias
favoritas pode ser o último refúgio da diversidade), e aumentando a produção de
algumas variedades comerciais. A maior parte da diversidade agrícola
tradicional é perdida.
|
“Teríamos que multiplicar as ameaças que as
famílias agrícolas enfrentam nos Estados Unidos ou Europa cinco, dez ou vinte
vezes para ter uma idéia das dificuldades dos camponeses em nações menos
desenvolvidas,” diz Deborah Bryceson, fellow-sênior
em pesquisa do Centro de Estudos Africanos da Holanda. Essas dificuldades
incluem acesso insuficiente a crédito e financiamento, falta de estradas e
outra infra-estrutura em regiões rurais, domínio inseguro da terra e carência
de terra onde há densidade populacional. Três forças se destacam como particularmente
desafiadoras para esses camponeses: Exigências
de ajustes estruturais, imposto às nações endividadas por instituições financiadoras
internacionais, levaram à privatização de “órgãos oficiais de compra da
produção” que eram responsáveis pela proteção pública das economias rurais.
“As entidades recém privatizadas não têm compromisso para atender as áreas rurais
marginais,” diz Rafael Mariano, Presidente de um sindicato de fazendeiros
filipinos. Sob as novas regras, a proteção do estado contra práticas como
“dumping” de produtos importados baratos (com os quais os fazendeiros locais
não podem competir), foi abandonada ao mesmo tempo que o tratamento da saúde,
a educação e outros serviços sociais estatais foram reduzidos. Políticas de
liberalização do comércio associadas a ajustes estruturais reduziram a capacidade das nações
de protegerem suas economias agrícolas, mesmo se quisessem. Por exemplo, o
Acordo sobre Agricultura da Organização Mundial do Comércio proibirá
mecanismos de apoio a preços internos e tarifas sobre importações – alguns
dos meios básicos pelos quais um país pode resguardar seus próprios fazendeiros
do excesso da produção e concorrência estrangeira. A ênfase
crescente em normas e classificações agrícolas – a uniformização das
lavouras e produtos para que possam ser processados e comercializados mais
“eficientemente” – tendeu a favorecer grandes produtores e a marginalizar os
pequenos. A indústria de alimentos e os super-mercados emergiram como as
entidades dominantes da cadeia agro-alimentícia global que, centrada na
consistência de marcas, uniformidade de ingredientes e alto volume, dificulta
o fornecimento de pequenos produtores ou nem os convidam a ofertar. Apesar dessas condições intimidantes, muitos
lavradores tendem a resistir muito além de sua capacidade de competir. Uma
das razões, diz Peter Rosset, do Instituto de Alimentos e Políticas para o
Desenvolvimento, é que “mesmo quando não há esperança se agarram à
agricultura, que lhes dá ao menos algum nível de segurança alimentícia – para
seu próprio sustento.” Mas, com as pressões que se acumulam, particularmente
quando a produção para exportação absorve maiores extensões de terra, mesmo
este recurso está perdido. |
Sistemas agrícolas complexos
requerem um conhecimento íntimo e altamente sofisticado da terra – algo que os
pequenos produtores, com dedicação integral, estão mais aptos a desenvolver.
Duas ou três culturas diferentes, com diferentes profundidades de raízes, por
exemplo, freqüentemente podem ser cultivadas na mesma extensão de terra, ou
lavouras que exigem drenagem diferente podem ser plantadas próximas umas às
outras em terreno com topografia diferenciada. Porém, estes tipos de cultivo
não podem ser realizados com tratores pesados em alta velocidade. O cultivo
altamente específico em termos de local e intensivo em manejo, requer
engenhosidade e consciência da ecologia local, e não pode ser realizado com
equipamentos pesados e aplicações fortes de agrotóxicos. Isto não quer dizer
que ser pequeno é sempre o suficiente para assegurar uma produção de alimentos
ecologicamente segura, pois a adversidade econômica pode levar pequenas fazendas,
como também as maiores, a comprometerem a produção sustentável pela
transmutação da arte do manejo da terra, no trabalho bruto de produção de
commodities. Mas uma fazenda em larga escala, altamente mecanizada,
simplesmente não está equipada para preservar a complexidade natural. Ao invés,
seu modo normal é o uso de instrumentos de manejo grosso, como lavouras
geneticamente modificadas para gerarem inseticidas, tornando desnecessária a
checagem do campo para verificação se há realmente necessidade de pulverização.
No Centro-Oeste dos Estados Unidos,
à medida que as dimensões das fazendas aumentaram os sistemas de cultivo se
tornaram mais simplificados. Desde 1972, o número de condados com mais de 55
porcento de sua área cultivada com milho e soja quase triplicou, de 97 para 267
acres. À medida que aumentavam, a maior simplicidade de manejo da rotação
milho-soja (uma fazenda de 800 acres, por exemplo, não requer mais de duas
semanas de plantio na primavera e umas poucas semanas de colheita no outono)
tornou-se seu principal argumento de venda. Os vários ramos da economia
agrícola na região, desde serviços de extensão aos silos supridores de
sementes, começaram a se solidificar em torno dessa rotação milho-soja,
reforçando o movimento dos fazendeiros para fora de outras lavouras.
Reduziram-se cada vez mais os criadores, pois a carne bovina e suína eram
“econômicas” apenas em outras partes do país onde se concentravam mais. A saída
da pecuária significou o abandono do trevo, mistura de pastos e uma fonte chave
de adubo no Centro-Oeste, e criou tremendas concentrações de esterco em outros
locais.
Porém, a rotação do milho e da soja
– uma monocultura seguida da outra – é extremamente ineficiente ou “vazadora”
em seu uso de fertilizantes aplicados, uma vez que o baixo nível de
biodiversidade tende a deixar vários nichos vazios no campo, incluindo
diferente profundidades de raízes e diferentes preferências de nutrientes.
Ademais, a mudança no Centro-Oeste para a monocultura submeteu o país a um
ataque duplo de poluição por nitrogênio, uma vez que não apenas a remoção e
concentração do gado tendem a depositar enormes quantidades de fezes nas áreas
(como Utah e Carolina do Norte) onde hoje se desenvolve a pecuária, mas também
as monoculturas que ficam no Centro-Oeste retêm muito menos nitrogênio do que
reteriam, caso sua lavoura fosse mais complexa. (A adição de apenas uma cultura
de centeio no inverno à rotação milho-soja, reduz o escoamento do nitrogênio em
quase 50 porcento.) E talvez este desastre em potencial devesse ser realmente
considerado como um ataque triplo pois, além de contaminar os mananciais do
Centro-Oeste, o escoamento acaba no Golfo do México, onde o nitrogênio alimenta
eflorescências maciças de algas marinhas. Quando as algas morrem, são decompostas
por bactérias cuja respiração exaure o oxigênio da água – sufocando os peixes,
crustáceos e todas as outras formas de vida. Este processo torna,
periodicamente, 20.000 quilômetros quadrados do mar no litoral da Louisiana
biologicamente mortos. Assim, o ato de simplificar a ecologia de um campo em
Iowa pode contribuir para poluir dramaticamente Utah, Carolina do Norte,
Louisiana e Iowa.
A biodiversidade agrícola do mundo –
a apólice de seguro final contra variações climáticas, surtos de pragas e outras
ameaças imprevisíveis à segurança alimentícia – depende em grande parte dos
milhões de pequenos fazendeiros que utilizam essa diversidade em seus ambientes
locais de cultivo. Porém, a marginalização dos fazendeiros que desenvolveram ou
herdaram sistemas agrícolas complexos durante várias gerações, significa muito
mais do que apenas a perda de variedades específicas de culturas e do
conhecimento de como podem ser melhor cultivadas. “Perdemos para sempre o
melhor conhecimento e experiência disponíveis de locais, inclusive o que fazer
com terras marginais inadequadas para produção industrial,” diz Steve
Gleissman, um agro-ecólogo da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz. Os 12
milhões de porcos criados pela Smithfield Foods Inc., maior produtora e processadora
de suínos do mundo e pioneira na integração vertical, são quase geneticamente
idênticos e criados sob condições idênticas – independentemente de estarem num
confinamento da Smithfield em Virginia ou no México.
À medida que os fazendeiros se
tornam cada vez mais integrados à cadeia alimentícia do agronegócio, exercem
cada vez menos controle sobre a totalidade do processo produtivo – assumindo
mais e mais uma função de “aplicadores de tecnologia” ao invés de gestores
tomando decisões abalizadas e independentes. Pesquisas recentes do USDA sobre
avicultores sob contrato nos Estados Unidos, constataram que ao procurar
assessoria externa para suas atividades, estes criadores hoje se voltam
primeiramente para os banqueiros e depois para as corporações que detêm seus
contratos. Caso a corporação contratante seja a mesma empresa vendedora da
semente e fertilizante, como ocorre freqüentemente, há uma grande possibilidade
dos procedimentos da empresa serem seguidos. Essa corporação, como um
empreendimento global sem maiores compromissos locais, estará também menos
preocupada com a poluição e degradação de recursos criadas por tais
procedimentos, pelo menos em comparação a um fazendeiro radicado na comunidade.
Contratos de produtores geralmente não assumem responsabilidades ambientais.
E há a contaminação ecológica
característica da agricultura industrial em larga escala. Atividades colossais
de confinamento de gado – aqueles “outros locais” onde o gado fica concentrado
quando não são mais vistos nas fazendas de soja e milho do Centro-Oeste –
constituem talvez o exemplo mais flagrante de uma agricultura que, como uma
barcaça de lixo numa lagoa de peixinhos, ultrapassam a escala que um
ecossistema pode suportar. Os confinamentos são cada vez mais a norma na
pecuária pois, da mesma forma que a monocultura, viabilizam a produção de
imensas populações de gado que pode ser abatido e comercializado a custos
baixíssimos. Mas a desconexão entre o gado e a terra utilizada para produzir
sua ração significa que tais confinamentos geram volumes gigantescos de despejo
que o solo não pode absorver. (Uma fazenda em Utah cria mais de cinco milhões
de porcos num ano, gerando o mesmo lixo diário que a cidade de Los Angeles.) O
lixo é geralmente depositado em grandes lagoas que tendem a vazar e até mesmo
transbordar durante tempestades fortes. Da Carolina do Norte até a Coréia do
Sul, o fedor insuportável dessas lagoas – uma combinação de sulfeto de
hidrogênio, amônia e gás metano, que cheira a ovo podre – torna quilômetros de
áreas circunvizinhas inabitáveis.
Uma forma diferente de perturbação
ecológica resulta das condições sob as quais esses animais são criados. Uma vez
que o número maciço de animais em confinamento é altamente suscetível a
infecções e o uso constante de antibióticos pode incrementar ligeiramente o
crescimento animal, tornou-se usual na criação industrial de animais o uso
excessivo de antibióticos. Nos últimos meses, tanto os Centros de Controle e
Prevenção de Doenças nos Estados Unidos e a Organização Mundial de Saúde
identificaram estas atividades de alimentação industrial como as causas
principais da crescente resistência aos antibióticos por parte de bactérias
geradas pelos alimentos, como salmonella
e campylobacter. Enquanto a tomada de
decisão na cadeia alimentícia se torna cada vez mais concentrada – fechada por
trás de poucas portas corporativas – podem existir outras questões de segurança
alimentícia que nem tomamos conhecimento, particularmente na área emergente de
organismos geneticamente modificados (GMOs, em inglês). Em reação à preocupação
pública crescente sobre os GMOs, uma coalizão que candidamente se denomina
“Aliança para Alimentos Melhores” – na realidade composta de grandes varejistas
e processadores de alimentos, empresas de biotecnologia e organizações
agrícolas com financiamento corporativo – lançou uma campanha “educativa” de
US$ 50 milhões, além de doar mais de US$ 676.000 a legisladores e partidos
políticos americanos em 1999 para impedir a rotulagem obrigatória desses
alimentos.
Talvez mais surpreendente para as
pessoas que apenas casualmente acompanharam o debate sobre os valores da
pequena fazenda versus a “eficiência” da fazenda-fábrica, seja o fato que uma
vasta gama de evidências demonstra que as pequenas fazendas são, na realidade,
mais produtivas do que as grandes – chegando até a 200/1.000 porcento de maior
produção por unidade de área. Como é que isto se harmoniza com as alardeadas
vantagens de produtividade das atividades mecanizadas, de grande escala? A
resposta é simplesmente que estas vantagens são sempre calculadas na base do
quanto de uma lavoura a terra
produzirá por acre. Entretanto, a maior produtividade de uma fazenda menor,
mais complexa, é calculada na base de quanto alimento em geral é produzido por acre. A fazenda menor pode cultivar várias
lavouras utilizando diferentes profundidades de raízes, altura das plantas ou
nutrientes, na mesma área de terra simultaneamente . É esta “policultura” que
dá a vantagem de produtividade à pequena fazenda.
A fim de ilustrar a diferença entre
essas duas medidas, consideremos uma grande fazenda de milho do Centro-Oeste.
Esta fazenda pode produzir mais milho por acre do que uma pequena propriedade,
onde o milho é cultivado como parte de uma policultura que também inclui
feijão, abóbora, batata e ervas que servem para ração. Porém, em produto
global, a policultura – sob estreita supervisão de um fazendeiro experiente –
produz muito mais alimento, seja medido por peso, volume, bushels, calorias ou dólares.
A relação inversa entre o porte da
fazenda e o produto pode ser atribuída ao uso mais eficiente da terra, água e
outros recursos agrícolas das quais a pequena fazenda dispõe, inclusive as
eficiências do intercultivo de vários vegetais na mesma área, com plantios
múltiplos durante o ano, estabelecendo metas de irrigação e integrando a
agropecuária. Assim, em termos de conversão de insumos em produtos, a sociedade
se daria melhor com fazendeiros em pequena escala. E à medida que a população
continua a crescer em muitos países e os recursos agrícolas continuam a
encolher, uma pequena estrutura de cultivo pode ser fundamental para o
atendimento das necessidades futuras de alimentos.
Reconstruindo os Armazéns de
Alimentos
Ao se ver a variedade de pressões
que afligem os fazendeiros não é difícil entender o desespero crescente. A
situação se tornou explosiva, e se a estabilização da erosão da cultura e
ecologia agrícolas é hoje crucial não apenas para os fazendeiros, mas para
todos que se alimentam, ainda resta uma questão desafiadora sobre que estratégia
funcionará. Os gigantes do agronegócio estão bem enraizados hoje e protestos
dispersos terão o mesmo efeito neles como uma mordida de mosquito num trator.
As perspectivas dos fazendeiros conquistarem força política por conta própria
são fracas, pois seus números – pelo menos nos países industrializados –
continuam a encolher.
Uma maior esperança para mudança
pode estar numa união de forças entre os fazendeiros e o maior número de outros
segmentos da sociedade que hoje vêem os perigos, para seus próprios interesses,
da reestruturação contínua do campo. Há alguns modelos proeminentes para essas
coalizões, nas várias áreas que se juntaram para lutar contra os projetos de
aumento das capacidades de barcaças do Mississipi e da hidrovia brasileira que
estão sendo promovidos em nome da produtividade global da soja.
O grupo americano reuniu pelo menos
os seguintes aliados fluviais:
¨
Grupos
ambientalistas nacionais, incluindo o Sierra
Club e a National Audubon Society,
que estão alarmados com a perspectiva de um bem comum ser danificado, em
benefício de um pequeno grupo de interesse comercial;
¨
Fazendeiros
e organizações de apoio à agricultura, preocupados com o poder imoderado sendo
exercido por um oligopólio dos agronegócios;
¨
Grupos
de contribuintes irados com a perspectiva de incentivos ao bem-estar
corporativo que esvaziará mais de US$ 1 bilhão dos cofres públicos;
¨
Caçadores
e pescadores preocupados com a perda de habitats;
¨
Biólogos,
ecólogos e observadores de aves preocupados com as inúmeras espécies ameaçadas
de aves, peixes, anfíbios e vegetais;
¨
Grupos
de capacitação local preocupados com os impactos da globalização econômica
sobre as comunidades;
¨
Economistas
agrícolas temendo que o projeto consolide ainda mais a dependência dos
fazendeiros na exportação de commodities a granel, de baixo custo, perdendo
assim oportunidades valiosas de manter recursos na comunidade, através da
moagem, envasilhamento, cozimento e processamento locais.
Uma
coalizão paralela de grupos ambientalistas e de apoio à agricultura foi formada
no hemisfério Sul para resistir à expansão da hidrovia. Lá, também, a campanha
é parte de uma outra, maior, que desafia a hegemonia da agricultura industrial.
Por exemplo, foi formada uma coalizão em torno do Movimento dos Trabalhadores
Sem Terra, uma organização no Brasil que ajuda os trabalhadores sem terra a
realizar ocupações de terra improdutiva de propriedade de ricos latifundiários
. Esta coalizão inclui 57 organizações agrícolas com base em 23 países. Também
reuniu grupos ambientalistas da América Latina preocupados com os
empreendimentos afins de extração de madeira e pecuária, favorecidos pelos
grandes proprietários; prefeitos de municípios rurais que reconhecem o
incremento que os fazendeiros podem dar às economias locais; e organizações
sociais das cidades brasileiras, que vêem a ocupação de terras como uma
alternativa às favelas.
Os
projetos do Mississipi e da hidrovia brasileira, gigantescos como são, ainda
representam apenas dois entre centenas de empreendimentos agro-industriais que
estão sendo contestados em todo o mundo. Todavia, as coalizões que se formaram
em torno deles representam o tipo de reação concentrada com mais probabilidade
de refrear o gigante, em parte porque as soluções que essas coalizões propõem
não são expressões vagas ou quixotescas de idealismo, mas sim práticas e
localizadas. No caso da aliança em torno do projeto do Rio Mississipi o
trabalho da coalizão incluiu o questionamento das premissas da análise do Corpo
de Engenharia, o lobby para um exame antimonopolista dos cartéis de
agronegócios e a exigência de modificações aos subsídios agrícolas existentes
nos Estados Unidos, direcionados desproporcionalmente aos grandes fazendeiros.
Grupos ambientalistas estão procurando restabelecer um equilíbrio entre o uso do
Mississipi como transportador de barcaças e uma bacia hidrográfica intacta.
Simpatizantes agrícolas estão promovendo alternativas à rotação-padrão do
milho-soja, incluindo a produção certificada de lavouras orgânicas que possam
simultaneamente reduzir os custos de insumos e obter um ágio para o produto
final, reduzindo a poluição por nitrogênio.
Os
Estados Unidos e Brasil podem ter cometido erros custosos ao conceder tamanho
poder ao agronegócio para reconfigurar rios e terras para seu próprio uso.
Porém, a estratégia de coalizões interligadas pode se mobilizar a tempo para
resgatar muito da saúde agrícola mundial, antes que seja tarde demais. Dave
Brubaker, Diretor do Projeto Spira/GRACE sobre Produção Animal Industrial, da
Faculdade de Saúde Pública da Johns Hopkins University, vê essas várias
coalizões como “o início de uma revolução sobre a forma de vermos o sistema
alimentício, aliando a produção de alimentos com o bem-estar social, saúde
humana e o meio-ambiente.” O projeto de Brubaker reune autoridades de saúde
pública em torno do uso excessivo de antibióticos e contaminação hídrica
resultantes do dejeto súino; fazendeiros e comunidades locais que se opõem à
disseminação de novas fazendas fábricas, ou que desejam o fechamento das
existentes; e uma falange de aliados naturais com campanhas afins, incluindo
ativistas dos direitos animais, sindicatos trabalhistas, grupos religiosos,
ativistas de direitos do consumidor e grupos ambientalistas.
“À medida que o círculo de partes interessadas se
alarga, a aliança encurta a distância entre os fazendeiro e o consumidor,”
observa Mark Ritchie, Presidente do Instituto de Agricultura e Política
Comercial, um grupo de pesquisa e defesa freqüentemente no centro dessas
parcerias. Esta maior proximidade pode se tornar crucial para a
sustentabilidade final do nosso abastecimento, uma vez que hábitos de compra
social e ecologicamente seguros não são apenas o resultado passivo de mudanças na forma em que os alimentos são
produzidos, mas podem efetivamente ser as forças
motrizes mais poderosas dessas mudanças. A explosão de mercados agrícolas,
agricultura sustentada pela comunidade e outros acertos de compra direta entre
fazendeiros e consumidores, aponta para o número crescente de não-fazendeiros
que já mudaram seu papel na cadeia alimentícia: de escolher entre dezenas de
milhares de marcas de alimentos ofertadas por uma dezena de empresas, para se
desviarem totalmente dessas marcas. E, uma vez que muitos dos aditivos e etapas
de processamento que compõem o grosso do dólar do alimento são simplesmente as
conseqüências inevitáveis do tempo cada vez maior que o alimento comercial hoje
passa no trânsito e armazenagem globais, este encurtamento da distância entre
produtor e consumidor não apenas beneficiará a cultura e ecologia das
comunidades agrícolas. Também nos dará acesso a alimentos mais frescos,
gostosos e nutritivos. Felizmente, como qualquer mercador pode dizer, estas
características têm venda fácil.
*Brian Halweil é pesquisador
do WWI
© WWI-Worldwatch
Institute / UMA-Universidade Livre da Mata Atlântica, 2000. Todos os direitos
reservados.
Autorizada a
reprodução desde que citada a fonte e o site no Brasil www.wwiuma.org.br
O
Artigo completo, com gráficos e tabelas, pode ser encontrado na Revista World
Watch www.wwiuma.org.br