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World Watch
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Editorial

A Natureza Não Espera

por Mikhail Gorbachev

A queda do Muro de Berlin e a tempestade política que varreu o mundo há pouco mais de uma década foi, acima de tudo, um testemunho do poder do espírito humano para enfrentar adversidades. A Guerra Fria representava uma ameaça à segurança, liberdade e desenvolvimento de todo o planeta, criando uma barreira quase que intransponível entre os povos. Todavia, a combinação certa de visão humana e liderança corajosa levou este período negro da nossa história a um fim pacífico. Hoje, temos à frente outra ameaça, já responsável pelo grande sofrimento de milhões de pessoas: a degradação do meio-ambiente. Para enfrentar este desafio global precisaremos, novamente, de uma visão clara comum, determinação e liderança decisiva.

O impacto e as previsões do aquecimento global estão piorando, a desertificação avança; o desmatamento e a poluição estão pondo nossos ecossistemas em perigo; e mais de 1,2 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável.

Vimos desastres ambientais com destruição incalculável de vidas humanas e da natureza: a curto prazo, nos últimos meses, ocorreram enchentes devastadoras em grande parte da Europa e Sul da Ásia e destruição de petroleiros ao largo dos tesouros naturais das Ilhas Galápagos e dos recifes de barreira da Austrália; a longo prazo, imensas áreas da Terra foram irremediavelmente marcadas pela perda de florestas antigas, manejo inepto de bacias hidrográficas e contaminação.

Muitos especialistas ambientais alertam que estas tendências já estão avançadas demais para que possamos alcançar a sustentabilidade real através de mudanças graduais; acreditam que dispomos de 30 a 40 anos para agir. O tempo é curto e já estamos ficando para trás.Embora haja um número cada vez maior de iniciativas ousadas por parte de governos e líderes corporativos para a proteção do meio-ambiente, não vejo o surgimento de liderança e disposição capazes de assumir riscos na escala que precisamos para enfrentar a situação presente. Embora existam inúmeras pessoas e organizações dedicadas a promover maior conscientização e provocar mudanças na forma que tratamos a natureza, ainda não vi a visão clara e a frente unida que inspirarão a humanidade a reagir a tempo para corrigir nosso rumo.O exemplo do fracasso de liderança nas negociações sobre a mudança climática em Haia, em novembro passado, é preocupante. Este fracasso repousa nas mãos dos nossos líderes políticos, particularmente dos Estados Unidos, que nem ao menos ratificou o tratado e, em menor grau, na comunidade empresarial, que exerce uma influência cada vez maior sobre as políticas governamentais. Outro exemplo preocupante sobre como estamos errando na condução deste assunto é a natureza cada vez mais secreta do Fórum Econômico Mundial, realizado anualmente em Davos – isolando os delegados e afastando outros grupos de interesse.

Em Haia e Davos vimos a formação de divisões: Norte contra Sul e pró versus anti "globalizacionistas."

A situação é extremamente grave. É crucial que achemos uma forma de realizar mudanças rápidas e abrangentes na consciência e ação humana em todo o mundo – algo que nos permita provocar uma mudança de curso em grande escala em pouco tempo. Isto não será alcançado se permanecermos divididos.

O fim da Guerra Fria proporciona um exemplo de mudança movida por pessoas que alteraram positivamente o curso da história. Precisamos de uma mudança semelhante – uma mudança fundamental de valores – para assegurar que não deixemos passar esta oportunidade de salvar nosso lindo planeta, e a nós mesmos. Em primeiro lugar, entre as ameaças que deveremos enfrentar, estão aquelas representadas pelas armas nucleares e outras de destruição em massa, pela crise da água e pelo impacto da mudança climática.

Precisamos de uma nova maneira de pensar, uma nova ordem mundial que seja baseada mais em justiça e igualdade e menos em lucro. Pensávamos que a queda do Muro de Berlin introduziria estas mudanças mas, ao invés, um mundo mais complicado evoluiu e, o que é mais preocupante, vemos até sinais de ressurgimento da militarização.

O que pode ser feito? Que tipo de liderança precisamos? Penso que cinco pontos sejam vitais neste sentido:

1. O sistema das Nações Unidas deverá ser reformulado a fim de dar maior poder para ação e imposição das decisões em prol da paz e estabilidade;

2. Acordos, Convenções e Protocolos Internacionais importantes para o desarmamento, mudança climática, biodiversidade, desertificação e cursos d'água internacionais devem ser ratificados sem delongas e implementados com coragem e determinação;

3. Objetivos ambientais deverão ser integrados desde o início ao planejamento desenvolvimentista e a qualquer tipo de atividade econômica;

4. Líderes políticos – e empresariais – deverão reconhecer suas responsabilidades e agirem para transformar a retórica em ação e alcançar sustentabilidade ambiental;

5. O declínio do desenvolvimento internacional deverá ser revertido, permitindo que as nações em desenvolvimento reduzam suas dívidas acachapantes, atendam suas necessidades humanas básicas e acessem tecnologias a fim de utilizarem materiais e energia eficientemente, com um mínimo de água. Se nada for feito para atingir a sustentabilidade na primeira parte deste novo século, diminuirá a perspectiva para a sobrevivência da humanidade. Mas, se pensasse que não havia esperança, não teria me juntado a vocês do movimento ambiental, como Presidente da Green Cross International. A natureza está nos dando todos os sinais que precisamos para desenvolver uma visão comum do futuro: precisamos perceber esta mensagem e agir agora. Governos, indivíduos, corporações – vamos caminhar juntos, com liderança ousada, para resolver a crise ambiental. A natureza não espera.

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"Precisamos de um novo sistema de valores, que reconheça a unidade orgânica entre a humanidade e a natureza e promova a ética de responsabilidade global," declarou Mikhail Gorbachev após o fim da Guerra Fria que dividiu a humanidade durante meio século. Para realizar esta missão, o ex-dirigente da União Soviética criou a Green Cross International (GCI), sediada em Genebra, Suíça, hoje com afiliadas em 26 países.A afiliada norte-americana da GCI é a Global Green USA, fundada em 1994 com sede em Los Angeles. As conquistas da GCI e Global Green nos EUA no ano passado incluíram o resgate do programa de destruição de armas químicas da Rússia de eliminação pelo Congresso dos Estados Unidos; a criação de uma campanha publicitária na Europa para promover apoio internacional à Convenção sobre Armas Químicas; e formação de parcerias com 11 cidades e condados da Califórnia para o desenvolvimento de programas de ponta para a construção do verde.

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